Não sabe como resolver um conflito? Construa um muro!

Quando não se sabe como resolver um problema, como enfrentar um conflito, uma questão complexa, constrói-se um muro. Recentemente, vimos anunciada na imprensa a intenção do governo do Estado de São Paulo de construir um muro de 2m de altura ao longo do rio Paraitinga. O objetivo da medida, segundo o governo, é conter as enchentes que, anos atrás, já destruíram parte da cidade de São Luiz do Paraitinga e de seu patrimônio.

A questão complexa, neste caso, é: como proteger a cidade e seu patrimônio da força das águas, ao mesmo tempo respeitando as suas características construtivas, das quais também faz parte a relação histórica de São Luiz do Paraitinga com o rio? Construir um muro para isolar o rio da cidade, neste caso, significa uma falta de solução porque não enfrenta a complexidade da questão ao destruir a relação da cidade com o rio.

Há muitos outros exemplos que mostram como os muros são, na verdade, formas típicas de não resolução de conflitos. O muro que separa a fronteira dos EUA com o México, para evitar que os latino-americanos entrem ilegalmente nos EUA, ou o muro que Israel vem construindo na Cisjordânia desde 2002 para evitar que os palestinos circulem nesse território, são alguns exemplos. Os dois casos envolvem questões com implicações em termos étnicos, políticos e sociais. O fato é que, em vez de se trabalhar a questão e de se buscar soluções para ela, constrói-se um muro.

Um exemplo mais concreto, visível em nosso dia a dia, é o novo produto imobiliário surgido nos anos 1990 frente à escalada da violência urbana: o condomínio fechado e murado, forjado na ideia de que é possível construir um paraíso exclusivo para poucos e deixar os conflitos do lado de fora, o que, como nossas cidades já demonstraram, é impossível. Anos atrás, no Rio de Janeiro, surgiu a péssima ideia de murar a favela da Rocinha com a justificativa de proteger a floresta da Tijuca. Ainda bem que desistiram. Seria mais uma falsa solução.

Em 1989, pudemos ver pela TV a queda do muro de Berlim – ícone da Guerra Fria, que separava o mundo capitalista do mundo socialista. A derrubada do muro – que ficou conhecido como muro da vergonha – transformou-se numa espécie de ícone da liberdade e da democracia. O muro de Berlim foi derrubado em 1989, mas, infelizmente, a lógica de construção de muros como forma de (não) resolver conflitos continua de pé.

Texto originalmente publicado no Yahoo! Colunistas.

10 comentários sobre “Não sabe como resolver um conflito? Construa um muro!

  1. Bom, primeiramente gostaria de parabeniza-la por todo conteudo ja disponibilizado para estudo e aprendizado não só meu como de muita gente, você é uma grande referencia para mim e meus estudos!

    Eu sou estudante de arquitetura e urbanismo aqui em Blumenau-SC. Tenho muito o que aprender ainda, mas na minha visão acredito que a questão dos muros é mais uma consequencia da velha politica do tapa buraco. Uma falsa, rapida e pratica solução. Assim como as cotas para educação e como aumento do efetivo policial para a segurança..

    Como estudante eu me questiono muito sobre como mudar na pratica estas questões, sei que como estudante de arquitetura e urbanismo tenho a obrigação de pelo menos tentar mudar tal situação…mas eu não quero somente tentar…quero de fatao mudar…nem que seja um pouco..

    Falo isto porque neste semestre teremos que projetar uma escola. Interessante integra-la a sociedade, sem muros ou cercas. Mas para isso acredito que antes deva se fazer uma reformulação/conscientização cultural profunda, os pais atualmente nao deixam as crianças brincarem na rua, imagina em uma escola sem muros…Vai muito alem de tirar os muros e melhorar iluminação como os professor falam…Como estudante sinto que as mudanças, para serem reais, vão muito alem…

    Se você puder me ajudar, tiver alguma bibliografia para recomendar, algum conselho para dar, eu agradeceria muito…^^

    Att. LeandroLudwig

    • Um livro que, creio, possa ajudá-lo:

      titulo: Cidade de muros
      sub: Crime, segregação e cidadania em São Paulo

      Teresa Pires do Rio Caldeira

      aditora 34

  2. Raquel,
    o muro não foi construído na Rocinha, mas outros muros foram construídos no Rio de Janeiro.
    Ao redor do Dona Marta, foi construído o “muro ecológico”, com a desculpa de proteger a floresta da expansão da favela. Um muro de cimento de 2 m de altura.
    Ao longo da linha vermelha foi construída uma “barreira acústica”, que na verdade é uma barreira visual para que quem chega do aeroporto não veja a favela da Maré.
    Ainda existem planos de se construírem muitos outros muros no Rio. A política da segregação através das construções de muros está mais viva do que nunca no Rio.

  3. Sou totalmente a favor da remocao das favelas das encostas e da construcao de muros cercando as favelas, principalmente a da Rocinha , virou atracao turistica para os gringos apreciarem como os tupiniquins invasores vivem no Brasil.

  4. Resolver um problema requer envolvimento, o que significa uma mudança significativa de ambas as partes (a problematica e a quer resolver o problema), e essa disposição para se envolver e se transformar parece ser muito dificil de se ver.

  5. Excelente artigo onde objetiva provocar conhecimentos complexos acerca de uma dada realidade. O paradigma moderno nos incutiu uma forma monocromática de resultados, dada às soluções propostas à época: apenas o ângulo econômico, diferenças de classes, denotava bem forças opostas como capitalismo e socialismo e posturas dúbias para solução. Hoje , século XXI, a postura torna – se monocromática, capacidade humana esta de percepção sob vários ângulos diante de um certo contexto ou problemática. Basta colocarmos a Natureza em pauta e o ser humano enquanto natureza causador e consequência de suas limitações. Enfim, a arte do desenho arquitetônico citado acima, também é enriquecido com os mesmos conhecimentos complexos do novo paradigma que assim desperta, principalmente da década de 80 pra cá. Jamais esquecer questões opostas básicas que nos colocam como missionários da luz e da ação coletiva, contudo, acrescentar, somar e incluir novas idéias, novas linguagens num sistema aberto … como um espiral que atinge a plenitude do ser. Parabéns.

  6. Jornal O Vale: Quais seriam essas “maneiras para minimizar os danos causados pelas enchentes”?

    Aziz Ab’Saber: Um dos aspectos importantes é a construção de um “paredão” na saída do rio , dos morros para as pontes. Esse paredão deve ter a sua altura diminuída gradativamente até ser uma mureta de mais ou menos 90 centímetros para facilitar a entrada das águas no lóbulo interno do meandro. Além disso, é preciso colocar uma porteira na frente da ponte para obrigar a água a ir para frente e não entrar pela cidade. Umas três ou quatro barragens são úteis para desacelerar as enchentes.

    http://www.ovale.com.br/cmlink/o-vale/regi-o/s-o-luis-pode-ter-nova-cheia-1.12406

  7. Muita gente, infelizmente, acha que para preservar uma cultura é se protegendo das demais. E assim são criadas as segregações, fomenta-se o preconceito racial, social, étnico, etc.

    Raquel, fui estagiário da Missão Brasileira em Genebra, acabo de voltar para São Paulo e quero me aprofundar em temas dos Direitos Humanos. Gostaria muito de entrar em contato com você.

    Att.
    Marcio Vieira
    http://pegadasdamarcha.wordpress.com/

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