Lar, doce lar… (a história de uma fórmula arquitetônica)

Atravesso o portão de ferro. Dali sou encaminhado – dependendo de minha aparência e finalidade de minha visita – a uma “entrada de serviços” ou uma outra, “social”. Elas me conduzirão à zona de serviços e empregados ou á sala de visitas.

Da casa ao apartamento, da mansão murada ao sobrado germinado de classe média, é a mesma fórmula de morar que se repete: a sala – cartão de visitas ou santuário da TV – é isolada da cozinha e da região de serviços. Acrescenta-se uma zona íntima composta por quartos e banheiros divididos por sexo e posição no grupo familiar. O território da casa se organiza de tal modo que vão se definindo territórios cada vez menores e exclusivos. Isolada do espaço da rua, a casa se volta para dentro: internamente dividida em cômodos independentes e especializados funcionalmente, a casa é esquadrinhada, segregando usos e contatos.

Esta fórmula de habitar – modelo de micropolítica que se multiplica por nossas cidades – é uma forma-referência que se constitui em norma para todo o corpo social. A norma está expressa na repetição da fórmula na cidade: milhares de casulos familiares, organizados segundo a mesma matemática.

As próprias leis urbanas confirmam o modelo. No código de edificações, por exemplo, nos recuos obrigatórios e desejáveis, na destinação funcional dos cômodos, na regulamentação das aberturas da casa, a forma-referência se confirma. A casa deve ser isolada; as três regiões – social, íntima, serviços – devem ser demarcadas, as aberturas definem os contatos permitidos e proibidos. As paredes delimitam os territórios da intimidade, permitindo a passagem ou interrompendo fluxos – bloqueando olhares ou o contato. São barreiras visíveis, quando os muros são de alvenaria, ou invisíveis, quando transparentes, permitem a passagem do olhar mas vedam o tato.

De onde teria surgido esta forma poderosa, capaz de se impor sobre as demais e se firmar como norma?

A história do confinamento da família na intimidade do lar liga-se à história da morte do espaço da rua como território de trocas cotidianas, espaço de socialização. As ruas se redefinem em vias de passagem de pedestres e veículos; a casa se volta para dentro de si e lá dentro, fechada e esquadrinhada, a família.

O artigo na íntegra está disponível aqui.

Um comentário sobre “Lar, doce lar… (a história de uma fórmula arquitetônica)

  1. Bo tarde ,
    Preciso da sua ajuda . Precido fazer uma pesquisa de estudo de caso, voltado para politica urbana , mas e stou achando tudo muito vago , será se você não podia me direcionar um pouco.

    Aguardo retorno.

    Grata.

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