Proprietário do imóvel do Belas Artes acha pouco R$ 1 milhão por ano. Dá pra acreditar?

Os sócios do Belas Artes ofereceram pagar R$ 1 milhão de aluguel por ano ao proprietário do local, mas a oferta foi recusada. O dono do imóvel insiste em cobrar R$ 150 mil por mês. As mobilizações contra o fechamento do cinema continuam, mas se não houver avanço nas negociações, ele fechará as portas semana que vem. Vejam abaixo matéria do Estadão, publicada hoje, sobre este assunto:

Sem acordo, Belas Artes deve fechar na quinta

Dono do prédio na Consolação não aceita proposta de R$ 1 milhão de aluguel por ano

17 de fevereiro de 2011

Bruno Paes Manso – O Estado de S.Paulo

Nem as manifestações sucessivas feitas desde janeiro, nem os mais de 70 mil filiados ao Facebook contra o fechamento do Belas Artes serviram para levar o proprietário do imóvel na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação a renovar o contrato de aluguel com os donos do cinema. Assim, o Belas Artes, que funciona no mesmo local desde 1943, vai fechar as portas na próxima quinta-feira, dia 24.

Ontem, um dos sócios do cinema, André Sturm, recebeu a negativa para sua última cartada comercial. Com o apoio de um patrocinador, Sturm havia oferecido na segunda-feira aluguel de R$ 1 milhão por ano (R$ 85 mil mensais) ao dono do imóvel, Flávio Maluf. O proprietário recusou a oferta. O valor pago atualmente, reajustado no ano passado, é de R$ 63 mil. O dono do prédio quer receber R$ 150 mil mensais.

A última sessão de filmes vai ocorrer na quinta. Depois, serão mais quatro dias para esvaziar e entregar o prédio. “Quero fazer algo para cima. Mas ainda não tive tempo para pensar em nada, porque estava muito ansioso e tinha esperança de reverter a situação”, diz Sturm.

Apesar do fim da negociação, ainda corre no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp) o processo de tombamento do Belas Artes. Caso ocorra, as restrições impostas ao imóvel podem limitar o uso e a negociação do prédio. Antes de decidir, conselheiros aguardam um parecer do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura sobre o assunto. “Desde a abertura do processo, ainda não voltamos a discutir o caso. É importante primeiro termos o parecer”, disse o arquiteto José Eduardo Lefèvre, presidente do conselho.

Segundo Lefèvre, existe uma dificuldade porque o caso do Belas Artes não pode se enquadra nem como “tombamento material, nem como imaterial”. O primeiro está voltado a preservar aspectos físicos e arquitetônicos de um prédio. Projetado nos anos 1940 pelo arquiteto italiano Giarcarlo Palanti, o imóvel sofreu várias reformas internas e na fachada nas décadas seguintes, diminuindo sua relevância arquitetônica.

No caso do tombamento imaterial, a decisão ocorre para que sejam determinados parâmetros de movimentos culturais relevantes, como é o caso do frevo, em Recife. “O que seria tombado no Belas Artes? A lei não permite definir um tipo de uso para o imóvel, por exemplo. Também é inviável tombar a programação. Mas, ao mesmo tempo, é inegável o valor do cinema para a cidade. Ele foi abraçado pela coletividade. Essas questões serão estudadas pelo DPH e deliberaremos a respeito”, diz Lefèvre.

Zoneamento. Para a arquiteta Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, o caso do Belas Artes evidencia como as autoridades de São Paulo não têm conseguido usar de forma adequada as políticas de zoneamento, instrumento que determina o uso e a ocupação do solo na cidade. “Em São Paulo, o zoneamento é visto de maneira torta, para se definir quantos andares podem ser construídos em cada bairro. É a lógica do mercado imobiliário”, diz. Ela defende que o zoneamento seja usado para estabelecer áreas da cidade para interesses sociais e ambientais. “Como esse costume não existe, o tombamento se transformou em um instrumento de resistência, o único que permite levar em conta valores diferentes aos pregados pelo mercado.”

TRÊS PERGUNTAS PARA…

Fabio Luchesi Filho, ADVOGADO DO DONO DO IMÓVEL DO BELAS ARTES, FLÁVIO MALUF

1. Vocês vão ter o prédio de volta na próxima semana, dia 28. Que fim pretendem dar ao imóvel?

O proprietário (Flávio Maluf) já decidiu que não pretende renovar com nenhum novo cliente enquanto o Conpresp não decidir se o imóvel vai ou não vai ser tombado.

2.As informações são que vocês pedem R$ 150 mil mensais de aluguel. E que recusaram a oferta de R$ 85 mil. São esses mesmos os valores?

Os valores acabaram ficando para segundo plano. Precisamos primeiro esperar que a situação jurídica se resolva.

3. Caso o Conpresp se decida pelo tombamento, vocês considerariam a hipótese de voltar a alugar o prédio para os proprietários do Belas Artes?

Essa é uma questão que ainda deve ser analisada pelo proprietário. Difícil responder antes de uma definição.

8 comentários sobre “Proprietário do imóvel do Belas Artes acha pouco R$ 1 milhão por ano. Dá pra acreditar?

  1. Só dá pra acreditar porque estamos no Brasil. O paraíso da especulação imobiliária. Não existe política fundiária voltada para o interesse público, somente para dar mais lucro para os agentes do mercado. É o Poder Público atuando para aumentar as oportunidades de negócios privados, para elevar a renda dos proprietários fundiários e o lucro dos capitalistas. É uma vergonha!!!

  2. Raquel, estou produzindo uma matéria sobre prédios tombados na cidade de São Paulo e gostaria de conversar com você, se puder me passar seu email (o meu segue na mensagem)!

    Fico no aguardo de resposta

    Obrigada pela atenção!

    Abs.

  3. “Da grana que ergue e destrói coisas belas”
    A primeria vez q esta frase pintou na Paulista foi qdo um casarão foi derrubado na calada da noite.
    Hoje…a beleza não está na fachada..é o nosso Belas Artes, um patrimônio cultural da cidade..e isto quem diz é o povo.
    Não era hora de boicotarmos o uso deste imóvel para o que quer que seja?…
    Vamos protestar com a “lojinha” q entre no lugar, o próximo pretenso inquilino deveria temer o nosso poder, conseguiríamos zerar, ou pelo menos, diminuir muito o valor do imóvel para outro uso comercial…Será possível, conseguiremos?

  4. Eu não fiz a conta dos 85 mil mensais, vezes os 12 meses do ano, pois, esse valor, por mês, é capaz de proporcionar uma boa renda, para quem quer que seja. Não sei o que será instalado no endereço do Belas Artes, mas, minha idéia é NÃO comprar nada no estabelecimento. Para ele não aceitar esse valor de aluguel, será que já existe uma segunda proposta? Pensando na parte de marketing, esse novo locatário não acabaria por criar uma imagem negativa para sua empresa, antes mesmo de abrir as portas, uma pré-rejeição ao seu produto ou serviço?

  5. Matemática simples: a diferença entre o valor do aluguel oferecido (R$85 mil) e o valor exigido (R$150 mil) é de R$65 mil. O número de filiados que apoiam o Belas Artes no Facebook é de 70 mil pessoas. Se cada afiliado se comprometesse a assistir mensalmente a uma única sessão especial no Belas Artes, pagando um valor simbólico de apenas R$2, o cinema arrecadaria R$140 mil extra. Valor esse mais que suficiente para cobrir o aluguel e eventuais custos do cinema com essa sessão especial.

    O cinema possui 1.040 lugares em suas salas. Seriam necessárias 2 sessões extras diariamente para acomodar os 70 mil afiliados e apoiadores do cinema. Que sairmos da frente do computador e usarmos aquele dinheiro que seria pra passagem do ônibus pra ir protestar na Av. Paulista e começarmos a usufruir desse tão necessário e idolatrado patrimônio que é o Cine Belas Artes?

  6. Bem, esse tipo de conduta antissocial desse “cidadão” demonstra o tipo de autoritarismo a que SP é comumente submetida.
    Nós, cidadãos de São Paulo, aguardemos uma Prefeitura e um Governo de Estado verdadeiramente compromissados com a democracia e direitos humanos ou, de forma ideal, ao socialismo.
    Nesse caso multipliquemos proporcional e democraticamente os impostos e outros tributos nesse caso, a fim de que haja democracia radical urbana contra esse tipo de atitude ultra-concentradora de renda e de apropriação de espaços públicos.
    São Paulo não pode ser submetida à concentração fundiária urbana, nem ao autoritarismo.
    No Japão houve um boicote em defesa da Palestina, contra a implantação de uma multinacional israelense.
    São Paulo tb precisa defender os seus direitos e a sua memória, identidade e cultura.

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