Cine Belas Artes: valor imobiliário não pode ser o único que conta na política de uso e ocupação do solo da cidade

Apesar da abertura do processo de tombamento do Cine Belas Artes – na emblemática esquina da Consolação com a Paulista – pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), o cinema, até agora, apenas ganhou uma sobrevida até o final de fevereiro.

Isso porque o proprietário está pedindo um valor pelo aluguel que é impossível pagar, como já declararam os sócios do cinema a vários jornais da cidade. Ele quer um reajuste dos atuais R$ 63 mil para R$ 150 mil. São 138% de aumento.

Muitos contestam a idéia de “tombar’ o cinema, alegando que só seria “tombável” aquilo que detém valor arquitetônico excepcional. Essa é uma postura que expressa uma visão de patrimônio cultural já superada. A mobilização de centenas de milhares de paulistanos para que o Belas Artes continue onde está demonstra que muitas pessoas não pensam assim.

O caso do Belas Artes, na verdade, revela que o tombamento é mobilizado como medida extrema e desesperada numa cidade (e em um país) onde os valores de uso, a qualidade da vida urbana, os significados histórico-culturais construídos por seus habitantes são totalmente desprezados pelos instrumentos de controle do uso e ocupação do solo, que seguem unicamente a lógica do uso ou forma de construir mais rentável para cada uma das localizações.

A força de uma cidade não se faz apenas dos números de sua dinâmica econômica, mas muito também da capacidade de sua gestão respeitar e fomentar valores coletivos.

5 comentários sobre “Cine Belas Artes: valor imobiliário não pode ser o único que conta na política de uso e ocupação do solo da cidade

  1. Raquel,

    A questão do Cine Belas Artes representa muito mais do que apenas o fechamento de um bem cultural tão emblemático e fundamental da nossa cidade.

    No entanto, questiono veementemente a aplicação deste instrumento (Tombamento) para a solução do caso. A discussão é aceitável, sim, mas não neste caso que urge uma solução rápido e definitiva.

    Questiono essa atitude pelo seguinte motivo: O Cine Belas Artes, atualmente, ocupa um imóvel particular, de propriedade de um cidadão, que usa este imóvel para gerar renda a si e sua família (não acho que cabe, neste momento, entrar no mérito se esse cidadão faz o uso para o bem ou para o mal). Supondo que o tombamento seja aprovado, existe algum dispositivo que obrigará o proprietário a manter aberto um estabelecimento com determinado uso (no caso, “cinema”)? Caso seja garantido que o uso seja “cinema”, existe algum dispositivo que obriga este proprietário a alugar o seu imóvel a um determinado valor?

    Faço essas reflexões simplesmente porque temo o pior. Fico imaginando se o tombamento deste edifício não irá limitar o uso que se faz desta esquina e talvez até insuficiente para reverter essa perda cultural para nossa São Paulo. Será que este movimento pró-tombamento pode ser um tiro pela culatra e acabarmos com mais um entrave na cidade? Mais um terreno numa área nobre sem uso, abandonado, preso a uma legislação muitas vezes mal-interpretada como a de Patrimônio Histórico?

  2. O duro é que o proprietário do imóvel faz dele o que bem entender, cobra o aluguel que quiser e não podemos contestar-lhe esse direito (de forma coerente) a não se que se conteste toda a ordem capitalista, e não é o que tenho visto nas manifestações.

    Acho também pouco provável que limitar o uso do imóvel a ‘cinema’ consiga preservar a programação de qualidade que hoje ainda tem o Belas Artes. A chance maior é de que lá se instale um Kinoplex ou Cinemark da vida, que banque os R$150 mil vendendo pipoca a dez reais e ingresso a vinte para os últimos sucessos de Hollywood, dublados e em 3D.

  3. Raquel,

    Concordo com a importância do espaço. Gosto do cinema. Adoro aquele janelão pra Consolação. É um dos poucos espaços que restam onde se pode ficar de bobeira esperando alguém sem que tentem te vender alguma coisa.

    A única coisa que me incomoda muito nisso, na verdade, é que não sei se devia ser papel do Estado proteger uma empresa específica (e o Belas Artes é uma empresa, por melhores que sejam seus serviços) da especulação imobiliária. Na área da cultura, lembremos que está lá o Zé Celso brigando com o Sílvio Santos há sei lá quantos anos, sem o Estado se meter nisso. Mas o mais grave é pensar no cidadão que procura morar perto do trabalho e tem sérias dificuldades em encontrar aluguel razoável por conta da especulação imobiliária. Aí ele compra carro e a cidade fica um inferno. Não tem Estado que o proteja disso. Por que protegeria uma empresa específica, por mais interessantes que sejam seus serviços?

    Já expus essa opinião a outros fãs do Belas Artes. Perguntaram: “então você não acha que o Estado tem que dar cultura ao cidadão?” Questionei de volta: “e, nesse caso, dá?” Ele renuncia à receita de impostos de quem banca o funcionamento do cinema. Sou grato pelo patrocínio, mesmo sabendo que é um dinheiro que deixa de entrar nos cofres públicos e que poderia ser usado para coisas mais básicas que nem elas o Estado consegue fazer direito. Mas ainda assim não se pode dizer que o Estado esteja “dando” cultura para o cidadão. O cinema cobra ingresso, e não é barato.

    Não quero que o Belas Artes feche, gosto daquele espaço. Mas acho muito complicado botar o Estado no meio pra proteger uma empresa específica da especulação imobiliária. Que existe e é muitas vezes injusta – mas é injusta com todos, inclusive os que não desfrutam de praticamente nenhum outro benefício do Estado.

    Mas também não tenho ideia de qualquer solução melhor.

  4. Pingback: Ainda sobre o Belas Artes e a especulação imobiliária « Numeralha

  5. (É o Marcelo de novo.)

    Ontem saíram dados do CRECI-SP sobre a valorização dos imóveis em São Paulo. Em alguns bairros, o metro quadrado aumentou quase 300% só em 2010. Isso é grave demais pra todos os que precisam negociar aluguel – e o Belas Artes é apenas a vítima mais visível disso, com os 138% de aumento pedidos pelo proprietário. Sem falar na economia como um todo – vide as consequências do estouro da bolha imobiliária dos EUA, há 3 anos. Investidores que vieram para o Brasil fugindo da bolha de lá estão começando a desembarcar, pelo que vejo nos jornais.

    Você vem acompanhando essa valorização? Qual é sua opinião a respeito?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s