São Paulo, início da industrialização: o espaço e a política

Cidade de fronteiras abertas. Assim se configurou São Paulo no início deste século: palco que se preparava para ser território sob domínio do capital. Em menos de 30 anos, São Paulo passa de cidade/entreposto comercial de pouca importância no país es¬cravocrata para cidade-vanguarda da produção industrial. Esta passagem se produziu em um momento de transformações profundas na ordem social: passagem de um Estado imperial escravo¬crata para a República do trabalho assalariado. Esta transição, redefi¬nição do social, foi uma transformação multidimensional: mudaram enredos, palcos e personagens.

Podemos detectar esta transição de várias formas: focalizan¬do a atenção na transformação das relações econômicas ou sociais ou ainda nas instituições políticas. No entanto podemos também captá-la “desmontando” o próprio espaço urbano, palco-persona-gem desta transição, uma vez que na geografia transformada da cidade está a marca da constituição da nova ordem social.

Na cidade escravocrata, que perdura até épocas tardias do século XIX, mais precisamente até 1888, os limites e fronteiras entre os grupos sociais são clara e rigidamente definidos; na vida cio senhor e escravo não há qualquer momento em que não esteja expressa a relação de dominação. Uma dominação que se exerce diretamente, com o uso da força e violência física, e que se legiti¬ma mediante um discurso científico etnocêntrico. O escravo mora dentro do território do senhor, é uma máquina de produzir de sua propriedade. Na senzala, o negro escravo não é indivíduo, será quando fugir — se aquilombando — ou quando comprar a alforria, liberdade de dispor do próprio corpo.

Com a abolição, o senhor se libertou do investimento no escravo para poder explorar o trabalhador livre. Mas para isto era preciso constituir o trabalhador livre: fazê-lo existir tanto fisica¬mente quanto ideologicamente. Se não há mais senzala ou chibata, então era preciso submeter os indivíduos a uma determinada ordem, em que não lhes restasse outra alternativa senão a venda de sua força de trabalho.

Em São Paulo, nem o negro nem o caipira (homem livre não proprietário de escravos) ocuparam imediatamente o lugar deste novo trabalhador. Do ponto de vista dos fazendeiros de café — que propuseram e lideraram a substituição do trabalhador cativo pela mão-de-obra livre — era mais vantajoso empregar o imigran¬te europeu. As razões são antes de tudo econômicas: o fazendeiro não precisava pagar a passagem do imigrante — esta era paga pelo governo da província. Mas ao mesmo tempo a opção pelo “braço livre europeu” significava usar mão-de-obra “civilizada”, já que não era possível romper repentinamente com todo o arcabou¬ço ético-político da escravidão, montado mediante identificação “selvagem-inumano-cativo”. Pelo contrário, “barbárie versus civili¬zação” continuou sendo a pedra de toque do discurso da classe dominante na Primeira República (1889-1930), para justificar seu exercício cotidiano de poder.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

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