Tombamento do Cine Belas Artes: complexidade do tema desafia o Conpresp

O pedido de tombamento do Cine Belas Artes junto ao Conpresp (Conselho Municipal do Patrimônio da Cidade de São Paulo) significa para este órgão – e para a cidade que este representa – o desafio de atualizar a noção de patrimônio histórico dos paulistanos, aproximando-a  muito mais daquilo que a Constituição de 1988 definiu como valor a ser preservado:  aquilo que carrega um forte significado para os cidadãos.

Esta tarefa não é simples: implica deslocar um olhar focado em um suposto valor excepcional da arquitetura de um lugar para incluir uma pluralidade de valores – como, por exemplo, a importância para a cidade do uso simbólico de uma esquina (Av. Paulista X Rua da Consolação) como ponto de formação/fruição de milhares de cinéfilos.

O “caso Belas Artes” é talvez um dos primeiros que o Conpresp enfrenta nesta direção – tanto é inovador o pedido encaminhado ao órgão pelos defensores da permanência do cinema naquele local, quanto o desafio conceitual e teórico que o Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo ousou enfrentar, mostrando que, na prefeitura de São Paulo, existem profissionais preparados para atualizar conceitos e práticas.

A votação do processo está prevista para acontecer amanhã, terça-feira, 13 de setembro. O movimento em defesa do Cine Belas Artes protocolou um pedido de adiamento desta votação, já que, tendo o processo ficado vários meses na Procuradoria do Município, os interessados tiveram apenas uma semana para ler todo seu conteúdo e preparar sua intervenção.

Trata-se de uma reivindicação mais do que justa e correta: este processo e esta votação, como disse acima, vai muito além do tema do Belas Artes em si mesmo, representando uma oportunidade de atualização/renovação de uma questão fundamental para a cidade de São Paulo (o que é fundamental para a cidade preservar?), principalmente em tempos de enorme dinâmica imobiliária e de transformações no uso do solo da cidade.

Em tempo: na próxima quinta-feira, acontece, na Câmara Municipal de São Paulo, uma audiência pública e uma Noite em Homenagem ao Cine Belas Artes. Clique aqui para ver a programação e mais informações.

Leia mais: Nota à imprensa do Movimento pelo Cine Belas Artes

8 comentários sobre “Tombamento do Cine Belas Artes: complexidade do tema desafia o Conpresp

  1. Raquel, achei bem interessante a forma como vc anda encaminhando esta questão do Belas Artes. De fato ele não é um bem que deva ser tombado por seu valor arquitetônico. Por outro lado, não existe ainda “defesa” para aqueles bens que fazem parte da formação de determinados lugares de referência na cidade. Na ocasião da desocupação do Belas Artes, fiz um texto em meu blog como muitas pessoas fizeram, ele parte de um universo de filmes e cinemas que frequentei e que outros tb frequentaram ao longo da vida. Acho que a reflexão que o Belas Artes coloca para o Patrimônio Histórico, tem tb. este desafio, oferecer proteção para aquilo que não necessariamente se articula com a construção do edificio, mas com o lugar e com seus frequentadores. Vamos ver o que vai dar…

    Segue o link do Versão Paulo:
    http://www.carbonoquatorze.com.br/versaopaulo
    abraço, Paula Janovitch

  2. Sou carioca e morei em São Paulo.

    Fui da “Geração Paissandu e também frequentadora assídua das salas do Belas Artes em seus primórdios (Unibanco).

    Faço das de um blogueiro minhas palavras, para expressar o que acho dessa história toda:

    “O Cine Paissandu é bastante lembrado por ter sido nos anos 60 e 70 (época da ditadura civil-militar no Brasil) um centro de discussões sobre cinema da nouvelle vague, cinema novo e de vanguarda europeu e outros assuntos (política, história, cultura, artes etc.) e ponto de encontro de cinéfilos desde a sua fundação até o fechamento, chegando a formar até mesmo a chamada Geração Paissandu. Nas proximidades funcionavam alguns bares e lanchonetes que eram utilizados pelo frequentadores da sala, como a Oklahoma Lanchonete, o Bar Cinerama e o Café Lamas. Seus diferenciais, além da óbvia programação, incluíam sessões à meia-noite e o Festival de Cinema Amador do Jornal do Brasil (também chamados de Festivais JB-Mesbla). O Cine Paissandu é reconhecido pela prefeitura do município como patrimônio cultural carioca.”

    Porque não uma Geração Belas Artes?

  3. Acho o movimento sobre o tombamento do Belas Artes equivocado, pareceu-me desde o início apenas uma choradeira dos que continuam frequentando, o espaço não tem valor arquitetônico nem histórico, o cine Bijou mereceria melhor atenção, se é para preservar os espaços das imediações acho o espaço do antigo Bar Riviera mais importante. Para mim o principal equivoco do processo de tombamento é não pensar no entorno que foi vampiristicamente esvaziado na sua ânima. Não vi protestos quando o ex-prefeito acabou com as feiras de livros, tão animadas e presentes nas principais cidades do mundo. proponho que se faça um acordo com o poder público e reaproveite aquela estação de Metrô com seu super pé direito tão megalomaníaco quanto inútil, acho que caberiam ao menos duas salas e teríamos um “cinema público” que poderia ser gerido por gentes do meio junto com as autoridades. Preços razoáveis, etc..

  4. Excelente texto, Raquel. Sem dúvida, a discussão sobre preservação do patrimônio, ainda sempre atrelado aos condicionantes “arquitetônico”, “histórico”, “artístico”… acaba por afastar o objetivo primário que é resguardar, em meio à constante transformação do espaço em que vivemos, alguns exemplares de valor excepcional. O importante do caso Belas Artes é trazer à tona a complexidade desta questão: se, com isso, pelo menos consigamos voltar o foco à atualização da legislação e de conceituação, já estaremos dando um passo à frente.

  5. Raquel,
    Fico em dúvida sobre o valor desse tombamento. São memórias que pertencem a umas poucas gerações. Minha filha, com 26 anos, me perguntou perplexa: que cinema foi esse? Sem querer fazer piada, mas me lembro do caso de um antigo hotel numa capital do Nordeste, sem valor arquitetônico algum, que alguns idosos queriam que fosse tombado, em prol de suas memórias da lua de mel ali passada. O Belas Artes fazia parte de uma cena cultural que compreendia um vívido entorno, com o Bar Redondo, etc. Nada disso mais existe. Cinema mais significativo está fechado: o Gemini, com sua antiga bilheteria, tapetes vermelhos, escadarias (e um pouco de pulgas, claro). Lembranças mais ricas eu tenho do Bijou com suas duas salinhas diminutas e clima de cinemateca.
    Um abraço (sou seu fã, sabia?)

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