Política Urbana no Brasil – Esperança em Meio ao Caos?

Qual será a velocidade da cidade do futuro? Da Internet banda larga, que elimina fronteiras, desmaterializando espaços, ou do congestionamento quilométrico que transforma curtas distâncias em tempos imprevisíveis? E o espaço urbano do futuro? Serão ruínas inacabadas cobertas por montanhas de lixo e entulho ou a assepsia superiluminada dos megacentros de compras e lazer? Existirão no futuro ruas? Sobreviverão à fragmentação crescente dos espaços, à negação absoluta de qualquer terreno de ambiguidade ou convivência entre o público e o privado? Deixarão de ser o lar dos automóveis, decoradas especialmente com um paisagismo para ser visto através do pára-brisa? Ou serão a casa dos sem-casa, dos sem-lugar, dos fora da ordem mundial?

O início do terceiro milênio nos coloca diante de questões que impõem a necessidade de repensar e renegociar as bases fundamentais da cidade que queremos. Durante a modernidade, a idéia de acesso universal a bens e serviços públicos alimentava uma utopia de cidade aonde pobres e ricos eram considerados cidadãos – pelo menos em tese e como objetivo – frente ao estado. Aliás, era justamente o estado o encarregado pela implementação desta utopia, através de seu aparato legal e – principalmente – através de uma ação direta de disponibilização destes bens e serviços para todos.

Entretanto, a consolidação do capitalismo global do pós-guerra definiu claramente o tom hegemônico contemporâneo. A mobilidade do capital e a emergência de um mercado global criaram uma elite que controla os fluxos do capital financeiro e das informações, atuando predominantemente em redes e clusters, e reduzindo seus vínculos com suas comunidades de origem. A utopia da universalização dos direitos se rompe, gerando uma nova ordem social baseada em uma nova estrutura de castas: de um lado, os incluídos; de outro, os excluídos. (DUPAS 2003)

Estas mudanças inserem-se em uma conjuntura econômica internacional marcada por uma série de ajustes frente à intensificação nas velocidades das relações econômicas globalizadas, com aumento nos fluxos financeiros e o surgimento de novos padrões tecnológicos e organizacionais da produção, dominados pela automação e pela atuação em rede de grupos econômicos transnacionais. A chamada firma-rede, operando através de uma descentralização da produção em cadeias espalhadas por diferentes territórios do planeta, explorando localidades com larga oferta de mão-de-obra barata, organiza-se segundo franquias, sub-contratações e terceirizações. A revolução micro-eletrônica, com o aperfeiçoamento do microcomputador, a utilização maciça da telemática,dos métodos digitais e da automação na produção industrial, nos serviços e na agricultura, constituindo a chamada Terceira Revolução Industrial, fornece a infra-estrutura necessária para as operações empresariais descentralizadas com concentração de ganhos e decisões. (ROLNIK & NAKANO 2000)

Nesse novo padrão de desenvolvimento, a modernização se dá de forma seletiva, com os investimentos direcionando-se segundo os “requisitos locacionais da acumulação flexível como: melhor oferta de recursos humanos qualificados, maior proximidade com centros de produção de conhecimento e tecnologia, maior e mais eficiente dotação de infra-estrutura econômica, proximidade com os mercados consumidores de mais alta renda” (ARAÚJO, 1999: 3). A modernização seletiva atual usufrui as vantagens locacionais produzidas no território durante o período da modernização desigual vigente no “capitalismo dirigido” entre as décadas de 50 e 70. Este novo padrão de desenvolvimento, conduzido principalmente pela lógica competitiva do mercado, tem gerado a formação de enclaves de dinamismo próximos a áreas excluídas dos processos de seleção econômica. Ou seja, trechos do território qualificados para receber investimentos distribuídos seletivamente passam a participar das relações econômicas mundializadas e se distanciar socialmente dos territórios de pobreza, estagnadas e isoladas à sua volta, aumentando a desigualdade e os graus de exclusão social e territorial. Essa “seletividade territorial” no direcionamento dos investimentos públicos novamente coloca o Estado como importante ator – na presença e na ausência – no desenho de uma nova geografia urbana.

Artigo na íntegra disponível aqui.

Um comentário sobre “Política Urbana no Brasil – Esperança em Meio ao Caos?

  1. Muito interessante o artigo Raquel, parabéns. Irei le-lo completo mais tarde, no entanto através desta leitura rápida, não pude perceber onde está a esperança. Pra você, existe alguma esperança na Política Brasileira?

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