Centro Cultural SP promove mês de reflexão sobre urbanismo e arquitetura paulistanos

O processo de urbanização, o planejamento e sua ausência, a arquitetura e seus protagonistas, e, principalmente, a cidade de São Paulo, serão objeto de dois ciclos promovidos pelo Centro Cultural São Paulo. Uma  programação especial exibirá filmes e palestras e mobilizará debatedores durante todo o mês de junho, com entrada franca.

Essa programação é dividida em dois ciclos: “São Paulo, o processo de urbanização e a metrópole” e “Arquitetura Moderna Brasileira”. As atividades acontecerão no CCSP, na Escola da Cidade e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Abaixo, disponibilizamos a programação, que também pode ser consultada no site do Centro Cultural São Paulo.

de 1º/6 a 1º/7
Residência Internacional de Arquitetura
São Paulo, Minhocão Under & Over – A sectional urbanism of the Minhocão and surroudings / São Paulo, Minhocão Por Baixo e Por Cima – O urbanismo seccional do Minhocão e seus arredores
correalização: Universidade de Toronto – The John H. Daniels Faculty of Architecture, Landscape and Design e Centro Cultural São Paulo – curadoria do projeto: Alexander Pilis -professores: Alexander Pilis e Maria Denegri – curadoria dos ciclos de palestras e dos filmes: Leandro Leão – design gráfico: Miguel Croce – mediação das palestras: Alexander Pilis e Leandro Leão
Estudantes canadenses e brasileiros examinam arquitetonicamente e seccionalmente, sob vários pontos de vista, o apparatus Minhocão e seu entorno. As atividades acontecerão no Centro Cultural São Paulo, na Escola da Cidade (Rua General Jardim, 65) e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Rua do Lago, 876 – Cidade Universitária). No CCSP, o debate será sobre o Minhocão e seu entorno, o processo de urbanização da cidade de São Paulo e seus projetos recentes. Na FAU/USP e na Escola da Cidade, o tema é a arquitetura moderna brasileira e seus principais arquitetos.

Programação no CCSP
Ciclo São Paulo, o processo de urbanização e a metrópole

aula-visita
dia 3/6 – domingo
11h Caminhada crítica pelo Minhocão e seus arredores
com: Frentes Arquitetura – José Alves e Juliana Corradini (arquitetos e urbanistas formados na FAU/USP e sócios do escritório Frentes. Em 2006, ganharam o 1º lugar no Prêmio Prestes Maia de Urbanismo, com o projeto Uma cicatriz corta a cidade: soluções para o Elevado Costa e Silva). Ida ao Minhocão de metrô para percorrê-lo em uma tarde de domingo, dia em que está fechado para os carros e há somente pedestres. Reconhecer e analisar o seu percurso, sua escala, seus edifícios e seu entorno.
Entrada franca – sem necessidade de retirada de ingressos
Ponto de encontro: Sala de Debates

cinema
dia 5/6 – terça
18h Bem-vindo a São Paulo
(Brasil, 2007, 100min – documentário)
direção: Kiju Yoshida, Phillip Noyce, Wolfgang Becker e mais 15 diretores
Dezessete episódios realizados por diretores internacionais retratam a grandeza e a miséria de São Paulo. Como se poderia retratar toda a diversidade de São Paulo no cinema?
Entrada franca – sem necessidade de retirada de ingressos
Sala de Debates

dia 7/6 – quinta
20h São Paulo S/A
(Brasil, 1965, 111min)
direção: Luiz Sérgio Person – elenco: Ana Esmeralda, Eva Wilma, Otelo Zeloni, Nadir Fernandes, Osmano Cardoso, Silvio Rocha, Armando Paschoal, Altamiro Martins, Armando Sganzerla, Etty Frazer, Kleber Macedo, Carmen Maria, Cecília Rabelo, Lenoir Bittencourt, Maria Lysia, Mario F. C. Audrá, Victorio Bondioli, João Chalherani, Jean Laffront, Marcos Newman, Marta, Renato e Ricardo Gonda – apresentando: Walmor Chagas e Darlene Glória
Grande painel sobre o impacto das transformações sociais e econômicas de São Paulo, no surto da implantação da indústria automobilística, sob a visão de um sujeito em ascensão.
Entrada franca – sem necessidade de retirada de ingressos
Sala de Debates

dia 21/6 – quinta
20h Linha de passe
(Brasil, 2008, 108min)
direção: Walter Salles e Daniela Thomas
No coração de uma das maiores metrópoles do mundo, São Paulo, quatro irmãos tentam reinventar suas vidas. Dario, prestes a completar 18 anos, sonha em ser jogador de futebol. O mais novo, Reginaldo, procura obstinadamente seu pai. Dinho, frentista em um posto de gasolina, busca na religião o refúgio. Dênis, o irmão mais velho, já é pai e sobrevive como motoboy. No centro disso, está Cleusa, 42 anos, grávida do quinto filho. Ela trabalha como empregada doméstica enquanto luta para manter os filhos na linha. Para sobreviver à brutalidade de uma cidade, eles só podem contar um com o outro.
Entrada franca – sem necessidade de retirada de ingressos
Praça Mário Chamie (Bibliotecas)

dia 28/6 – quinta
20h PMR29: vinte e nove minutos com Paulo Mendes da Rocha
(Brasil, 2011, 29min – documentário)
roteiro e direção: Carolina Gimenez, Catherine Otondo, João Sodré, José Paulo Gouvêa e Juliana Braga
O filme é conduzido por uma conversa com Paulo Mendes da Rocha realizada em seu escritório em 2010. Ao apresentar algumas de suas principais obras, o arquiteto tece considerações acerca da compreensão da arquitetura em sua dimensão humana e essencialmente cultural. Paulo Mendes da Rocha é um dos mais importantes arquitetos brasileiros da atualidade, reconhecido internacionalmente pela qualidade dos projetos quem vem realizando desde os anos 1950. De acordo com os diretores, “Paulo nos apresenta particularidades de alguns de seus projetos construídos e mais do que isso, nos conduz para uma contundente reflexão sobre a situação contemporânea da metrópole, a nossa condição brasileira e a nossa ocupação das cidades. Na força de seu discurso, nos mostra que ainda é possível, nos dias de hoje, compreender a arquitetura em uma dimensão humana e essencialmente cultural”.
Entrada franca – sem necessidade de retirada de ingressos
Praça Mário Chamie (Bibliotecas)
Debate: Após a exibição, haverá debate com Guilherme Wisnik (arquiteto, urbanista e doutor pela FAU/USP, mestre pela FFLCH/USP. Professor da Escola da Cidade), Juliana Braga (arquiteta e urbanista formada na FAU/USP e mestre pela mesma instituição. Sócia do escritório SPBR arquitetos) e Luiz Recamán (professor da FAU/USP e do programa de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo do Curso de Arquitetura e Urbanismo da EESC-USP)

debate
dia 19/6 – terça
18h São Paulo, os estrangeiros e a construção da cidade
com: Ana Lanna (professora da FAU/USP, autora de Uma Cidade na Transição: Santos – 1870/1913) e José Lira (professor da FAU/USP e autor de Warchavchik: fraturas da vanguarda)
Entre 2007 e 2011, o grupo de pesquisa Fapesp, com docentes, alunos de pós-graduação e graduação, entre as unidades da USP – FAU, FFLCH, EESC e Museu Paulista -, realizou estudo e análise da cidade de São Paulo desde o final do século 19 até a contemporaneidade, tendo como fio condutor as presenças estrangeiras, fundamentais nos processos de transformação física, demográfica, econômica social e cultural da cidade. Em 2011, publicaram o livro com coletânea de artigos, São Paulo, os estrangeiros e a construção das cidades, e o site estrangeiros.fau.usp.br, no qual estão organizados e disponibilizados de desenhos de projetos a fotografias das pesquisas desenvolvidas. Nesta mesa, serão abrangidas três escalas: do projeto urbano, da formação do bairro e do arquiteto.
Entrada franca – sem necessidade de retirada de ingressos
Sala de Debates

dia 26/6 – terça
18h Projetos para São Paulo
com: Alexandre Delijacoiv (professor da FAU/USP e coordenador do Grupo Metrópole Fluvial) e Elisabete França (arquiteta e urbanista, superintendente de Habitação Popular e secretária adjunta de Habitação da Cidade de São Paulo – Sehab)
Nesta mesa serão apresentados projetos para a cidade de São Paulo realizados por duas instituições públicas, a FAU/USP e a Secretaria Habitação da Cidade de São Paulo. Em 2011, o Grupo de Pesquisa em Projeto de Arquitetura de Infraestruturas Urbanas Fluviais – Grupo Metrópole Fluvial -, a partir do contato com Departamento Hidroviário da Secretaria Estadual de Logística e Transportes do Governo do Estado de São Paulo, desenvolveu a Articulação Arquitetônica e Urbanística dos Estudos de Pré-viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental do Hidroanel Metropolitano de São Paulo. A Secretaria de Habitação da Cidade de São Paulo tem implantado sua política habitacional voltada para a atuação nos territórios precários com diversos projetos nas áreas periféricas da cidade, em programas e no concurso Renova SP.
Entrada franca – sem necessidade de retirada de ingressos
Sala de Debates

Programação na Escola da Cidade
Ciclo Arquitetura moderna brasileira

cinema
dia 6/6 – quarta
18h Oscar Niemeyer, a vida é um sopro
(Brasil, 2007, 90min – documentário)
O arquiteto conta de forma descontraída como concebeu seus principais projetos. Mostra como revolucionou a arquitetura moderna, com a introdução da linha curva e a exploração de novas possibilidades de utilização do concreto armado. Fala também sobre sua vida, seu ideal de uma sociedade mais justa e de questões metafísicas como a insignificância do homem diante do universo. O filme é costurado por imagens de arquivo inéditas e raras e por depoimentos de personalidades como os escritores José Saramago, Eduardo Galeano e Carlos Heitor Cony, o poeta Ferreira Gullar, o historiador Eric Hobsbawn, o cineasta Nelson Pereira dos Santos, o ex-presidente de Portugal Mário Soares e o compositor Chico Buarque.
Debate: Após a sessão, haverá debate com Anália Amorim (arquiteta e urbanista, professora do Departamento de Projeto da FAU/USP e professora e presidente da Associação Escola da Cidade)

palestra
dia 20/6 – quarta
18h Lina Bo Bardi
com: Marina Grinover (arquiteta, urbanista e mestre em Arquitetura pela FAU/USP. Professora da Escola da Cidade e sócia do escritório Base 3 Arquitetos)
A trajetória da arquiteta Lina Bo Bardi, que nasceu na Itália em 1914, mas que adota o Brasil como seu país a partir de 1946. É uma das figuras mais importantes pela sua atuação na arquitetura, mas também, junto com seu marido, Pietro Maria Bardi, pela relação com o meio cultural, em destaque para os projetos do MASP e SESC Pompeia.

Programação na FAU/USP
Ciclo São Paulo, o processo de urbanização e a metrópole

cinema
dia 1º/6 – sexta
19h Elevado 3.5
(Brasil, 2007, 72min – documentário)
direção: Paulo Pastorelo, Maíra Bühler e João Sodré
O dia a dia do Elevado Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão, é o tema deste documentário premiado no festival É Tudo Verdade, em 2007. O filme mostra os moradores da região e as pessoas que por ali passam.
Debate: Após a exibição, haverá debate com os diretores João Sodré (arquiteto e urbanista formado na FAU/USP, mestre e doutorando na mesma instituição. Professor do curso de Arquitetura da Universidade São Judas Tadeu. Sócio do escritório Grupo SP) e Paulo Pastorelo (arquiteto e urbanista formado pela FAU/USP, com diversos trabalhos na área de cinema, como Vale o Homem seus Pertences, realizado em coprodução com STV – Rede SESCSENAC de Televisão)

Ciclo Arquitetura moderna brasileira

cinema
dia 27/6 – quarta
17h Vilanova Artigas
Este documentário lança um múltiplo olhar sobre o trabalho deste mestre da arquitetura brasileira do século 20. O depoimento dos filhos Júlio e Rosa, do professor Julio Katinsky e dos arquitetos Ruy Ohtake, Fabio Penteado, Paulo Mendes da Rocha e Oscar Niemeyer revelam o mundo de um homem de temperamento forte, brilhante educador, e um arquiteto que acreditava na convivência entre a lógica da ciência e a pedagogia torta do fazer artístico. Também viaja por dentro dos projetos mais importantes de Vilanova Artigas, mostrando a genialidade simples dos seus desenhos – linhas elegantes que sustentam toneladas.
Debate: Após a exibição, haverá debate com Mônica Junqueira (professora da FAU/USP e conselheira do Conpresp no período de 2004 a 2007) e Rafael Urano (arquiteto, urbanista e doutorando pela FAU/USP. Sócio do escritório 23 Sul)

“Hoje, nosso slogan deveria ser ‘São Paulo não pode morrer’”

Sábado passado, o Correio da Cidadania publicou artigo do professor João Whitaker, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, sobre a cidade de São Paulo. Confiram abaixo.

São Paulo vai morrer

As cidades também morrem. Há meio século, o lema de São Paulo era “a cidade não pode parar”. Hoje, nosso slogan deveria ser “São Paulo não pode morrer”. Porém, parece que fazemos todo o possível para apressar uma morte anunciada. Pior, o que acontece em São Paulo tornou-se infelizmente um modelo de urbanismo que se reproduz país afora. A seguir esse padrão de urbanização, em médio prazo estaremos frente a um verdadeiro genocídio das cidades brasileiras.

Enquanto muitas cidades no mundo apostam no fim do automóvel, por seu impacto ambiental baseado no individualismo, e reinvestem no transporte público, mais racional e menos impactante, São Paulo continua a promover o privilégio exclusivo dos carros. Ao fazer novas faixas para engarrafar mais gente na Marginal Tietê, com um dinheiro que daria para dez quilômetros de metrô, beneficia os 30% que viajam de automóvel todo dia, enquanto os outros 70% se apertam em ônibus, trens e metrôs superlotados. Quando não optam por andar a pé ou de bicicleta, e freqüentemente demais morrem atropelados. Uma cidade não pode permitir isso, e nem que cerca de três motociclistas morram por dia porque ela não consegue gerenciar um sistema que recebe diariamente 800 novos carros.

Não tem como sobreviver uma cidade que gasta milhões em túneis e pontes, em muitos dos quais, pasmem, os ônibus são proibidos. E que faz desaparecer seus rios e suas árvores, devorados pelas avenidas expressas. Nenhuma economia no mundo pode pretender sobreviver deixando que a maioria de seus trabalhadores perca uma meia jornada por dia – além do duro dia de trabalho – amontoada nos precários meios de transporte. Mas em São Paulo tudo se pode, inclusive levar cerca de quatro horas na ida e volta ao trabalho, partindo-se da periferia, em horas de pico.

Uma cidade que permite o avanço sem freios do mercado imobiliário (agora, sabe-se, com a participação ativa de funcionários da própria prefeitura), que desfigura bairros inteiros para fazer no lugar de casas pacatas prédios que fazem subir os preços a patamares estratosféricos e assim se oferecem apenas aos endinheirados; prédios que impermeabilizam o solo com suas garagens e aumentam o colapso do sistema hídrico urbano, que chegam a oferecer dez ou mais vagas por apartamento e alimentam o consumo exacerbado do automóvel; que propõem suítes em número desnecessário, o que só aumenta o consumo da água; uma cidade assim está permanentemente se envenenando. Condomínios que se tornaram fortalezas, que se isolam com guaritas e muros eletrificados e matam assim a rua, o sol, o vento, o ambiente, a vizinhança e o convívio social, para alimentar uma falsa sensação de segurança.

Enquanto as grandes cidades do mundo mantêm os shoppings à distância, São Paulo permite que se levante um a cada esquina. Até sua companhia de metrô achou por bem fazer shoppings, em vez de fazer o que deveria. O Shopping Center, em que pese a sempre usada justificativa da criação de empregos, colapsa ainda mais o trânsito, mata o comércio de bairro e aniquila a vitalidade das ruas.

Uma cidade que subordina seu planejamento urbano a decisões movidas pelo dinheiro, em nome do discutível lucro de grandes eventos, como corridas de carro ou a Copa do Mundo, delega as decisões de investimentos urbanos não a quem elegemos, mas a presidentes de clubes, de entidades esportivas internacionais ou ao mercado imobiliário.

Esta é uma cidade onde há tempos não se discute mais democraticamente seu planejamento, impondo-se a toque de caixa políticas caça-níqueis ou populistas, com forte caráter segregador. Uma cidade em que endinheirados ainda podem exigir que não se faça metrô nos seus bairros, em que tecnocratas podem decidir, sem que se saiba o porquê, que o mesmo metrô não deve parar na Cidade Universitária, mesmo que seja uma das maiores do continente.

Mas, acima de tudo, uma cidade que acha normal expulsar seus pobres para sempre mais longe, relegar quase metade de sua população, ou cerca de 4 milhões de pessoas, a uma vida precária e insalubre em favelas, loteamentos clandestinos e cortiços, quando não na rua; uma cidade que dá à problemática da habitação pouca ou nenhuma importância, que não prevê enfrentar tal questão com a prioridade e a escala que ela merece, esta cidade caminha para sua implosão, se é que ela já não começou.

Nenhuma comunidade, nenhuma empresa, nenhum bairro, nenhum comércio, nenhuma escola, nenhuma universidade, nem uma família, ninguém pode sobreviver com dignidade quando todos os parâmetros de uma urbanização minimamente justa, democrática, eficiente e sustentável foram deixados para trás. E que se entenda por “sustentável” menos os prédios “ecológicos” e mais nossa capacidade de garantir para nossos filhos e netos cidades em que todos – ricos e pobres – possam nela viver. Se nossos governantes, de qualquer partido que seja, não atentarem para isso, o que significa enfrentar interesses poderosos, a cidade de São Paulo talvez já possa agendar o dia se deu funeral. Para o azar dos que dela não puderem fugir.

João Sette Whitaker Ferreira, arquiteto-urbanista e economista, é professor da Faculdade de Urbanismo da Universidade de São Paulo e da Universidade Mackenzie.

Documentário propõe reflexão sobre o espaço público do Recife e seus processos de transformação

Em meio às atuais discussões sobre a questão urbana no Recife, um grupo de arquitetos e cineastas produziu o documentário “Velho Recife Novo”, propondo uma reflexão sobre o espaço público da cidade e seus processos de transformação.

Segue abaixo o vídeo, acompanhado de sinopse:

 

Sinopse: Oito especialistas de diversas áreas (arquitetura e urbanismo, economia, engenharia, geografia, história e sociologia) opinam sobre a noção de espaço público na cidade do Recife e destacam temas como: a história do espaço público na cidade, o efeito dos projetos de grande impacto no espaço urbano, modos de morar recifenses, a relação entre a rua e os edifícios, a qualidade dos espaços públicos, legislação urbana, gestão e políticas públicas e mobilidade.

Realização: Luís Henrique Leal (cineasta), Caio Zatti (cineasta), Cristiano Borba (arquiteto) e Lívia Nóbrega (arquiteta).

Mais um bom programa para as férias: a São Paulo do século XVIII em debate na Biblioteca Mário de Andrade

Começa hoje o ciclo de conferências sobre a São Paulo do século XVIII promovido pela Biblioteca Mário de Andrade. Os debates acontecerão às terças-feiras, durante todo o mês de julho, com a participação de historiadores, sociólogos, arquitetos e musicólogos que discutirão as transformações sociais e políticas pelas quais a cidade passou naquele período.

Mais um bom programa para as férias. Confira abaixo a programação:

A São Paulo do século XVIII: de vila à cidade
Terças-feiras, 19h às 21h
Local: Auditório da Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94)
Entrada gratuita

Programação

12 jul | ter | 19h às 21h
- Arquitetura e urbanismo
Configuração urbana da cidade de São Paulo no século XVIII
conferência de Benedito Lima de Toledo
As formas do traçado urbano e das casas
conferência de Nestor Goulart Reis

19 jul| ter| 19h às 21h
- Cotidiano e transição histórica
A São Paulo do século XVIII no imaginário fotográfico do início do século XX
conferência de Fraya Frehse
Metamorfoses da São Paulo do setecentos: ser cidade no Trópico de Capricórnio
conferência de José de Souza Martins

26 jul| ter | 19h às 21h
- Música e Leitura
Nos desvãos das livrarias religiosas: livros e censura na São Paulo setecentista
conferência de Marisa Midori Deaecto
Música na São Paulo colonial
conferência de Regis Duprat

Milton Santos: um grande pensador do espaço urbano brasileiro

Acabo de visitar o belo site do Milton Santos, criado e mantido por sua família com o objetivo de reunir informações úteis sobre a vida e a obra deste grande pesquisador e pensador do espaço urbano brasileiro.

Me lembro quando o Milton Santos retornou ao Brasil em 1977, depois de um longo período fora do país. Foi impressionante ouvi-lo falar e refletir sobre a questão urbana de uma maneira bem diferente da que estava sendo produzida pela sociologia urbana naquela ápoca.

Sem dúvida, ele influenciou muitas gerações de geógrafos, sociólogos e urbanistas, como eu.

Para quem ainda não conhece o site, o link é: www.miltonsantos.com.br

Nenhuma experiência urbanística se sustenta sem uma boa gestão: veja Bogotá

Vira e mexe, alguma experiência urbanística vira a referência do momento. Foi-se o tempo de Curitiba. Barcelona teve seus dias de glória. A bola da vez, até pouco tempo, era Bogotá.

Matéria publicada no portal do Estadão, domingo passado, mostra como a cidade vem enfrentando problemas de trânsito, violência e corrupção na gestão municipal, desconstituindo aquilo que a havia notabilizado.

O fato é que algumas experiências concretas de intervenção urbanística acabam se transformando em produtos de exportação e gerando um enorme marketing. 

Com isso, essas experiências acabam se descarnando, no sentido de que, quando se transformam em um produto de marketing, elas perdem totalmente a relação e a inserção que tinham com todo o processo que as gerou e se tornam uma espécie de coisa em si.

O mundo real das cidades é feito de propostas inovadoras e de “sacadas” urbanísticas, mas não só. Ele é principalmente feito de um dia-a-dia, de um cotidiano com uma qualidade de gestão capaz de manter as coisas e de transformá-las na medida da exigência das necessidades diárias.

Infelizmente, essa capacidade de gestão não gera marketing, não cria uma imagem de cidade e de governante que depois satisfaça egos e bolsos que vendem essas soluções para outros lugares. Esse exemplo de Bogotá é muito emblemático.

Por conta do projeto do TransMilenio e das intervenções nas suas periferias, Bogotá virou a miss universo do urbanismo. Propostas de reprodução das obras que ali foram feitas se espalharam pelo mundo.

Entretanto, a parte não contada da história de Bogotá foi todo o processo anterior, intangível, imaterial, de reconstrução de um tecido cidadão, de transformação na esfera política que foi justamente o que se perdeu hoje.

Que intervenção seria um excelente presente para a cidade de São Paulo?

Na semana do aniversário de São Paulo, o jornal Metrô News convidou algumas pessoas para que respondessem à seguinte pergunta: que intervenção seria um excelente presente para a cidade?

Respondi que eu “daria um novo pacto territorial em relação ao uso e ocupação do solo. Daria uma nova forma, um compromisso de transformação, privilegiando o uso de VLT (veículo leve sobre trilho), metrô e trem”.

A matéria discute um pouco a questão da ocupação desordenada de várzeas e córregos, as consequências disso no período das chuvas, e também a opção de São Paulo por uma política de mobilidade que privilegia o carro em detrimento do transporte coletivo por trilho.

Para ler o texto completo, clique aqui.

Ou veja abaixo a imagem da edição impressa.

Audiência pública sobre a Nova Luz foi remarcada e acontecerá nesta sexta-feira

Será realizada amanhã, às 18h, no auditório Celso Furtado do palácio de convenções do Anhembi, a audiência pública sobre o projeto urbanístico da Nova Luz.

A audiência deveria ter acontecido desde o dia 14, mas foi cancelada devido a presença de centenas de manifestantes, especialmente trabalhadores e moradores da região. Desta vez, a prefeitura fará um credenciamento dos interessados em participar da audiência, entre 15h e 18h, no local.

A Associação de Moradores e Trabalhadores da Nova Luz está preocupada com o destino da população que trabalha e reside na região, já que o projeto prevê a demolição de 30% da área, e cobra da prefeitura garantias de que os direitos dessas pessoas serão respeitados. Leia mais sobre as propostas da associação.

Para quem quiser saber mais sobre esse tema, recomendo o interessante debate realizado hoje pela rádio CBN entre o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Miguel Bucalem, e o presidente da Associação Comercial de Santa Ifigênia, Paulo Garcia. Para ouvir o debate, clique aqui.

Condephaat propõe alterações no tombamento do Pacaembu e dos Jardins

O Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo) está propondo mudanças no tombamento do Pacaembu e dos Jardins.

Associações de moradores desses bairros, que discordam das propostas, já estão se mobilizando, e realizam hoje uma reunião com o Secretário Estadual de Cultura, Andrea Matarazzo, para discutir o assunto.

No caso do Pacaembu, entre as propostas do Condephaat estão alterações no perímetro tombado e também a permissão de remembramento, ou seja, de junção de lotes. No caso dos Jardins, trata-se de alterações de gabarito em um trecho, de recuos e ajardinamento.

Todo mundo sabe que a pressão do mercado imobiliário sobre estes bairros – localizados na região central e cercados de áreas verticalizadas – é muito grande e vem de longa data. E o tombamento foi utilizado pelos moradores sobretudo como instrumento para impedir a verticalização e preservar suas características urbanísticas.

Leia mais sobre o assunto nesta matéria do Estadão do dia 10 de dezembro.

E veja o documento do Condephaat sobre as propostas de mudança.

O que é periferia? Entrevista para a edição de junho da Revista Continuum /Itaú Cultural

A Revista Continuum/Itaú Cultural apresenta neste mês edição especial sobre periferia. Além de mim (reprodução abaixo), foram entrevistados o jornalista Gilberto Dimenstein, o psicanalista Jorge Broide, o professor e pesquisador Eduardo Marques e a antropóloga Rose Satiko. A edição completa está disponível aqui.

Espaços em transformação

Por Mariana Sgarioni e Rafael Tonon | Ilustração Mariana Leme

Geralmente, a periferia é vista pelas pessoas como um bloco único, um problema único ou uma condição única de existência. Mas a aproximação ao tema faz ver que, apesar de traços comuns, cada periferia tem sua especificidade e, dependendo do enfoque, ela pode ser um conceito relativo. Para Gilberto Dimenstein, por exemplo, um jovem de classe média alta alienado é periférico. Em contraponto, analisa o jornalista, um dos entrevistados nesta seção, um jovem periférico integrado socialmente ultrapassa seus limites geográficos.

Na opinião do psicanalista Jorge Broide, também entrevistado, os problemas enfrentados pela periferia, especialmente a violência, dificultam a circulação da palavra, expressa entre outros aspectos pela arte e pela cultura. Outro convidado a refletir sobre a periferia é o professor e pesquisador Eduardo Marques, que vê com otimismo a quebra da homogeneidade dessas populações, à medida que avançam os serviços públicos e a cidadania. Uma vontade política ampla é o primeiro passo para reverter o estigma de exclusão que paira sobre pessoas que vivem fora do centro das grandes cidades, na visão da antropóloga Rose Satiko.

No entanto, a urbanista Raquel Rolnik, cuja entrevista fecha a seção, observa que, apesar de a cultura da periferia ganhar cada vez mais espaço dentro e fora dela, sua força política foi capturada pelo jogo eleitoral. Conheça essas e outras reflexões dos especialistas convidados a debater esses espaços em transformação.


Para você, o que é periferia?
O conceito de periferia foi forjado de uma leitura da cidade surgida de um desenvolvimento urbano que se deu a partir dos anos 1980. Esse modelo de desenvolvimento privou as faixas de menor renda de condições básicas de urbanidade e de inserção efetiva à cidade. Essa talvez seja sua principal característica, migrada de uma ideia geográfica, dos loteamentos distantes do centro. Mas é preciso lembrar que a periferia é marcada muito mais pela precariedade e pela falta de assistência e de recursos do que pela localização. Hoje há condomínios de alta renda em áreas periféricas que, claro, não podem ser considerados da mesma forma que seu entorno, assim como há periferias em áreas nobres da cidade.

Que tipo de problema social a periferia representa?
O principal problema das periferias hoje está na ambiguidade constitutiva entre a cidade e seus assentamentos populares, principalmente de áreas irregulares e ilegais. Em primeiro lugar, na própria questão do pertencimento desses assentamentos à cidade: eles fazem ou não parte da cidade? A quem ela pertence? Apesar de estar no controle do aparato do Estado, há muitos lugares, como favelas urbanizadas de grandes cidades, em que as prefeituras não entram para fazer coleta de lixo ou manutenções (drenagem, limpeza de bueiros etc.), algo que é comum aos outros bairros. Essa questão é transcendente porque joga luz sobre muitos outros problemas das periferias, como a crescente violência e o controle do tráfico de drogas. Um lugar em que reina a ambiguidade é uma “terra sem dono”, onde teoricamente qualquer pessoa ou grupo pode tomar para si o seu controle. É isso que acontece, por exemplo, com o próprio tráfico.

As iniciativas que tentam integrar a periferia ao restante das grandes cidades geram resultados?
Acho que grande parte das iniciativas hoje são absolutamente fragmentadas e pontuais, uma vez que não conseguem resolver a principal questão que paira sobre a periferia, que é romper o nosso modelo de desenvolvimento econômico. As iniciativas não conseguem parar a máquina de produção da exclusão. O salário do trabalhador formal do Brasil não consegue cobrir o custo de moradia, seja em aluguel, seja na casa própria. E isso não é para uma pequena parcela da população, mas para 60%, 70% dela. Ao mesmo tempo, as políticas e os investimentos valorizam a terra, aumentam cada vez mais o seu valor. Nesse contexto, aos pobres resta morar onde? Por isso temos mais pessoas vivendo em áreas periféricas, sem acesso a recursos, e longe dos centros das cidades.

Qual a força da periferia em termos políticos? E no tocante à arte e à cultura?
Acredito que a força política da periferia foi capturada pelo jogo político e eleitoral. O poder político ainda está ali – afinal, a periferia é muito representativa na medida em que faz parte de uma enorme parcela da população do país, eleitoralmente muito forte –, mas perdeu a força transformadora que tinha. Se está muito mais esvaziada em termos políticos, no entanto, também vejo a periferia muito mais forte na questão das manifestações culturais e artísticas. Muitos de seus movimentos artísticos ganharam uma expressão mais ampla do que seus próprios bairros. Eles quebraram as barreiras geográficas e se difundiram no restante da cidade, em outras cidades, em outros países. Por isso, acho que a força da periferia, hoje, está muito mais nas questões culturais do que políticas.

Como transformar o estigma de exclusão que paira sobre os moradores da periferia?
Não se trata só de um estigma de exclusão, mas de uma exclusão que é real, e não imaginária. Acho difícil romper essa imagem quando os meios de comunicação, por exemplo, mostram apenas o lado negativo das periferias, salvo raríssimas exceções. O estigma se dá quando ela é representada e mostrada pelo olhar de alguém que não vem de lá, que não vive lá, enfim, de um olhar totalmente estrangeiro sobre aquela realidade. Para minimizar essa imagem, é imprescindível dar voz também a outras questões, mostrar outras verdades. Para isso, é necessário oferecer oportunidades para que a periferia possa se mostrar da forma como gostaria.

Consórcio vai realizar estudos e desenvolver proposta urbanística para a região da Luz


Começou mais um capítulo da novela do projeto de reabilitação da região da Luz na cidade de São Paulo. A prefeitura anunciou nesta semana o consórcio ganhador da licitação que vai que realizar estudos e propor um projeto urbanístico para a região.

Da maneira como a notícia foi veiculada parece que agora vão começar as obras. E não é nada disso. Então é importante que fique claro que o que o consórcio vai fazer é um estudo de viabilidade econômica e uma proposta urbanística.

A partir daí, as obras serão feitas via concessão urbanística, que foi uma proposta da prefeitura aprovada na câmara municipal. Por meio deste instrumento, toda aquela área será concedida para que a iniciativa privada faça o desenvolvimento imobiliário e, inclusive, as desapropriações. Esta é uma questão bastante polêmica e controversa.

Bom, o consórcio vencedor é formado pela Fundação Getúlio Vargas, Companhia City – que fez os bairros-jardins como o Pacaembu, Alto da Lapa, Alto de Pinheiros -, a construtora Concremat, e um escritório norte-americano, já que havia uma exigência no edital de experiência em desenvolvimento urbanístico em grandes áreas.

Eu pesquisei um pouco sobre quem são esses americanos e, segundo me consta, eles fizeram bastante coisa daqueles projetos de Dubai. Tudo a ver com a Luz…

Moral da história: mesmo com mais esse passo na direção da consecução do projeto da Nova Luz, a perspectiva de execução ainda é de longuíssimo prazo. E, como eu disse, há muitos aspectos controversos na proposta de concessão urbanística para a realização da obra. No fim das contas, são 20 anos de discussão e, na falta de definição, aquele espaço começa a ficar abandonado.

50 Anos: Brasília teve um papel fundamental na reestruturação do espaço e da economia nacional


Fala-se muito sobre Brasília e sua arquitetura inovadora, modernista, mas pouco se fala sobre o seu papel na reestruturação do espaço e da economia nacional. O Brasil tem uma história de desenvolvimento econômico muito ligada ao litoral e a penetração no interior do país é, sobretudo, um fenômeno econômico extremamente recente.

Neste sentido, Brasília teve o papel estratégico de abrir uma frente de expansão na direção do Centro Oeste, trazendo um conjunto de rodovias que a conectavam com Belém, com o Sudeste e com as várias capitais do país. A partir dali houve, claramente, dos anos 70 até hoje, um processo intenso de transformação da região.

Brasília não é nem melhor nem pior que todo o resto do Brasil. A cidade que tem um plano piloto que é um patrimônio da humanidade, com uma qualidade urbanística inegável, tem também no seu entorno, fora do retângulo que é o Distrito Federal, 21 cidades que estão hoje nos estados de Goiás e também de Minas Gerais, e que estão crescendo assustadoramente, abrigando pessoas que trabalham em Brasília. Hoje são quase 800 mil pessoas morando nessas cidades.

Entre elas estão Águas Lindas, Cidade Ocidental, Luziânia, Novo Gama, Santo Antônio do Descoberto, Valparaíso de Goiás, formando um primeiro anel com 40 a 50 km de distância Brasília. Depois vêm cidades como Abadiânia, Formosa de Goiás, num raio um pouco mais distante, até cidades que chegam a quase 100 km de Brasília. O interessante é que essa distância é medida com relação à rodoviária de Brasília.

Essas cidades apresentam IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) tão baixo quanto os piores IDHs de países africanos. São cidades com altíssimas taxas de desemprego, cerca de 40%, com altas taxas de analfabetismo e também com altos índices de violência. E, por incrível que pareça, elas também fazem parte de Brasília.

Essas cidades não foram construídas de maneira planejada como foi Brasília. Digamos que houve e ainda há uma hierarquia. Primeiro, o plano piloto. Quem mora lá inclusive o chama de Ilha da Fantasia, porque é uma área onde, de fato, se vê pouquíssima ocupação informal, que tem todo um ordenamento, uma clareza na paisagem, um controle do uso e ocupação muito rígido e estruturado por um plano, tem os palácios de grande qualidade arquitetônica, enfim. Em volta do plano piloto há um cinturão de 20 a 30 km de áreas verdes, protegidas.

Depois disso, dentro do DF, vêm as cidades satélites, que foram projetadas, também como cidades modernistas, mas com uma qualidade urbanística muito inferior. Entre elas estão Ceilândia, Taguatinga, entre outras que serviram para erradicar as ocupações em Brasília. E, por fim, fora do retângulo do DF, sem nenhum planejamento, nenhum tipo de organização territorial, as cidades do entorno que hoje crescem muito mais do que o plano piloto e as cidades satélites.

50 Anos de Brasília: Museu da Casa Brasileira exibe os demais projetos que concorreram à construção da capital


O projeto de Brasília foi fruto de um concurso nacional que contou com a apresentação de mais de 30 propostas. E nós conhecemos apenas o projeto vencedor do Lúcio Costa. Mas quem tiver curiosidade de conhecer os demais projetos – saber como eram e imaginar o que seria Brasília a partir deles – a oportunidade está no Museu da Casa Brasileira, que acaba de inaugurar a exposição “Outros planos: Brasílias”, que ficará em cartaz até o final de maio. O museu fica na Av. Faria Lima, nº 2705.

Nestes 50 anos, é possível constatar permanências e mudanças dentro do projeto urbanístico que foi pensado por Lúcio Costa. Trata-se de um projeto muito forte, muito estruturador e que dialoga bastante com as obras arquitetônicas do Niemeyer.

Hoje quando se vai a Brasília, no âmbito do plano piloto, é possível constatar a presença das várias escalas que o Lúcio Costa planejou e que constituem o conceito fundamental do plano. A escala monumental, a residencial, os pontos de encontro, que são os espaços comerciais e de serviços, tudo isso está muito presente ainda na vida cidade.

Mas é claro que muita coisa também foi transformada, principalmente porque Brasília não é apenas o plano piloto. Além dele, há as cidades satélites dentro do retângulo do Distrito Federal e as várias cidades do entorno. O fato é que Brasília tem quase 2 milhões e 600 mil habitantes e apenas 400 mil pessoas moram no plano.

A verdadeira Brasília, portanto, não é apenas aquela do plano. Há pequenas coisas no plano piloto que acabaram se transformando. Houve uma certa especialização do comércio em áreas que eram para ser apenas de comércio local, dentro das asas. Há quadras que não estavam previstas e que acabaram surgindo. Enfim, há muitos elementos que mudaram.

Mas talvez a principal mudança está relacionada com uma utopia que fazia parte do projeto inicial que era a seguinte: o candango e o ministro deveriam morar juntos na superquadra. E isso claramente não aconteceu. Os ministros estão nas mansões na beira do lago e os candangos, aqueles trabalhadores que construíram Brasília, estão, em sua grande maioria, fora do plano piloto e, principalmente hoje, também fora do próprio Distrito Federal, nas cidades do entorno.

50 Anos de Brasília: as polêmicas do concurso público para montar o projeto de construção da nova capital


A ideia de construir uma capital federal no coração do Brasil já era antiga, mas foi formalmente anunciada pelo presidente Juscelino Kubitschek no famoso comício na cidade de Jataí, em Goiás, apesar de ele mesmo, anos antes, ter defendido que a nova capital seria em Minas Gerais. De qualquer maneira, antes mesmo de ter o projeto e sem passar por qualquer processo licitatório, ele constituiu a companhia Novacap, que ficaria encarregada da construção da nova capital.

Depois disso, JK convidou Oscar Niemeyer para projetar a cidade e Niemeyer respondeu que achava que deveria haver um concurso público e que ele toparia participar da comissão desse concurso e também projetar os edifícios da nova capital. E assim foi feito. Com ajuda do IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil –, foi aberto o concurso. Houve uma polêmica inicial sobre se o concurso seria internacional ou nacional, e acabou virando nacional. 62 escritórios se inscreveram, mas apenas 26 equipes entregaram a sua proposta final. Muitos dos principais arquitetos brasileiros daquela época apresentaram projetos.

Foi montada uma comissão com dois estrangeiros, o próprio Niemeyer, um representante do IAB e um da Novacap. E o curioso é que, apenas três dias depois que chegaram os envelopes com as propostas, foi anunciado o vencedor, que era o projeto urbanístico do Lúcio Costa. O Paulo Antunes Ribeiro, que estava na organização do concurso, quis se retirar. Segundo ele, não foram feitas as análises de todas as propostas como deveriam e estava-se escolhendo o Lúcio Costa apesar de ele ter entregue apenas 3 folhinhas datilografadas e alguns croquis. No fim, a “turma do deixa disso” acabou ficando mesmo com o Lúcio Costa, que foi o grande vencedor com uma proposta modernista. E o Paulo Antunes Ribeiro não assinou o resultado final do concurso. Então, como se pode ver, a história de Brasília já começou com essa polêmica na escolha do urbanista que projetaria a capital.

De qualquer forma, vale muito a pena conhecer Brasília, que é uma das cidades mais interessantes do planeta, com uma proposta modernista integralmente implantada. O Plano Piloto, inclusive, é hoje tombado como patrimônio cultural da humanidade. Ele foi construído de uma maneira muito próxima à proposta inicial do Lúcio Costa, que tinha quatro escalas principais: um eixo monumental, onde estão os palácios e ministérios; a escala gregária, que é o lugar dos espaços comerciais, ali no cruzamento dos eixos, onde ficam a rodoviária e os centros comerciais; a escala residencial, que são as superquadras, nas asas do avião; e a escala bucólica, que são as enormes áreas verdes e jardins que permitem que Brasília seja permanentemente uma cidade onde o horizonte e o céu participam da paisagem.

Entretanto, já ocorreram várias mudanças em relação à ideia inicial. A ideia do Lúcio Costa era que, na medida em que o plano piloto ficasse muito ocupado, começariam a ser construídas as cidades satélites. Só que elas começaram a ser feitas antes mesmo da inauguração da capital, com o objetivo de remover as ocupações populares dos trabalhadores que foram construir a cidade e que não tinham onde morar. Como eles não conseguiram morar nos apartamentos e casas que foram construídos para os funcionários, acabaram montando favelas dentro do Plano Piloto. Para erradicar essas favelas, foram construídas as cidades satélites, as primeiras delas a 25 km do plano. E hoje, dos mais de 2 milhões de habitantes que moram em Brasília, apenas 400 mil vivem no plano piloto. A grande maioria vive ou nas cidades satélites, ou mais distante ainda, fora do Distrito Federal, nas chamadas cidades do entorno.