“Realengo, aquele desabafo!”: ótimo documentário sobre política de reassentamento de favelas

“Realengo, aquele desabafo!” é um interessante documentário sobre a política de reassentamento de favelas. O filme mostra o processo de reassentamento de 598 famílias moradoras de assentamentos informais na cidade do Rio de Janeiro.

Parte das famílias saiu de ocupações e favelas em bairros como Copacabana, Madureira e Olaria; outra parte eram vítimas dos desabamentos no morro do Urubu, no bairro de Pilares. Todas elas foram morar a cerca de 25km de seus locais de origem.

Realizado por uma equipe de pesquisadores do Observatório das Metrópoles, o documentário traz entrevistas com moradores dos dois conjuntos habitacionais recém-inaugurados em Realengo que receberam estas 598 famílias.

O vídeo mostra como são feitos os reassentamentos (quando existem, ou seja, quando a solução não é o famigerado “cheque-despejo”). Vale ressaltar que são muitas as situações que estão provocando remoções e, eventualmente, reassentamentos: desde a existência de desabrigados por conta de desastres até os megaprojetos de remodelação de áreas urbanas.

Atualmente, com a preparação do país para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, muitas comunidades estão sendo removidas ou estão ameaçadas de remoção sem que haja um plano de reassentamento claro, construído em diálogo com a população que será atingida.

Essa é uma das pautas dos protestos que aconteceram no último sábado no Rio e em São Paulo por ocasião do sorteio das chaves das eliminatórias da Copa.

Segue abaixo o vídeo:

6 comentários sobre ““Realengo, aquele desabafo!”: ótimo documentário sobre política de reassentamento de favelas

  1. “Me sinto presa aqui dentro”, diz a moradora. “Nem só de moradia vive a população”, disse outra moradora. Se o tal cheque-despejo é a última (e pior) alternativa para a população que precisa do custeio do governo para ter uma moradia digna, esses edíficios erguidos em um “não-lugar” também são extremamente lamentáveis!
    Isso é o resultado final do nosso bem-sucedido (como proclama a Presidenta) programa de habitação Minha Casa, Minha Vida, que de habitacional não tem nada! Nada mais é do que um pacote econômico para alavancar construtoras na execução destes conjuntos habitacionais populares de péssima qualidade, com locais de implantação que beiram o desrespeito ao futuro morador!
    Daí a gente escuta por aí: “É melhor isso do que morrer em deslizamento no morro!” Sim, é melhor estar vivo, sempre! Mas obrigar famílias a viver sem nenhuma “dignidade urbana” é justo? Este é o governo que se orgulha de estar fazendo uma política diferente no Rio? Que diz estar tirando o Rio do ostracismo, do esquecimento, de anos de abandono na política?
    E é nesta política de “é melhor isso do que nada” que seguimos rumo a 2014/16! Ainda consigo ser otimista quanto ao resultado final destes grandes eventos… Sou carioca, quero ver o Rio de fato sendo tratado politicamente com mais resposabilidade e vi na Copa e, principalmente, nas Olimpíadas uma grande oportunidade de retomarmos as rédias do planejamento urbano no Rio. Sou otimista, tento ser…

    • Acho legítima a denúncia, porém, o vídeo passou uma imagem muito negativa da zona oeste. Esta pessoas foram deslocadas mas existe toda uma população que sofre cotidianamente todos esses problema e falta de oportunidades. A zona oeste hoje representa o maior colégio eleitoral do RJ e só é lembrava no período eleitoral.

  2. Antes de chegar a esta conclusão, a apresentadora deveria ter feito uma pesquisa com perguntas simples: você é a favor ou contra? Você teria vontade de voltar para a moradia antiga? A amostra apresentada no filme é bem pequena e mesmo assim tiveram moradores se posicionando a favor da moradia. Não sei se dá para chegar a conclusão que o filme induz. Parece muito mais conclusão emocional do que científica.

  3. Uma pergunta simples de difícil resposta. O que me parece é que a moradia que se mostra/faz possível no Brasil, nunca chega a respostas satisfatórias. Acho muito incômodo fazer uma pergunta, sobre o que se prefere entre as duas opções. O exemplo dado esta dentro de um modelo que, hoje, é totalmente questionável e criticado. O modelo habitacional distanciado tanto para as famílias envolvidas quanto pra cidade não mostra beneficios que uma política habitacional deveria ter. A moradora traduz nas palavras: “Nem só de moradia vive a população”, o que muito é discutido no direito a cidade. “mais que deficit habitacional, temos deficit de cidade”, uma coisa dissociada de outra… não faz sentido. É um recorte, sob um ponto de vista, um relato um desabafo, não mostra todos os lados ou o processo, sim, mas no que se pretende é um registro importante, é dar voz a fala de muitos ( não todos), e através desse questionar a atuação de um poder público diante do planejamento ( ou ausência dele?) para a Copa, diante de toda sua política urbana…. Valeu, pela postagem! Vou repassar o documentário (= .

  4. Reproduzo aqui comentário deixado no blog do Sakamoto sobre sub-emprego nas metrópoles. Mas tem tudo a ver com o tópico.

    “Mesmo sem ter noção do que significa PUC, minha empregada Luzinete enxerga mais longe que muito sociólogo de esquerda – com o perdão do pleonasmo. ‘São Paulo é uma ilusão’ sentencia ela enquanto remove os pingos de café sobre a mesa. ‘O dinheiro que a gente ganha não fica na nossa mão. Vai para a mão dos outros’ É verdade. Principalmente com o aluguel do muquifo construído ilegalmente como milhares de outros cortiços em área de mananciais – em cima da nascente do córrego para ser mais claro. Água, luz, alimentação, condução, créditos do celular, roupas para ela e três crianças mais as prestações da Casas Bahia consomem o resto do salário, complementado com os bicos no fim de semana e o bolsa-família. Lazer? Esquece. Talvez dê para fazer a tão sonhada excursão a Aparecida do Norte quando a filha de 13 anos começar a fazer um bico de manicure na periferia de São Paulo.

    Mas a brava Lu está decidida. Com a ajuda dos ex-patrões maçons vai juntar uma grana e voltar para sua terra. Pelas suas contas, com algo em torno de 2 ou três mil reais dá para começar um pequeno negócio lá na sua cidadezinha de 30 mil habitantes. Uma atitude assim vale mais que mil teses acadêmicas – se é que tem alguém interessado em propor soluções acabando com as discussões.

    Sem saber, Luzinete está tocando na ferida e apresentando o remédio. A periferia de São Paulo está tão abarrotada de mão de obra farta e barata que a permanência na metrópole virou uma questão de sobrevivência com o sinal trocado. Parece que finalmente as pessoas mais pobres estão percebendo que é mais fácil viver no nordeste carente do que no sudeste ‘rico’ e lotado de desvalidos em busca de emprego, digo, trabalho ainda que escravo.

    Ao menos lá as pequenas cidades são como grandes famílias. Todos se conhecem e cumprimentam-se na rua, onde ainda existe o hábito de colocar cadeiras na calçada para as conversas no calor do final de tarde. A dignidade, a maior riqueza desses pequenos lugares, patrocina seus felizes cidadãos. O teto não desaba na cabeça, ninguém morre de frio e dá para as crianças brincarem a salvo na rua, sob o céu azul-absurdo que os protege.”

    Complementando, diria que programas como favela-bairro, PAC das favelas, e Minha Casa Minha Vida não passam de um eterno enxugamento de gelo. Já vimos esses filmes antes. Mas são fundamentais para a sobrevivência da classe política que extrai seus votos desses imensos bolsões de pobreza.

    São Paulo tem hoje 20 milhões de corpos espremidos em 8.000 km² É muita gente concentrada em pouco espaço. Ainda que pudéssemos acabar com a periferia colocando as pessoas para morar em altos edifícios mais próximos do centro da cidade, outras questões se colocariam: onde buscar água para tantas bocas? Onde esconder as 17.000 toneladas diárias de lixo só da capital? Quem vai pagar a impagável conta do prejuízo ambiental? Onde buscar espaço para novas moradias, parques e áreas verdes? Sem tocar em questões como energia elétrica, empregos, escolas, saúde, trânsito, poluição, chuvas torrenciais, violência, moradores de rua, menores infratores…cenário digno do filme Blade Runer.

    Entre no google earth. Observe o Brasil à noite. Você verá uma enorme mancha de luz como uma galáxia estendendo-se de Porto Alegre-RS a São Luis-MA com algumas manchas em BH, Brasília, Belém-PA e Manaus-AM. O resto são pontos de luz em meio a um breu de escuridão. A concentração de pessoas nas grandes cidades tornou o Brasil um continente desabitado. Esse é hoje o maior problema brasileiro, deixando longe em segundo lugar a concentração de renda.

    Ainda bem que pessoas como a Luzinete tem a solução sem esperar que o governo dê um jeito em suas vidas. A solução é levar os programas assistenciais para as pequenas cidades desse país onde sobra espaço. Lá as pessoas terão a chance de recomeçar suas vidas. São Paulo é uma ilusão.

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