Uma nova e crescente forma de violência no Brasil

A queda do número de homicídios em várias cidades do país – uma boa notícia, sem dúvida – poderia ser um indicador de que a violência urbana, estetizada em filmes e séries de TV, discutida ao longo de pelo menos duas décadas, finalmente cede às inúmeras formas e ações empreendidas para combatê-la.

Entretanto, um outro tipo de violência, também predominantemente urbana, tem demonstrado um movimento no sentido oposto: são as mortes no trânsito, que vêm crescendo muito no país.  São Paulo é um bom exemplo dessa situação.

Em 2010, a cidade registrou 1196 homicídios, enquanto 1357 pessoas perderam a vida no trânsito, sendo a grande maioria (80%!) pedestres e motociclistas. Quase dois motociclistas morrem diariamente em São Paulo. Com relação aos pedestres, o Ministério da Saúde calcula 10 mil mortes por ano em todo o país.

Algumas questões precisam ser consideradas na análise dessa nova e avassaladora forma de violência. O deslocamento a pé sempre foi a principal modalidade de deslocamento nas cidades e nem por isso o urbanismo brasileiro preocupou-se com a qualidade e segurança de nossas calçadas, nem com outras intervenções urbanísticas voltadas para o conforto dos pedestres. Muito pelo contrário: automóveis e caminhões sempre dominaram as preocupações do nosso urbanismo, que tratou de planejar pistas lisinhas, iluminadas, vias expressas… Até que as motos começaram, mais recentemente, a disputar também este espaço.

Nos últimos dez anos, a frota de motos no país quadruplicou, passando de 4 para 16 milhões, quase a metade do número total de carros do país. O crescimento é exponencial. Em 2001, 26% das cidades tinham mais motos do que carros. Em 2010, esta proporção passou para 48%, ou seja, em quase metade das cidades brasileiras as motocicletas compõem a maior parte da frota de veículos.

Em muitas cidades, como São Paulo, é mais barato comprar e manter uma moto do que pagar as altas tarifas do transporte público, enfrentando ainda sua ineficiência e desconforto. Além disso, a política industrial e de crédito dos últimos anos facilitou a aquisição deste tipo de veículo, ampliando seu mercado em todo o país. Resultado: a moto substituiu o jegue no sertão, a kombi nas favelas e os ônibus e trens nas grandes cidades.

Também é interessante pensarmos o perfil dos motociclistas. Eles são, em geral, homens, entre 21 e 35 anos, que utilizam motos de baixa potência (até 150 cilindradas) em substituição ao transporte coletivo. Desconheço o perfil dos ciclistas, mas certamente, deve ser parecido –  me parece que os que pedalam por lazer ou atitude são minoria: a maior parte usa a bike como meio de transporte. Considerando o sexo e a idade, trata-se de um perfil muito semelhante ao das principais vítimas de homicídio. Isso significa que estamos matando uma geração inteira de jovens ao ignorar este problema.

Mas mesmo diante de uma situação tão preocupante, há uma enorme carência de políticas públicas nesta área. No âmbito do poder público, há forte resistência, por exemplo, em relação à regulamentação do serviço de mototáxi, que é o único disponível em muitos lugares do país, como cidades do interior e também em muitos bairros.

Em São Paulo, os planos regionais elaborados pelas subprefeituras em 2004 previam 367 km de ciclovias e ciclofaixas. Além disso, a gestão Kassab na prefeitura prometeu 120 km até 2012. A realidade hoje, no entanto, é que a cidade possui apenas 35,5 km de ciclovias e ciclofaixas. A situação das motofaixas é ainda pior, são apenas dois trechos, um na Avenida Sumaré, outro na Avenida Vergueiro, contabilizando apenas 12 km.

Lamentavelmente, o não acompanhamento desse crescimento através de políticas públicas que acolham essas demandas e as considerem no planejamento das nossas cidades não tem apenas como efeito o chamado “caos” no trânsito, mas se traduzem nos trágicos números dessa nova forma de violência urbana no Brasil.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Colunistas.

Um comentário sobre “Uma nova e crescente forma de violência no Brasil

  1. Oi Raquel,

    apesar de não morar em São Paulo, tenho grandes amigos da faculdade que moram hoje aí, e sei desta realidade dos motoqueiros. Uma amiga que se formou na FAU fazia diariamente o trajeto para a faculdade pela Av. Raposo, e ela conta que sempre via motoqueiros estatelados no chão. Aliás, temia sempre com o que se podia acontecer à frente. Nos últimos dois anos, em Floripa, tive uma moto de 150 cilindradas. É um veículo barato e que garante de fato notável economia no bolso (o valor da tarifa dos ônibus na ilha já estava em R$ 2,90 da última vez). Mas basta uma falta de atenção ou uma pista mais escorregadia que a gente fica conversando bem de perto com o asfalto… Penso muito no dia em que o sistema de transporte público no país vai funcionar de verdade – e aí o metrô nas grandes cidades deveria ser o principal canalizador do tráfego urbano público. Mas, ao começar a conversa por Salvador… acho que continuaremos esperando deitados (como os moradores de rua que dormem nos pontos-carimbo da JC Decaux, quem sabe?) por novidades ou melhorias, porque em pé vai cansar com certeza! Apropósito, tomei conhecimento desta revista on-line sobre o a cidade e o espaço público. Vale a pena divulgar: http://www.piseagrama.org. Um grande abraço!

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