Entrevista com o diretor de engenharia da Dersa sobre as obras da marginal do Tietê e o sistema viário de SP

Entrevistei na última sexta, 11, junto com o jornalista da Band News Luis Megale, o diretor de engenharia da Dersa, Paulo Vieira de Souza.

Falamos sobre a enchente que parou São Paulo, as obras de ampliação da marginal do Tietê e o problema de reafirmar o principal sistema viário da cidade nas margens de um rio. Confira abaixo o resultado.

Luiz Megale – A Dersa entende que há alguma relação com as obras realizadas na marginal do Tietê e as enchentes da ultima terça em SP?

Paulo Vieira de Souza – Se nos já estivéssemos impermeabilizado onde vai ser o local pista expressa, podia até ter uma tese que defendesse que teria contribuído para as enchentes em termos de volume de água. O problema é que na atual fase nós estamos abrindo caixas, criando pequenos piscinões por conta da obra, que viriam a facilitar a drenagem, não coibir a drenagem.

Megale – Mas e as árvores que já foram retiradas, as raízes não deixaram de sugar a água que havia no chão?

Paulo Vieira – Veja bem, existe uma tese de vários ambientalistas que afirma que a árvore permite uma melhoria na drenagem. Mas na microbacia da várzea do Tietê, os 19 hectares da obra representam 0,06% da impermeabilização dessa área.

Raquel Rolnik – Haverá teoricamente uma perda de 19 hectares de área permeável naquela região. E o tempo todo se diz que a compensação ambiental mais do que compensará isso. O que quero saber, que nunca ouvi concretamente, é se na área de compensação ambiental, que será no parque da várzea, serão estabelecidas novas áreas permeáveis. Ou seja, se áreas que estão impermeabilizadas hoje se tornarão permeáveis, para dizer que a cidade estará ganhando novas áreas permeáveis. Ou se estamos falando de plantio de árvores em um lugar que já não é impermeabilizado, ou seja, o lugar já é de terra. E senhor mesmo está dizendo que a questão fundamental não é arvores, mas a área permeável.

Paulo Vieira – Nós estamos fazendo grande parte do investimento da compensação ambiental no Parque Ecológico do Tietê, onde é possível proteger o rio. O que vamos fazer? Nos 25 km de São Paulo até a divisa de Itaquaquecetuba, nós iniciamos a retirada de urbanização desorganizada. Ou seja, residências que tomaram conta ao longo da faixa do rio. E vamos criar uma estrada-parque, uma ciclovia de passeio, que vai coibir novas invasões. Se você for lá na várzea do Tietê, no trevo dos pimentas, verá que ali o rio esta totalmente tomado por construções.

Raquel – Isso quer dizer que essas famílias serão retiradas? São famílias que vivem em assentamentos informais.

Paulo Vieira – Veja bem, essas pessoas invadiram e o governo precisa dar uma solução e dará, em termos da indenização da benfeitoria, ou como fizemos no Rodoanel e na Jacu Pêssego, oferecendo uma residência do CDHU em empreendimentos nas proximidades para que possamos fazer a remoção das famílias.

Raquel – E essas moradias já estão disponíveis para as famílias que serão removidas? Em outras situações, muitas famílias que são removidas de assentamentos informais acabam não tendo acesso à moradia da CDHU em função de problema de comprovação de renda. Gostaria de saber se o plano de reassentamento dessas populações já está pronto e totalmente equacionado.

Paulo Vieira – Por exemplo, no caso do Rodoanel, as unidades não são vendidas, elas são gratuitas. Como fizemos isso? Removemos as famílias, pagamos a remoção e 12 meses de aluguel, em alguns casos 16 meses, para que desse tempo da unidade ficar pronta ou ser adquirida, porque a unidade não precisa ser necessariamente construída pela CDHU. A pessoa também pode comprar uma unidade, com o fornecimento de carta de credito. Nós pagamos esse período de aluguel e fizemos a remoção. O que aconteceu? Das 1500 famílias, 800 optaram por unidades e as outras 700 pelo recurso financeiro.

Raquel – É o q o pessoal chama de cheque despejo, um cheque insuficiente para conseguir uma casa?

Paulo Vieira – É uma opção do morador. Se ele tem um imóvel cuja benfeitoria é de 20 mil reais, ele recebe um apartamento de 62 mil reais. Se ele tem uma benfeitoria que vale 100 mil reais, ele recebe 100 mil reais e procura o imóvel q desejar.

Raquel – Então não é que nem o cheque despejo da prefeitura, de três mil reais?

Paulo Vieira – Não fizemos isso no Rodoanel sul e não estamos fazendo na Jacu Pêssego. O que ocorre é que quando você está uma área invadida, particular ou do governo, você tem outra forma de tratar. O terreno não é da pessoa. Você só pode por conta da benfeitoria oferecer uma unidade ou oferecer o dinheiro correspondente à benfeitoria.

Megale – E em relação ao plano de emergência para caso de alagamentos que a Dersa será obrigada a disponibilizar, de acordo com determinação do CADIS. Quando é que será entregue este plano e como ele funcionará?

Paulo Vieira – Veja bem. Naquele dia choveu em oito horas a previsão de um mês. Nós estamos investindo em compensação ambiental na marginal 37 milhões de reais e plantando 83 mil arvores. No Parque Ecológico do Tietê nós estamos investindo 100 milhões de reais – isso representa 9% do valor do empreendimento, quando a legislação define que deve ser de 0,5%. Com relação à tratativa de alagamento, este programa é feito pela prefeitura, não pela Dersa.

Megale – Não, estou citando um parecer que inclusive foi mencionado no Jornal da Tarde, de número 127, da Câmara Técnica do Conselho Municipal do Meio Ambiente, que determina que as obras de ampliação da marginal devem dispor de um plano de emergência em caso de alagamentos.

Paulo Vieira – Se você colocar que a obra da marginal propiciou transbordo no rio, isso não ocorreu. O que ocorreu, e eu acompanhei toda a chuva, foi que a água ficou parada na marginal, mas o rio não transbordou. A obra em si foi favorável, porque o que tem lá agora são piscinões. O problema da chuva atingiu o Estado inteiro e causou dificuldades em várias áreas.

Raquel – Mais uma questão em relação a este ponto. Me parece, e tenho repetido isso, que evidentemente não é a obra de ampliação da marginal que causou enchentes, pois isso não faz nenhum sentido. A questão é que esta é uma área sujeita a enchentes e alagamentos, porque está na beira do rio. Sempre podem ocorrer chuvas excepcionais e a beira do rio está sujeita a enchentes e alagamentos. O problema é colocar o sistema viário estrutural da cidade em um lugar dessa vulnerabilidade, significa claramente expor o sistema de mobilidade principal a essa situação. Quando a gente tá falando do plano de emergência, é isso: o que acontece quando o rio enche? Os carros vão sair boiando de novo?

Paulo Vieira – Você faz uma colocação que é uma situação emergencial, e o Estado e a Prefeitura, em qualquer condição, tem que ter um plano de apoio a catástrofes ou incidentes que ocorram. Você há de convir que o que aconteceu foi um acidente. Há quantos anos não havia uma precipitação tão intensa como houve no dia do alagamento? A calha do rio na verdade suportou toda a chuva. O que houve foi o que você falou em relação ao sistema viário. Negar o fato ninguém nega. Agora, a obra da marginal, por tudo o que eu leio de entrevistas, passou a ser a responsável por tudo, e isso não é correto.

Raquel – Que a enchente é excepcional, eu concordo, o que isso revelou é a fragilidade de um projeto que pretende reforçar um papel estruturador de uma marginal na beira de um rio, eventualmente sujeito a enchentes.

Paulo Vieira – Se você qualquer especialista em planejamento ambiental fosse fazer a marginal hoje, fatalmente não faria a marginal no local que ela está. Teria uma faixa de domínio de proteção da várzea. Mas a marginal já existe, o fato existe. E hoje há um dano que a marginal ocasiona em termos de emissão de CO², em termos de paralisação. Para mim, o que é a a marginal? Ela transporta particular, coletivo e carga. Mas transporta também sentimento, transporta aflição, transporte angústia, transporta medicamentos. Pela marginal passa o Brasil. E no momento que a pessoa, por qualquer motivo, se vê cerceada desse trânsito, ela tem irritação com o quê? Com a marginal. Que ela é congestionada, o mundo inteiro sabe, talvez seja a via mais congestionada do mundo.

Raquel – E a solução para isso é exatamente reforçar a própria marginal, e fazer com que ela seja a opção diante dos problemas que tem causado? Exatamente pela vulnerabilidade desse lugar e da rede hídrica? Eu acho que você colocou muito bem. Qualquer projetista na área urbano-ambiental hoje jamais colocaria um sistema viário na beira do rio. Faria um parque de várzea, um parque linear. Isto é uma lição que nós temos que aprender. Mas as cabeças que  sabem disso não querem fazer isso.

Paulo Vieira – Nós estamos pagando o preço de um projeto equivocado feito há 50 anos. Porém não existe hoje uma solução definitiva. O conjunto de soluções para o sistema viário estratégico metropolitano passa por fazer um investimento altíssimo sobre trilhos, que está sendo feito nas linhas 2, 4, 5 e 6, um grande investimento, menor que sobre trilhos, no Rodoanel Sul e na ligação com a Jacu Pêssego, no Rodoanel Leste, que ficará pronto em 2013, e na marginal, que tem mais importância que o próprio Rodoanel Norte, porque as pessoas optam pela marginal, ela é a cara de São Paulo.

Raquel – A marginal do Pinheiros também era a cara de são Paulo, até ela ser revitalizada e revigorada de outra maneira.

Paulo Vieira – Eu acho que vocês precisam ter uma visão da parte urbanística que ficará na marginal e em todo seu entorno. A marginal hoje não tem uma calçada e tem umas poucas árvores na calha. Nós vamos plantar trezentas árvores para cada suprimida, com DAP 7, que é o diâmetro dela. A marginal será totalmente reurbanizada, e isso também vai reduzir emissão de CO². Você há de convir comigo que se você melhora a fluidez, você reduz a emissão de CO² pela velocidade do carro, gerando uma melhor qualidade de vida para o usuário. Nos últimos dez anos, quem vai à marginal sai irritado. A marginal não anda, só para. No horário de pico, isso propicia assaltos e acidentes. Mas não tenho como defender nem contrariar a afirmação de que qualquer obra ligada a um rio é um partido equivocado, errado, mas que infelizmente foi feito.

Megale – O senhor mesmo disse que a calha agüentou, que o problemas foi um alagamento causado pela água da chuva que não foi absorvida pelas pistas. Até então, a marginal só alagava quando o rio transbordava. Não é um sinal, nesse momento pelo menos, que a permeabilidade da marginal está menor?

Paulo Vieira – Se você pegar a ponte das Bandeiras, ali tem uma bomba, porque há uma deflexão da pista em relação ao nível normal. A bomba, primeiro, demorou para entrar em funcionamento, o que ocorreu por falha mecânica ou roubo de fio de cobre. Mas também temos que ver a condição do equipamento conseguir dar vazão à precipitação que houve no período de duas horas. Para um acidente de natureza desses é muito difícil qualquer país do mundo estar preparado.

Megale – Mas a marginal agüentava até então chuvas fortes?

Paulo Vieira – Eu acho que se não houvesse a marginal, mas uma faixa de domínio de 200 metros, com certeza o problema seria muito atenuado.

Raquel – Aí também há uma relação com o uso e ocupação do solo na cidade e na região metropolitana. Não foi a água da marginal que transbordou do rio, mas a água que desceu das encostas dos vales e se acumulou na calha do Tietê. Essa quantidade enorme de água que se acumulou, maior do que em outras ocasiões, tem muito a ver com a estratégia de uso e ocupação do solo da região metropolitana, com aumento de área impermeabilizada na encosta e na meia encosta e com a expansão urbana e metropolitana, que continua a ser promovida. Há uma questão muito grave aí, que é de desconexão total entre o projeto de sistema viário e o planejamento metropolitano como um todo, que não existe. Ele é dependente dos planos diretores. E agora nós estamos vendo uma grande discussão sobre o plano diretor de São Paulo, porque a prefeitura está propondo uma intensificação da construção e da impermeabilização de áreas. Acho que há uma vontade de “deixar pra lá” todo o planejamento e isso acaba piorando cada vez mais a condição da drenagem.

Paulo Vieira – Eu cuido de grande parte das obras sobre pneus, como o Rodoanel, a marginal e a Jacu Pêssego, e tenho sobrevoado todas as obras. A expansão urbana desorganizada realmente é um problema gravíssimo. No sentido Itaquaquecetuba chego a ver dez carros jogados dentro do rio. E não tem como combater isso, o esgoto de Guarulhos vai para onde? Para dentro do rio. Temos um problema social, administrativo e cultural de planejamento que é equivocado há décadas. Realmente acabamos pagando um preço por isso. Estamos fazendo um esforço enorme, mas mesmo assim não é o suficiente para conseguir reestruturar tudo isso.

Raquel – Infelizmente, na área do planejamento, não está havendo esforço nenhum para estruturar nada. O que está sendo feito é um grande investimento na área de mobilidade, um conjunto de obras sobre trilhos e um conjunto de obras sobre pneus. Mas isso não é planejamento, investimento em planejamento não existe. O governo estadual não está fazendo e o governo municipal desqualifica o próprio planejamento que faz. A única lógica, o único sentido de política urbana em nossa cidade, em nossa região metropolitana e em nosso país, são obras, obras e obras. Não tem nada de planejamento. Acho que isso é um enorme desafio, e não estou vendo nem um milímetro de ação nem no governo estadual nem no municipal no sentido de fortalecer o planejamento urbano na nossa metrópole.

Megale – Só tenho mais uma pergunta. Se a Dersa está garantido que as obras não vão reduzir a permeabilidade da marginal, certamente elas não vão aumentá-la. A marginal não agüentou a fúria da natureza nesta terça-feira. Quando a natureza daqui a alguns anos resolver se enfurecer novamente, essa situação vai se repetir?

Paulo Vieira – Com relação ao imprevisível da força da natureza, não há empreendimento que dará conta, basta olhar o Brasil inteiro e ver o que aconteceu com as chuvas. Ainda bem que em São Paulo só houve a precipitação de chuva. Em qualquer parte do mundo a natureza é mais forte que a solução dos homens.

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