Imobilidade na cidade de São Paulo: o problema e o falso problema

Vinte e sete dias por ano preso em um congestionamento? Pois esta é a média de dias que a população da cidade de São Paulo perde por ano em congestionamentos diários de duas horas e 42 minutos. O tema não sai dos noticiários, nem das rodas de conversas entre paulistanos. E, assim, constitui-se uma espécie de percepção pública da crise de mobilidade na cidade como “problema de trânsito”. Será?

A ideia de que nosso problema principal é o “congestionamento” oculta diferenças significativas nas dimensões e significados políticos da crise. Quero crer que nossa crise principal não é de trânsito, e sim do sistema geral de mobilidade da cidade, o que inclui o transporte coletivo e os chamados modos não motorizados, como os deslocamentos a pé e por bicicleta.

Na verdade, o fato de o transporte por ônibus ser ainda o que mais concentra viagens dentre os modos de transporte coletivo e de que os ônibus disputam com carros, motos e taxis a mesma infraestrutura de circulação contribui para que o tema do congestionamento pareça “incluir” o transporte coletivo.

No entanto, segundo a pesquisa Origem e Destino, realizada a cada dez anos pelo Metrô, o tempo médio de viagem em transporte coletivo é mais do que o dobro do tempo médio de viagem em transporte individual. O mesmo se pode dizer em relação à velocidade: a velocidade média dos carros é aproximadamente o dobro da dos ônibus.

Além disso, a crise de mobilidade é muito mais aguda para a população de menor renda, usuária cativa e histórica do transporte coletivo: 74% das viagens motorizadas da população com renda até quatro salários mínimos são feitas por modo coletivo. Já na faixa de renda superior a quinze salários mínimos, este percentual cai para apenas 21%.

Apesar do fato de a maior parte da população de São Paulo ser usuária do transporte coletivo (ônibus, trem e metrô) e de a crise de mobilidade afetar muito mais estes passageiros do que os motoristas de automóveis, não ocorreram mudanças suficientemente fortes na política de circulação da cidade capazes de instaurar um novo padrão de tempo e conforto para os usuários do transporte coletivo, em que pese os investimentos no metrô e na modernizaçao do sistema de trens e ônibus ocorridos na última década.

Sendo assim, não por acaso o tema da mobilidade se apresenta como “congestionamento”: esta visão expressa a captura da política de circulação pelas intervenções na ampliação física e modernização da gestão do sistema viário, em detrimento da ampliação e modernização dos transportes coletivos. Mais alargamento de avenidas, mais túneis e viadutos, mais zona azul, mais radares e lombadas eletrônicas… e nada de um modelo de transporte coletivo integrado, confortável e barato.

Este fenômeno não é novo em nossa cidade: a força deste modelo que prioriza o sistema viário, reeditadoad nauseam ao longo das últimas décadas, revela o pacto de vida ou morte que a política de circulação municipal realizou com o automóvel e, principalmente, com seus motoristas. Esta política se sobrepõe às demandas e interesses da maior parte da população, impondo, para o conjunto da sociedade, a imobilidade.

Texto originalmente publicado no Yahoo! Colunistas.

7 comentários sobre “Imobilidade na cidade de São Paulo: o problema e o falso problema

  1. Pois é, Raquel, como já disse neste blog, o maior problema urbano no Brasil é a enorme diferença de poder político entre as classes sociais. A enorme desigualdade política, antes mesmo que a desigualdade econômica, faz com que o poder público priorize os investimentos de interesse dos grupos sociais que têm maior poder político. Dessa forma, os investimentos em transportes se voltam para os ricos, os possuidores de automóveis. A questão da (i)mobilidade de nossas cidades é uma questão política e, enquanto tal, somente será resolvida no âmbito da Política. Apesar de os partidos políticos ditos de esquerda terem chegado ao poder em algumas cidades, como no caso de São Paulo, com Marta Suplicy, os investimentos em transportes continuaram priorizando o transporte individual: ponte estaiada, túneis na Rebouças e Faria Lima, Av. Roberto Marinho, ampliação da Radial Leste etc. Embora neste caso o discurso político tenha mudado um pouco de lado, no que é importante, ou seja, a alocação dos investimento$ públicos continuou, como sempre, priorizando o transporte individual. Pra onde isso vai nos levar, ninguém sabe, mas sempre pode ficar pior do que está.

  2. Mas no Rio de Janeiro, a Prefeitura continua a insistir numa velha opção de mobilidade, condenada por todos técnicos isentos, e que só serve aos interesses da Fetranspor. Para isto sacrifica e trata de maneira cruel e perversa as famílias que moram no meio dos novos caminhos, abertos na base da força ilegal.

  3. Excelente post, Raquel.

    Acompanho há um bom tempo seus textos e já desvendei muita coisa por eles, quando vim de Brasília para São Paulo há alguns anos. São Paulo exige certos mapas especiais!

    Pois esse é o estado atual de nossa urbanidade – o imobilismo nos detem, mas claro uns mais do que outros como sempre.

    Abraço, Biavati

  4. Eu tenho a tendência em concordar com o que o José Marinho disse quanto ao poder político. E isso não se aplica somente na mobilidade urbana, mas também nas intervenções (ou simplesmente a falta delas) feitas pela Prefeitura nas áreas mais carentes; e não é segredo para ninguém que o descaso ainda é muito grande, vindo das próprias subprefeituras, as quais deveriam gerir suas determinadas áreas com competência…

    É uma pena que aqui em São Paulo as pessoas ainda não tenham acordado para o valor que suas vozes e opiniões tem na sociedade…

  5. Raquel, tenho acompanhado seu trabalho pelos videos que encontrei no youtube. Venho por via desta congratular o seu esforço em pautar essas questões na sociedade. Apenas através da discussão (gerando interesse por parte da população) podemos pressionar “os poderes que são” a tomarem decisões em favor de todos e não apenas de uma parcela da sociedade.

  6. Raquel, estou escrevendo um artigo sobre o problema da mobilidade nos grandes centros urbanos e achei o seu texto. Gostaria de colocá-lo dentro do meu artigo, reservando os créditos, claro.

    Teria a sua autorização para tal? Poderia ainda contar com a sua ajuda para outras dúvidas?

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