Cine Belas Artes: a polêmica continua

O anúncio do fechamento do Cine Belas Artes e a posterior abertura do processo de tombamento do local têm gerado debates e controvérsias,
inclusive aqui no blog.

O Francisco questiona o instrumento do tombamento e pergunta: “Supondo que o tombamento seja aprovado, existe algum dispositivo que obrigará o proprietário a manter aberto um estabelecimento com determinado uso (no caso, “cinema”)? Caso seja garantido que o uso seja “cinema”, existe algum dispositivo que obriga este proprietário a alugar o seu imóvel a um determinado valor?”.

Na mesma linha, o Daniel diz que acha pouco provável que “limitar o uso do imóvel a ‘cinema’ consiga preservar a programação de qualidade que hoje ainda tem o Belas Artes. A chance maior é de que lá se instale um Kinoplex ou Cinemark da vida, que banque os R$150 mil vendendo pipoca a dez reais e ingresso a vinte para os últimos sucessos de Hollywood, dublados e em 3D.”.

E o Marcelo questiona o papel do Estado nessa história. “Não quero que o Belas Artes feche, gosto daquele espaço. Mas acho muito complicado botar o Estado no meio pra proteger uma empresa específica da especulação imobiliária. Que existe e é muitas vezes injusta – mas é injusta com todos, inclusive os que não desfrutam de praticamente nenhum outro benefício do Estado.” diz.

Estes questionamentos são importantes e merecem debate.

Em primeiro lugar, pode o Estado limitar o direito do proprietário de usar seu imóvel da forma que melhor lhe parecer? Sim! Pode e deve. De acordo com a nossa Constituição, toda propriedade tem uma função social. E o conteúdo dessa função social não se opõe ao direito do proprietário, muito pelo contrário, é um componente desse direito.

A função social de cada propriedade é basicamente o papel que ela vai ter no conjunto do território que é a cidade. E quem define isso, no caso das cidades, é a regulação urbanística – as regras de uso e ocupação do solo da cidade, que devem expressar a política urbana.

Essa regulação interfere no valor da propriedade? Sim, e, por sinal, muitas vezes ela interfere aumentando o valor destas propriedades… Por exemplo, se em um local onde só existiam casas térreas a regulação diz que é permitido construir edifícios altos, ela claramente está aumentando o valor das propriedades. Em outras situações, ela interfere desvalorizando. É assim que funciona esse que é um dos elementos reguladores do mercado imobiliário urbano.

Uma segunda questão levantada é o fato de o Belas Artes se tratar de uma empresa privada. É preciso esclarecer que a função social da propriedade independe de ela ser  pública ou privada, ou seja, vale para ambas. Também não importa se ela será usada para fins comerciais ou não. Ou seja, a regulação define se em determinado lugar é permitido construir prédios ou não, instalar comércios ou não e de que tipo, se a área é de preservação ambiental ou não, se é de interesse cultural ou não etc.

Outro ponto importante de esclarecer sobre essa questão do público x privado é: ao designar uma função para determinado imóvel, o Estado estaria deixando de investir em habitação para proteger um estabelecimento privado? Não. Simplesmente porque não há investimento de dinheiro público na definição de uma regulação.

Seria um gasto público se a prefeitura ou o governo estadual desapropriassem o imóvel, transformando-o em imóvel público e pagando para o proprietário do terreno seu valor de mercado para transformá-lo em cinema… privado! Sou totalmente contra esta alternativa. Além de caríssima e de prioridade discutível, este instrumento só pode ser usado se o espaço se transforma num equipamento cultural público e gratuito, acessível a toda a população. Portanto, não me parece ser esta uma alternativa sequer razoável.

Por fim, sobre a utilização do tombamento como instrumento para resolver um caso como o do Belas Artes, concordo com o Francisco e o Daniel e não acho que essa seja a melhor saída. É possível tombar aquele espaço como cinema? Sim, mas como o Daniel falou, isso não resolve a questão. O melhor instrumento está, portanto, no campo da regulação urbanística, ou seja, da gestão do uso e ocupação do solo.

O tombamento só está sendo usado porque a gestão do uso e ocupção do solo em nossa cidade não tem sido usada com seu sentido de “estabelecimento da função social” de cada um dos imóveis da cidade.

Da mesma forma que se faz uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social) é possível fazer ali uma zona especial de interesse cultural, por exemplo. E dentro dessa regulação é possível determinar o uso que terá aquele espaço: será um cinema de rua, com programação diferenciada, etc. Isso vai interferir no valor comercial do imóvel? Sim. E é isso mesmo que precisa acontecer. Com isso, é possível melhorar as condições de negociação entre os candidatos a instalar ali a  atividade determinada naquele local e o proprietário.

E não há porque se indignar com relação a isso, já que esse é o arroz com feijão do zoneamento da cidade de São Paulo. O zoneamento precisa de fato ser usado para definir efetivamente a função social que a cidade deve ter.

3 comentários sobre “Cine Belas Artes: a polêmica continua

  1. Muito obrigado pelos esclarecimentos, Raquel. Acho que esse episódio, além de toda a discussão em torno do fechamento do cinema, mostra como a gestão da nossa cidade é ineficaz e como a atual legislação de uso e ocupação é frágil (no sentido que não contempla e não prevê esse tipo de situação, do imóvel do Cine Belas Artes).
    Mas acho que isso está contido numa problemática maior: a gestão da cidade de Sao Paulo ainda é muito centralizada. A criação das Subprefeituras foi avanço mas ainda muito tímido, precisa ser aperfeiçoado, e muito.
    Moro em Londres atualmente e percebo aqui uma grande diferença nessa questão de gestão de partes da cidade. A autonomia de cada Subprefeitura (aqui chamada de Boroughs) é visivel no dia-a-dia. cada bairro é realmente uma pequena cidade, com administração própria que contempla praticamente tudo (uso e ocupação, serviços publicos – coleta de lixo e iluminação publica, por exemplo – transporte, segurança a assistência ao cidadão – aqui incluido habitação social). E tudo isso dentro de um grande planejamento que extrapola a cidade e engloba toda a Região Metropolitana de Londres. Claro que nem tudo são flores aqui, como toda metropole tem e sempre terá problemas.

  2. Raquel, grato pelos esclarecimentos sobre os comos e porquês do tombamento. Mas ainda acho importante ver o caso do Belas Artes dentro do contexto da especulação imobiliária que está atingindo todos os outros inquilinos e compradores de imóveis da cidade. Eles são apenas um inquilino entre tantos outros não-tombáveis. O Belas Artes pode ter no tombamento uma maneira de escapar de alguns dos efeitos da especulação imobiliária. Mas o que me preocupa na verdade não é o Belas Artes, patrocinado via renúncia fiscal, e sim a situação dos não-tombáveis e não-patrocináveis por renúncia fiscal. Que são prejudicados pelo mesmo processo que prejudicou o Belas Artes e que talvez possa nos levar a uma bolha como a que quebrou os EUA.

  3. Olá,

    gostaria de fazer uma colocação que, ao que me parece, está passando despercebida até agora.

    Faltou discutir o real papel do Belas Artes em São Paulo. Com ingressos a 25 reais e estacionamento a outros 25 reais o Belas Artes estava se transformou rapidamente em uma opção de lazer acessível apenas a uma minoria. O Belas Artes era apenas mais uma ferramenta de exclusão.

    Qualquer ajuda governamental seria um investimento que toda a população pagaria para manter-se privilégios de uma classe que não podemos dizer que sofra com “falta de privilégios”

    Evidentemente temos de lutar pelo seu não fechamento, mas devemos lutar também para que caso algum investimento estatal seja feito no sentido de se manter aberta essa sala, o Belas Artes reduza dramaticamente seus preços, democratizando e socializando seu espaço.

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