“De cidade só tem o nome”

Esta foi a expressão utilizada por uma moradora de Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, em entrevista concedida à reportagem do Estadão na semana passada, sobre o lugar onde vive. No maior aglomerado de conjuntos habitacionais do país, vivem 147 mil pessoas, em quase 40 mil apartamentos populares, exclusivamente de baixa renda, que foram construídos a partir dos anos 1980 na extrema periferia da cidade, sem  espaços comerciais, sem equipamentos públicos, com precaríssimas opções de transporte e mobilidade. Em suma: moradia sem cidade.

Foto: Kazuo Nakano

Trinta anos depois, o  comércio que existe hoje funciona nos puxadinhos feitos pelos moradores e a população do bairro aguarda que algum dos sucessivos anúncios de chegada de transporte coletivo de qualidade – metrô, fura-fila, monotrilho? – seja implantado. Sem dúvida, o caso de Cidade Tiradentes é uma situação extrema. Mas, infelizmente, este continua sendo o modelo que tem caracterizado a produção habitacional popular em todo o país. O resultado, como não podia deixar de ser, é absolutamente perverso: “favelização”, formação de guetos e reforço do apartheid social.

Qual o pecado original dessa política? São, pelo menos, dois: o fato de se tratar de uma política de moradia e não de cidade, e a proposta de homogeneidade social. A localização e a relação com a cidade já construída é o ponto fundamental de enlace entre estes dois aspectos, já que, dependendo de onde são construídos, os conjuntos podem ou não ter acesso a equipamentos, serviços e empregos. A localização determina, inclusive, a possibilidade ou não de uma heterogeneidade social.

Mas seria inexorável a baixíssima qualidade urbanística da moradia popular? De forma alguma. Mesmo no Brasil, nem sempre foi assim. No livro “Os pioneiros da habitação social”, ainda  inédito, o urbanista Nabil Bonduki mostra que  muitos  projetos dos IAPs (Instituto de Aposentadoria e Pensão), dos anos 1930 e 1940, eram de altíssima qualidade urbanística e arquitetônica. Além disso, ao longo das últimas décadas, existiram vários projetos qualificados e generosos, construídos por autogestão dos próprios beneficiários, com apoio de assessorias técnicas e com custos tão baixos quanto o dos modelinhos das COHABS e CDHUs.

E hoje? O Programa Minha Casa Minha Vida, baseado não mais na produção das companhias públicas, mas em produtos de construtoras privadas, está conseguindo enfrentar este tema? Pelo andar da carruagem, parece que continuamos reproduzindo os mesmos erros: o modelo é centrado  apenas  na construção de unidades habitacionais, sem que áreas comerciais, equipamentos públicos (de saúde, educação e lazer, por exemplo) e políticas de transporte público sejam parte dos projetos. Sem que a equação da localização tenha sido enfrentada…

Além disso, apesar de prever um limite de tamanho máximo para os conjuntos habitacionais, de 500 unidades, o Minha Casa Minha Vida não tem controle sobre o somatório dos projetos das construtoras, que  acabam construindo conjuntos muito próximos uns dos outros, gerando – sem querer – enormes conglomerados homogêneos…  Parece que já vimos esse filme: Cidade Tiradentes, o retorno?

Texto original publicado no Yahoo! Colunistas.

5 comentários sobre ““De cidade só tem o nome”

  1. Sou morador de Santana de Parnaíba mas já vivi muito tempo em Curitiba. Na década de 80 e 90 os moradores de Curitiba que fizessem o caminho Boqueirão ao Pinheirinho passavam ao lado de uma gigantesca fazenda que tinha plantação de grama. Eram quilometros e quilometros de gramado ao lado da avenida que ligavam estes dois bairros. Nos anos 90 a fazenda foi desapropriada e a prefeitura contruiu ali dois bairros, Bairro Novo A e Bairro Novo B. A falta de criatividade no nome foi compensado pelas criações. Durante a prefeitura dos prefeitos que estiveram no poder nos anos 90 vieram as seguintes construções:

    – Terraplanagem de todo o lote da fazenda
    – Pavimetnação das ruas
    – Construção de postos de saúde
    – Luz, agua e esgoto
    – Escola
    – Farol do Saber (biblioteca e acesso a internet)
    – Terminal de ônibus
    – Melhoria do sistema de ônibus que ligam o Boqueirão e Pinheirinho com mais linhas, e linhas expressas.
    – Construção de Canaleta expressa exclusiva para onibus

    Tudo isso foi feito em 10 anos. É possível fazer direito, a resposta é óbvia. Nenhuma capital brasileira pode reclamar de falta de recursos, e a que menos pode reclamar é SP pois a arrecadação é récord.

    Mas vivemos numa cidade pobre, onde tudo é feito nas coxas e sem qualidade. E a culpa? A culpa na minha opinião é das mesmas pessoas que mais sofrem com isto, pois continuam votando nos mesmos partidos e mesmas pessoas há décadas. Passou da hora de fazer melhor uso do voto. Abaixo uma vista aérea de como é o Bairro Novo A e B hoje:

  2. Acho que falta diálogo entre arquitetos de São Paulo e governo notadamente na esfera federal. Afinal para que existem o CREA, Sindicatos, associações e o IAB? Cobrança de taxas? O tempo passa e não saímos do imobilismo.

  3. tá,mas seu texto fica “apenas” na questão dos serviços,equipamentos urbanos, comércios próximos dos conj. habitacionais .Sim, importantíssimo essa questão.Mas pouco é dito sobre qualidade das construções e motivo pelo qual é assim.

    A construção civil pouco evoluiu,comparada com outras,veja o caso da industria automobilística que é tão complexa quanto,e em pouco tempo reduziu em muito o custo da produção.Sendo hoje,o carro acessível até de mais.

    Não seria mais sensato,pensar no processo construtivo (que pouco mudou,e ainda continua extremamente artesanal),e outras soluções além de construir mais e mais casas.Existem tantos imoveis vagos por aí que seriam mais que suficientes para sanar os deficit de habitação.

    Sei lá meu……………um texto mais critico……………seria bem mais interessante………tá na hora do arquiteto mostrar sua função social para sociedade meu…….

  4. Implantar programas habitacionais como minha casa minha vidas nas grandes cidades é um êrro. Não há espaço para isso sem prejuízo das já escassas áreas verdes, notadamente em São Paulo. Mas dificilmente essa ótica vai mudar. Quanto mais gente aglomerada em São Paulo, melhor para as eleições. 20 milhões de habitantes significam 10 milhões de eleitores a serem disputados no banquete eleitoral bienal.

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