Ocupação militar dos morros do Rio de Janeiro – mais desafios do que vitórias!

As cenas cariocas a que estamos assistindo desde a semana passada,  como se fossem imagens de  uma guerra do bem contra o mal nas ruas e favelas do Rio de Janeiro, são bem mais complexas do que as cenas binárias do bandido preso e do território ocupado podem levar a crer.

Leiam abaixo o artigo de Marcelo Freixo, deputado estadual pelo PSOL do RJ, na seção Tendência/Debates da Folha de São Paulo de ontem.

Não haverá vencedores

MARCELO FREIXO

Pode parecer repetitivo, mas é isso: uma solução para a segurança pública do Rio terá de passar pela garantia dos direitos dos cidadãos da favela

Dezenas de jovens pobres, negros, armados de fuzis, marcham em fuga, pelo meio do mato. Não se trata de uma marcha revolucionária, como a cena poderia sugerir em outro tempo e lugar. Eles estão com armas nas mãos e as cabeças vazias. Não defendem ideologia. Não disputam o Estado. Não há sequer expectativa de vida.

Só conhecem a barbárie. A maioria não concluiu o ensino fundamental e sabe que vai morrer ou ser presa. As imagens aéreas na TV, em tempo real, são terríveis: exibem pessoas que tanto podem matar como se tornar cadáveres a qualquer hora. A cena ocorre após a chegada das forças policiais do Estado à Vila Cruzeiro e ao Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro.

O ideal seria uma rendição, mas isso é difícil de acontecer. O risco de um banho de sangue, sim, é real, porque prevalece na segurança pública a lógica da guerra. O Estado cumpre, assim, o seu papel tradicional. Mas, ao final, não costuma haver vencedores.

Esse modelo de enfrentamento não parece eficaz. Prova disso é que, não faz tanto tempo assim, nesta mesma gestão do governo estadual, em 2007, no próprio Complexo do Alemão, a polícia entrou e matou 19. E eis que, agora, a polícia vê a necessidade de entrar na mesma favela de novo.

Tem sido assim no Brasil há tempos. Essa lógica da guerra prevalece no Brasil desde Canudos. E nunca proporcionou segurança de fato. Novas crises virão. E novas mortes. Até quando? Não vai ser um Dia D como esse agora anunciado que vai garantir a paz. Essa analogia à data histórica da 2ª Guerra Mundial não passa de fraude midiática.

Essa crise se explica, em parte, por uma concepção do papel da polícia que envolve o confronto armado com os bandos do varejo das drogas. Isso nunca vai acabar com o tráfico. Este existe em todo lugar, no mundo inteiro. E quem leva drogas e armas às favelas?

É preciso patrulhar a baía de Guanabara, portos, fronteiras, aeroportos clandestinos. O lucrativo negócio das armas e drogas é máfia internacional. Ingenuidade acreditar que confrontos armados nas favelas podem acabar com o crime organizado. Ter a polícia que mais mata e que mais morre no mundo não resolve.

Falta vontade política para valorizar e preparar os policiais para enfrentar o crime onde o crime se organiza -onde há poder e dinheiro. E, na origem da crise, há ainda a desigualdade. É a miséria que se apresenta como pano de fundo no zoom das câmeras de TV.

Mas são os homens armados em fuga e o aparato bélico do Estado os protagonistas do impressionante espetáculo, em narrativa estruturada pelo viés maniqueísta da eterna “guerra” entre o bem e o mal.

Como o “inimigo” mora na favela, são seus moradores que sofrem os efeitos colaterais da “guerra”, enquanto a crise parece não afetar tanto assim a vida na zona sul, onde a ação da polícia se traduziu no aumento do policiamento preventivo. A violência é desigual.

É preciso construir mais do que só a solução tópica de uma crise episódica. Nem nas UPPs se providenciou ainda algo além da ação policial. Falta saúde, creche, escola, assistência social, lazer.

O poder público não recolhe o lixo nas áreas em que a polícia é instrumento de apartheid. Pode parecer repetitivo, mas é isso: uma solução para a segurança pública terá de passar pela garantia dos direitos básicos dos cidadãos da favela.

Da população das favelas, 99% são pessoas honestas que saem todo dia para trabalhar na fábrica, na rua, na nossa casa, para produzir trabalho, arte e vida. E essa gente -com as suas comunidades tornadas em praças de “guerra”- não consegue exercer sequer o direito de dormir em paz.

Quem dera houvesse, como nas favelas, só 1% de criminosos nos parlamentos e no Judiciário…

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*Em tempo: Freixo inspirou o personagem que denuncia as milícias e provoca a CPI no filme Tropa de Elite 2.

4 comentários sobre “Ocupação militar dos morros do Rio de Janeiro – mais desafios do que vitórias!

  1. O Deputado Marcelo Freixo tocou na ferida. Estão guerreando os efeitos, enquanto as causas do tráfico de drogas estão aí circulando livremente pela Baía de Guanabara, pelo Congresso Nacional, pelo Judiciário e pela lavagem de dinheiro de uma indústria capitalista podre. Quando tudo isso acabar, essa “guerra”, a máxima de Lampedusa vai vigorar em toda a sua plenitude: mudar tudo para tudo continuar como está. Às Causas, governador Sérgio Cabral, às causas, por favor!

  2. Depois de décadas e mais décadas de abandono do poder público, o grave problema que aflinge as favelas do Rio, não serão sanadas apenas com UPP´s e com invasões para prender ou expulsar traficantes. Isso é claro. Disso ninguém discorda. Também não existe solução a curto prazo. Seja qual for o caminho, as duas ações como começo de trabalho são importantes. O que se faz necessário é dar continuidade ao processo, levando emprego e renda, escola, água, luz, telefone, enfim : cidadania. O conjunto dessas ações é que pode mudar a triste realidade atual, no Rio ou em qualquer lugar do país.
    http://easonfn.wordpress.com

  3. Moro numa favela, hoje todos chamam de comunidade. Revi na midia fatos e momentos que presencie ao vivo. Gostaria de chamar a atenção para um aspecto das ei que será de fundamental importância para análise dos próximos governantes na esfera federal. Trata-se do Estatuto da Criança e do Adolescente e da Lei de Responsabilidade Fiscal:
    Será preciso que os haja ocupação para os adolescentes antes que eles sejam seduzidos pela mídia em novelas e artistas,cantores e jogadores de futebol. Será preciso que o governo incentive os empregadores a contratarem jovens (negros e favelados) mesmo que tenha que ser através de cotas, porque esperar que algum de nós complete o ensino universitário através de uma cota e concorra no mercado de trabalho em igualdade com estudantes que não viveram a realidade dos morros e favelas é uma quimera. É aguardar uma mudança a longo longo prazo, gerações, tempo pelo qual não suportaremos viver sitiados. O “bem” vencerá o “mal”, esperamos por isso mas com a ocupação, uma outra geração surgirá: filhos dos ocupadores e moradores, visitarão seus tios, avós, irmãos ,as piores e mais degradantes prisões. Não comprarão nos “shoppings”, não irão às praias, não usarão tênis confortáveis; não estarão presos como antes, mas agora reféns do asfalto.

  4. estou com a mesma opnião do nosso amigo acima concordo plenamente com o amigo nelson de sales junior tb moro em comunidade no rj ,rj capital não me conformo com braços cruzados do governo indiferentes aos negros,pobres ditos ” favelados” parece que os presidiários tem mais privilégios do que nossas crianças que dormem mal ,comem mal e não tem perspecitivas melhores de vida e educação precária quando que o vamos ter ordem e progresso como tá escrito em nossa bandeira nacional ?as criticas ao cidadão de bem morador de bem muitos podem confundir o morador trabalhador por puro preconceito mas ás favelas cresceram desde o trabalho escravo através de falta de oportunidade que os próprios senhores feudais tiraram das mãos do trabalhador escravo da época e em busca de sua independencia vieram ao rj e ocuparam morros dando se o nome de favelas mais desde aquela época o sistema capitalista os impossibilitava de sonhar em uma vida melhor trabalharam a vida inteira pra enriquecer este sistema ainda continua muitos vivem deste triste contraste economico lamentavemente hoje não vemos mais senzalas ,mais existe trabalhos escravos gerando renda abusivas na exploração e poucos salários e falta de oportunidade na vida dessa gente guerreira ,batalhadora chamada cidadão de bem todo trabalho dignifica o homem sempre ouvi dizer isso ,mas recompensa-los seria justo não é mesmo melhores salários pra que nossos jovens e crianças não procurassem meios de auto sustentar-se nas ruas fazendo sei lá o que não acham o caminho mais rápido para vencermos esta diferença soz
    cial seria igualdade mas e infelizmente o poder executivo estudou para ganhar com a miséria do povo pura politicagem quem mora na zona sul acaba dividindo espaço com as grandes favelas o caso da rocinha só muda o conforto por que o lugar é o mesmo só muda a paisagem pura hipocrisia dos poderosos que precisam de serviços de subalternos como maioria e deveriasm reconhecer a classe menor e trabalhadora JESUS VEIO PARA TDS ABRAÇO DESCULPE O DESABAFO
    MAIS TO DANDO A VOLTA POR CIMA E VOU ENSINAR A MUITOS SER CABEÇA NÃO CAUDA POR QUE O LOCAL DE SUA MORADIA QUEM FAZ SOMOS NÓS MESMO ONDE FOR O NOSSO HABITAT NÃO NOS DIFERE DO OUTRO DE FORMA ALGUMA POR QUE CARACTER E BOA INDOLE NÃO ESCOLHE FAMILIA CERTA SE É BAIXA RENDA ,MEDIA OU ALTA QUE DEUS VENHA SALVAR ESTA NAÇÃO POR QUE VEJO QUE MEROS HOMENS NÃO CONSEGUIRÃO POR QUE A COMEÇAR PRECISAM DE AMOR AO PRÓXIMO E Á COMEÇAR A FAZER O BEM QUE QUEREM QUE O FAÇAM A COMEÇAR A FAZE-LOS

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