São Paulo, 450 Anos

Madrugada, janeiro, verão de 2003. Um carro sai do estacionamento no subsolo de um prédio e, enquanto espera o sistema eletrônico acionar grades e portões, seu proprietário olha para cima e vê ainda alguns andares iluminados pela luz dos computadores. Na calçada, duas pessoas estão remexendo o lixo à procura de latas, comida e papelão. O carro acelera rapidamente, temendo a aproximação de um adolescente, cabelo pixaim quase branco, que caminha em sua direção.

Percorrendo as ruas estreitas do bairro, o carro é detido pela enorme fila de táxis e pelo movimento dos manobristas na saída de uma casa noturna. Mulheres loiras com vestidos brilhantes justíssimos e saltos agulha se misturam por um átimo aos homens e mulheres vestidos de jeans/camiseta e carregando sacolas de plástico que acabam de desembarcar do ônibus.

Finalmente o carro atinge a avenida. Surpresa: congestionamento às seis e meia da manhã? No rádio, o repórter no helicóptero avisa: caminhão tombado em tal lugar, árvores caídas e pontos de alagamento que sobraram da tempestade do dia anterior; evitar rua tal, caminho tal. Da janela do seu carro parado, observa homens e mulheres vestidos com roupas esportivas, correndo ou caminhando rapidamente pelo canteiro central. Naquele instante, parecem estar envoltos por uma utopia de saúde, longevidade e beleza, uma espécie de paisagem subjetiva que os desconecta do cenário real.

São sete e meia da manhã quando o carro entra finalmente na estrada que o levará ao condomínio onde mora. Do outro lado da pista, a fila de caminhões e carros entrando na cidade é imensa e os vendedores de água, suco, eletrônicos e bonecos gigantes de plástico já instalaram seu drive-in comercial.

Quilômetro 30 – o carro para no estacionamento de uma das mega lojas da estrada e, atravessando corredores, chega à padaria em estilo country. Entre cestinhas decoradas com renda e flores do campo, ele escolhe baguettes e croissants. E lembra-se por um segundo de sua avó materna, nascida em casa de chão batido no meio do sertão, e da avó de sua mulher, que nunca esqueceu o porão do navio que a arrancou, menina, da aldeia à beira mar do Japão.

O artigo na íntegra está disponível aqui.

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