Os paulistanos não podem perder o Cine Belas Artes

O Cine Belas Artes é um patrimônio cultural dos paulistanos. Para muitas gerações que vivenciaram a esquina da Consolação com a Paulista desde os tempos do bar Riveira e da lanchonete Baguete, o fechamento do Belas Artes representará uma grande perda.

Com uma programação diversificada, nao tributária dos blockbusters, o Belas Artes é uma das poucas opções de cinema de rua que ainda existem em São Paulo para pessoas que não gostam de ir a um cinema de shopping com todos os seus inconvenientes.

A preservação desse patrimônio tem um significado muito maior para a cidade do que apenas a defesa de um empreendimento cultural. Os paulistanos não podem perder o Belas Artes!

Abaixo segue um ótimo artigo de Nabil Bonduki, publicado hoje na Folha de São Paulo, contra o fechamento do cinema.

Também está circulando na rede um abaixo-assinado para quem quiser se manifestar.

Não deixe o cine Belas Artes fechar

NABIL BONDUKI

Milhares de paulistanos estão contra o fechamento desse cinema porque se sentem ligados ao local, que é uma referência cultural e urbana

A mobilização que a notícia do fechamento do Belas Artes gerou fala por si só: o cinema é um patrimônio da cidade de São Paulo. Seu desaparecimento seria a perda de um pedaço de nossas vidas e criará uma lacuna que São Paulo, tão desprovida de memória e de lugares significativos, não pode deixar acontecer. Milhares de paulistanos estão contra esse crime porque se sentem ligados ao local, uma referência cultural e urbana.

Não se trata de preservar a arquitetura do edifício, mas seu uso, sua importância como ponto de encontro e espaço de debate cultural. A noção contemporânea de patrimônio é clara: a comunidade, além dos especialistas, tem um papel fundamental na identificação dos bens culturais a serem protegidos.

A noção de patrimônio mudou muito desde que o Estado Novo, por meio do decreto-lei nº 25/1937, criou o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e instituiu o tombamento. Na época, prevaleceu uma visão restrita, voltada para os bens com valor arquitetônico e artístico, chamada de “patrimônio de pedra e cal”.

Nessa concepção, os critérios utilizados para a seleção dos bens a serem protegidos eram os de caráter estético-estilísticos, excepcionalidade e autenticidade, valorizando a arquitetura tradicional luso-brasileira, geralmente edifícios isolados, produzida no período colonial. O foco era a criação de uma identidade para fortalecer a construção do Estado nacional.

A partir dos anos 1970, essa noção de patrimônio se alargou para abranger sítios urbanos, manifestações de outros períodos e origens culturais e para valorizar os espaços representativos da vida social e dos hábitos cotidianos da população. Em certas situações, esses podem ser mais relevantes que monumentos de valor arquitetônico.

Valorizando o contexto urbano e edifícios utilizados pela população, essa visão reserva à comunidade um papel ativo na identificação do patrimônio. O tombamento do cine Belas Artes está respaldado no Plano Diretor Estratégico (PDE), do qual fui relator e redator do substitutivo na Câmara Municipal de São Paulo (lei nº 13.540/ 2002). O PDE incorporou integralmente essa visão contemporânea de patrimônio.

Uma das diretrizes do seu capítulo de política de patrimônio histórico e cultural é “a preservação da identidade dos bairros, valorizando as características de sua história, sociedade e cultura” (artigo 89, inciso III); uma das ações propostas é a de “incentivar a participação e a gestão da comunidade na pesquisa, identificação, preservação e promoção do patrimônio histórico, cultural, ambiental e arqueológico” (artigo 90, inciso VII).

De modo coerente com o PDE, parcela relevante da comunidade paulistana identificou um bem que faz parte da identidade de um bairro, que é característico da história e da cultura da cidade, e se mobiliza para garantir sua preservação.

Não é uma questão nova: em 2003, ocorreu uma grande comoção, que impediu o fechamento do Belas Artes e do antigo Cinearte (atual cine Livraria Cultura). Como parte daquela luta, propus uma lei que permite aos cinemas de rua o pagamento do IPTU e do ISS com ingressos, a serem utilizados pela prefeitura em programas de inclusão cultural. Aprovada a lei e passado o sufoco, erramos ao não propor proteção legal permanente para os cinemas.

Agora, não temos tempo a perder; em poucos dias, o Belas Artes poderá ser uma ruína. A Associação Paulista de Cineastas já pediu o tombamento, pedido que eu reforço por meio deste artigo.

O Departamento de Patrimônio Histórico deve elaborar um parecer técnico e o Compresp (conselho municipal do patrimônio histórico) deve convocar reunião extraordinária, antes do final de janeiro, para aprovar o tombamento e não deixar que essa nova catástrofe ocorra em São Paulo.

NABIL BONDUKI é arquiteto, professor de planejamento urbano na FAU-USP e primeiro suplente de vereador da bancada do Partido dos Trabalhadores na cidade de São Paulo. Foi vereador de São Paulo pelo PT (2001-2004) e relator do Plano Diretor Estratégico na Câmara Municipal.

9 comentários sobre “Os paulistanos não podem perder o Cine Belas Artes

  1. Acho uma vergonha a falta de valorização à cultura no Brasil. Aliás, não é só isso.
    Prostibulos e Bocas de fumo continuarão abertos.
    Bacana…

  2. Não entendo p q a Prefeitura e a Secretaria de Cultura, além do Governo e a sua Secretaria de Cultura não fazem absolutamente nada… Será que é só privatização, avenida e marginal para carro privado, terreno para shopping e condomínio privado, privatização, privatização, privatização…???

  3. Embora prostíbulos e mesmo bocas de fumo também sejam estabelecimentos culturais, cuja existência na cidade data de tempos anteriores à existência do cinema..

  4. Vou postar aqui o que comentei no e-group do IBDU:

    Ótimo artigo de Nabil!

    Infeliz/e hj as gdes operadoras de cinema nada mais são do q parte do avassalador mercado imobiliário q monta suas parcerias com gdes empreendedoras. E o que elas querem, mais do que lançar em suas salas as principais… estréias comerciais da semana, é mesmo construir shoppings e ter a certeza que neles serão implementadas mais de suas salas.

    Com isso é bem provável q logo um gde grupo investidor rebata essa articulação toda da população contra o fecha/o do Belas Artes, dizendo que no mesmo local será construído um novo shopping, integrando às estações de metrô e com novas salas de cinema, e que tudo vai ficar “melhor” ainda!!

    Sabemos que nossa cidade “funciona” assim, e esse movimento a favor do Belas Artes tem que se fortificar e evoluir!!!

  5. Raquel, uma longa discussão que vem sendo travada sobre o Belas Artes, exclusão e direitos sociais:

    Quem mora na cidade de São Paulo deve estar sabendo do iminente fechamento de um dos melhores cinemas da cidade, o Belas Artes. Um cinema histórico, com cerca de 68 anos de vida, o Belas Artes irá fechar no fim deste mês graças a uma canalhice do dono do terreno, um tal de Flávio Maluf que, apesar de todas as características, não é filho do grande corrupto Paulo Maluf.

    A questão, enfim, é que diversos frequentadores começaram um abaixo-assinado pedindo para que a prefeitura – do higienista Kassab – se sensibilize (e talvez deixe de lado a expulsão e os maus tratos aos moradores de rua do centro ou aos moradores do extremo sul da cidade) e faça alguma coisa para salvar o melhor cinema de arte da cidade.

    Revolta à parte (e estou bem revoltado, pois adoro o cinema), a questão central aqui é discutir certos comentários que ouvi pelo Twitter e andei lendo em outros lugares de quem anda dizendo que é besteira tentar salvar “uma empresa”. Ou pior, alguns ainda dizem que com tanta causa importante para se preocupar, porque logo perder tempo (sic) com um cinema, uma empresa?

    Oras, falho em entender estes argumentos e digo porque.

    Em primeiro lugar, não se trata meramente de uma “empresa”, mas sim da tentativa de salvar um ambiente específico, um cinema, um local onde se promove cultura e entretenimento. Não importa quem seja o dono ou donos, ou o nome, e sim o ambiente, o concreto: o cinema.

    Em segundo lugar, não penso que o ser humano só possa ou deva defender uma única causa. Não se trata de dizer, porém, que algo é mais ou menos importante, senão que se tratam de coisas diferentes.

    Da mesma forma que me revolto e tento fazer alguma diferença quando alguém quer censurar a rede, ou quando vejo sem-tetos sendo espancados, ou ainda quando a prefeitura resolve jogar spray pimenta em desabrigados. Porque então não poderia me indignar igualmente quando um cinema que prezo fecha?

    Como disse antes, não se trata de uma comparação, de dizer o que é mais ou menos importante, não é esta a questão, senão a de mostrar que não existem lutas justas que não sejam válidas lutar. Uma não excluí a outra.

    Read more: http://tsavkko.blogspot.com/#ixzz1As8ZfQfR

  6. Pessoal, o vereador Adilson Amadeu (@adilsonamadeu) é representante da Câmara Municipal no Compresp. Acho que vale a pena chamar a atenção dele para o assunto.

  7. A secretaria de cultura simplesmente ignora o fato? Que coisa mais estranha.
    Os poucos lugares onde filmes que não passam em qualquer lugar estão querendo fechar. Grande alternativa para nós paulistanos…

  8. Será uma grande perda para a identidade da cidade e para nossa cultura se o Cine Belas Artes fechar, é um dos últimos cinemas de rua, da famosa cinelândia paulista, que ainda está funcionando, já que a grande maioria dos cinemas como ele não sobreviveram ao passar do tempo…
    É um cinema complemente diferente dos atuais cinemas de shopping, e se fechar, uma parte considerável da história de São Paulo será perdida…

    Grato,
    Alexandre Gardim

  9. O fechamento do Belas Artes é uma pena mesmo. Eu não vou lá há anos porque odeio projeção e som ruins. Já fui muito. Ia ao Belas Artes, atravessava pelo buraco debaixo da rua para tomar uma no Riviera, que fechou há tempos. O Belas Artes era uma opção legal fora o Cineclube do Bixiga e aquele da Praça Roosevelt. Aliás, o BA passou por uma reforma nos anos 80 e era o “must”. Os cineclubes não resistiram e fecharam.
    Mas depois foi alí na Consolação tudo começou a fechar. Em 1994, por aí, minha irmã foi num bar frequentado por gente de teatro. Ouve uma briga e o amigo dela levou um tiro na nuca. Ficou tetraplégico por uns meses e morreu. Outros tipos de malucos, além dos malucos do teatro…, frequentavam a região…. história triste, não?
    É uma região ótima essa da Paulista, Bela Vista, Jardins, Consolação. Tem história e nos sentimos fazendo parte dela. Minha família tem um jazigo no Cemitério do Araça, alí na Dr. Arnaldo. Quero ir pra lá quando morrer! Fica perto de tudo, dos cinemas, dos teatros, dos restaurantes e tem metrô pra todo canto!
    Mas o que sobrou na Consolação? Os “Sujinhos” (churrascarias) e as lojas de luminárias. Tem o Teatro Coletivo também. Hummm, que mais?
    Fui ao Espaço Unibanco há uns 5 anos. À noite, tudo alí perto fechava. Parei o carro na rua de trás. Saindo de lá cruzei com uns nóias. Me pediram dinheiro. Fiquei com medo. Isso me traumatizou um pouco. Mas hoje em dia tem muito movimento alí porque abriram uns bares e mais pessoas circulam indo pras baladas. Vou ao Espaço Unibanco sem problemas, acho legal.
    O Reserva Cultural é um caso à parte. É bonito, tem uma solução arquitetônica maravilhosa, a comida deve ser boa, as salas são legais, ótima projeção.
    O Top Cine fechou, o Gemini fechou, o Astor se transformou numa livraria muito bonita com uma sala de cinema em atividade, debates etc. O Cine Bombril, antigo Cinearte, está fechado.
    Minha humilde teoria é que o cinema tem que ter boa projeção e som, alguma segurança para que chega e sai dele, alguma atração no entorno como bares e restaurantes. São Paulo tem essa questão da segurança que é muito forte. E ninguém quer passar medo. Pra muita gente é melhor render-se ao shopping e não os culpo.
    Portanto, não acho que o Belas Artes morre a toa. Ele morre porque tem bons concorrentes no quesito rua/alternativo, ficou isolado, não tem qualidade técnica, não tem quase nada no entorno e muita gente se sente insegura ao ir lá.
    Acho uma pena que feche, mas não acho que tem a ver com o crescimento da cidade e como ela passa por cima do que é antigo. É fácil protestar no Facebook e assinar um abaixo assinado na internet. Requer um clique. Mas alguém vai tirar dinheiro do bolso?
    Dos cinemas tombados como o Cine Art Palácio, Cine Dom José, Ipiranga, Marabá, Marrocos, Metrópolis e Paissandu. só o Marabá funciona.

    O Belas Artes tombado pode: 1) acabar fechando de qualquer jeito, tornando-se um mico para o dono (do prédio) e para a cidade;
    2) ficar funcionando meio ruim do jeito que está com a ajuda do tombamento e, pior, tirando público de cinemas de rua melhores.
    Todo mundo que defende o tombamento do Belas Artes é frequentador dele? Vocês comprariam assinaturas anuais de, vamos dizer, R$ 780,00 para ajudá-lo (um ingresso de R$ 15 vezes 52 semanas)? Vocês ficariam felizes se tombassem um bem seu que garantisse o seu sustento mesmo que ele não tivesse valor? Não culpem o proprietário do prédio nem tirem sarro do seu nome (Maluf). Ele quer receber mais pelo aluguel do espaço como qualquer um de nós faria, mesmo que cinéfilo.

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