O bom de São Paulo: Guia de Bens Culturais da Cidade

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Vários leitores do meu post sobre o aniversário da cidade de São Paulo reclamaram que enfatizei apenas os problemas da cidade, deixando de lado o que a metrópole tem de bom… Pois bem, ainda no embalo dos 459 anos, aproveito para falar aqui das joias da cidade: seus bens culturais.

O Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura lançou, em dezembro do ano passado, o excelente “Guia de Bens Culturais da Cidade de São Paulo”. Esse guia propõe percursos em 26 regiões da cidade para conhecer cerca de 200 bens culturais da cidade. Os bens estão divididos por área da cidade (identificadas em mapas), sendo que cada um é acompanhando por uma ficha, contendo diversas informações, como o responsável pelo projeto, os usos original e atual, sua história, entre outros.

O livro também contém uma tabela relacionando os usos e os programas dos bens culturais selecionados e um índice remissivo com os profissionais citados, dentre os quais estão engenheiros, arquitetos, urbanistas, construtores, paisagistas e artistas plásticos. Há, ainda, uma versão em inglês, no final do livro, com a tradução de todos os textos.

Aproveite a oportunidade para conhecer a cidade e descobrir algumas de suas preciosidades!

Para maiores informações, consultem o site do DPH e da Imprensa Oficial.

Igreja mais antiga de São Paulo completou 390 anos este mês

No último dia 18, a Capela de São Miguel Arcanjo, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, completou 390 anos. Trata-se da igreja mais antiga da cidade. Recentemente, a construção passou por um processo de restauração, iniciado em 2006, e ganhou um museu, que está em funcionamento desde 2010. O mais interessante, no entanto, é que neste processo foram redescobertas duas pinturas murais que estavam escondidas atrás dos altares.

Pesquisadores acreditam que estas pinturas sejam do século XVII e que estiveram cobertas pelos altares desde 1760. Agora, elas estão sendo restauradas, mas, após o restauro, que deverá ser concluído em novembro, elas deverão voltar para detrás dos altares. Depois disso, só será possível ver estas obras em reprodução fotográfica que ficará exposta no museu.

Foto: Hélvio Romero/AE

Reportagem publicada no portal do Estadão conta um pouco da história da Capela de São Miguel Paulista, construída pelos jesuítas numa aldeia indígena batizada inicialmente de Ururaí e, logo depois, de São Miguel de Ururaí.

De acordo com a reportagem, foi o padre José de Anchieta que ergueu no local uma pequena capela, de bambu e sapé. “Nascia o bairro de São Miguel Paulista. A rudimentar construção religiosa deu lugar, décadas mais tarde, a uma nova igrejinha de taipa de pilão. É esta, de 1622, que vence o tempo e resiste até hoje – tombada por Iphan, Condephaat e Conpresp, respectivamente os órgãos federal, estadual e municipal de proteção ao patrimônio.”

Para ler a matéria completa, clique aqui.

Para visitar a Capela de São Miguel Arcanjo e o Museu:
Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, s/nº, São Miguel Paulista. Visitação: de quinta a sábado, das 10h às 12h e das 13h às 16. Às quintas e sextas, é preciso agendar visita pelo telefone (11) 2032-3921 ou pelo e-mail capela.visitacao @hotmail.com. Ingressos: R$ 4. Mais informações: http://capeladesaomiguelarcanjo.blogspot.com.br

Correção: Riviera e passagem subterrânea não foram incluídos no processo de tombamento do Belas Artes

Ontem eu divulguei aqui no blog a notícia da abertura do processo de tombamento, pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), do Cine Belas Artes, do antigo bar Riviera e da passagem subterrânea da Rua da Consolação. Essa foi a informação que circulou ontem à tarde nos portais dos principais jornais de São Paulo.

Hoje, no entanto, a presidenta do Condephaat, Fernanda Bandeira de Melo, veio a público explicar que o processo de tombamento instaurado refere-se apenas ao Cine Belas Artes. O Riviera e a passagem subterrânea foram lembrados na reunião por sua importância histórica , mas não foram incluídos no processo.

Leia mais no Estadão sobre o assunto.

Condephaat abre processo de tombamento do Belas Artes

Quem achou que a novela sobre o futuro do Cine Belas Artes havia chegado a um melancólico fim na semana passada, com a decisão do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico) de não abrir o processo de tombamento do cinema, enganou-se.

O Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico), que é um órgão estadual, depois de uma longa reunião esta manhã, decidiu pela abertura do processo de tombamento não apenas do cinema, mas também do antigo bar Riviera (na esquina oposta à do Belas Artes) e da passagem subterrânea da Rua da Consolação, que liga as duas esquinas.

Leia correção publicada em 4/10/2011.

É muito interessante essa posição do Condephaat que incluiu não apenas o cinema, mas toda a configuração daquela esquina da Rua da Consolação com a Av. Paulista. Por sinal, o edifício Anchieta, onde ficava o Riviera, foi projetado pelo escritório dos irmãos Roberto, em 1941, e é um importante exemplar da arquitetura modernista em São Paulo.

É importante lembrar, no entanto, que a abertura do processo de tombamento pelo Condephaat não significa que esses lugares e seus usos serão de fato preservados. Quando este órgão abre um processo, significa que ele ainda vai estudar e analisar a possibilidade do tombamento, mas enquanto essa avaliação não é concluída e votada no Conselho, os proprietários dos imóveis não podem descaracterizá-los nem fisicamente nem quanto ao seu uso. Qualquer coisa que eles decidam fazer também depende de autorização do Condephaat neste período.

Por outro lado, é preciso dizer que a decisão do Conpresp, na semana passada, de não abrir o processo de tombamento do Belas Artes, apesar do parecer favorável do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, foi muito estranho. Especialmente porque, sem discutir o teor deste parecer, o Conpresp adotou a interpretação da Procuradoria Geral do Município (PGM) de São Paulo, que considerou inconstitucional o tombamento de um uso de um edifício cuja arquitetura não é significativa.

A posição da PGM revela um total desconhecimento das leis que regulam o patrimônio histórico em nosso país. O argumento é completamente absurdo e mostra que a PGM ignora que há muitos anos órgãos municipais, estaduais e federais têm tombado inúmeros imóveis que não apresentam nenhum interesse arquitetônico. Vejam o exemplo da Fábrica de Cimento Perus, em São Paulo, que foi tombado pelo significado histórico daquele lugar para a população da cidade ou inúmeras casas onde viveram pessoas importantes da nossa história.

No entanto, mais lamentável do que os argumentos da PGM é o Conpresp aceitá-los e adotá-los como sua posição. Como eu já disse, existem inúmeros bens tombados em função única e exclusivamente do seu uso. A abertura do processo de tombamento pelo Condephaat, independente de seu resultado, significará ao menos a possibilidade de realização de um debate mais qualificado sobre o futuro da esquina da Paulista com a Consolação e sua importância para a vida cultural e a memória da cidade.

Para comemorar a notícia, o Movimento pelo Cine Belas Artes convida para uma festa em frente ao cinema na quarta-feira (5), às 19h.

Sai da frente que lá vem escavadeira!

Tratores, gruas e escavadeiras passaram a fazer parte da paisagem de cidades e comunidades, anunciando um processo de destruição/reconstrução jamais visto neste país. Não por acaso, têm sido frequentes os protestos de pessoas que perderão suas casas e bairros ou de grupos que não se conformam em perder referências territoriais construídas ao longo da vida.

O que existe em comum entre o movimento pela permanência do Cine Belas Artes na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação e a luta dos moradores do bairro da Água Branca, em São Paulo, com a luta da Vila de Pescadores de Jaraguá, em Maceió, e dos moradores do Morro da Providência, em plena área portuária do Rio de Janeiro?

Em todos estes locais, empreendimentos públicos e privados têm ameaçado a existência de comunidades e a permanência de moradores, ou, no caso do Belas Artes, a manutenção de um uso específico de um local.

A pergunta que não quer calar e que vale para todos estes casos é: com que instrumentos nós podemos contar para definir o que merece ser preservado e o que pode ser destruído? Além do valor econômico, que outros valores constituem a cidade e o território? Quem decide quais são estes valores?

Infelizmente, hoje, o planejamento territorial e as regras de uso e ocupação do solo, que deveriam ser, em tese, o instrumento definidor destas questões, ou são “pedaços de papel pintado”, sem nenhuma incidência no processo decisório sobre os investimentos privados e públicos, ou, quando existem, são feitos sob medida para estes investimentos, abrindo basicamente frentes de expansão econômica com pouca ou nenhuma aderência ao conjunto de atores que construíram estes lugares e que deles fazem parte.

Diante deste cenário, resta o instrumento do tombamento, cada vez mais mobilizado pelas comunidades na defesa da permanência de seus valores e territórios. Vale ressaltar que o conceito de patrimônio histórico-cultural evoluiu da identificação da excepcionalidade material para uma compreensão da “referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”, como consta da Constituição de 1988.

Foi sob esta ótica que o Cine Brasília, em 2007, e o Cine Paissandu, em 2008, foram tombados pelos órgãos de patrimônio do Distrito Federal e do Rio Janeiro, respectivamente. É nesta linha que o Cine Belas Artes enfrenta uma discussão em torno de seu tombamento no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Cultural de São Paulo (Conpresp).

Mas se quisermos, de fato, enfrentar esta questão, nosso desafio vai muito além: como incorporar valores (além dos valores econômicos) no processo decisório sobre as transformações do país? Isso passa, evidentemente, por maior transparência e discussão pública, mas também pelo necessário amadurecimento da sociedade brasileira no sentido de pensar e planejar antes de fazer.

Tombamento do Cine Belas Artes: complexidade do tema desafia o Conpresp

O pedido de tombamento do Cine Belas Artes junto ao Conpresp (Conselho Municipal do Patrimônio da Cidade de São Paulo) significa para este órgão – e para a cidade que este representa – o desafio de atualizar a noção de patrimônio histórico dos paulistanos, aproximando-a  muito mais daquilo que a Constituição de 1988 definiu como valor a ser preservado:  aquilo que carrega um forte significado para os cidadãos.

Esta tarefa não é simples: implica deslocar um olhar focado em um suposto valor excepcional da arquitetura de um lugar para incluir uma pluralidade de valores – como, por exemplo, a importância para a cidade do uso simbólico de uma esquina (Av. Paulista X Rua da Consolação) como ponto de formação/fruição de milhares de cinéfilos.

O “caso Belas Artes” é talvez um dos primeiros que o Conpresp enfrenta nesta direção – tanto é inovador o pedido encaminhado ao órgão pelos defensores da permanência do cinema naquele local, quanto o desafio conceitual e teórico que o Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo ousou enfrentar, mostrando que, na prefeitura de São Paulo, existem profissionais preparados para atualizar conceitos e práticas.

A votação do processo está prevista para acontecer amanhã, terça-feira, 13 de setembro. O movimento em defesa do Cine Belas Artes protocolou um pedido de adiamento desta votação, já que, tendo o processo ficado vários meses na Procuradoria do Município, os interessados tiveram apenas uma semana para ler todo seu conteúdo e preparar sua intervenção.

Trata-se de uma reivindicação mais do que justa e correta: este processo e esta votação, como disse acima, vai muito além do tema do Belas Artes em si mesmo, representando uma oportunidade de atualização/renovação de uma questão fundamental para a cidade de São Paulo (o que é fundamental para a cidade preservar?), principalmente em tempos de enorme dinâmica imobiliária e de transformações no uso do solo da cidade.

Em tempo: na próxima quinta-feira, acontece, na Câmara Municipal de São Paulo, uma audiência pública e uma Noite em Homenagem ao Cine Belas Artes. Clique aqui para ver a programação e mais informações.

Leia mais: Nota à imprensa do Movimento pelo Cine Belas Artes

No Quarteirão da Cultura, no Itaim-Bibi, quais são os valores em jogo?

Segundo matéria publicada no Estadão, no fim de semana, o plano da prefeitura de vender para incorporação imobiliária a última área verde do Itaim-Bibi – que abriga diversos equipamentos públicos – está suspenso, ao menos por enquanto, por conta da instauração de um processo de tombamento pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo).

A prefeitura afirma que pretende viabilizar a construção de duzentas creches com os recursos da venda da área, avaliada em R$ 230 milhões. Associações de moradores do bairro e outras organizações da sociedade civil são contra o projeto, defendendo a preservação do uso atual da área.

Segundo a organização Preserva SP, o quarteirão, de 20 mil metros quadrados, concentra praticamente todos os serviços públicos da região. No local estão instalados a Biblioteca Pública Anne Frank, uma escola infantil, uma a creche, uma unidade básica de saúde, uma escola estadual, a APAE – Escola Zequinha, um centro de atenção psicossocial e um teatro (os dois últimos, recentemente reformados pela prefeitura).

Nestes equipamentos são atendidos, diariamente, centenas de crianças, pessoas com necessidades especiais, pessoas em busca de atendimento médico e psicológico, estudantes, usuários da biblioteca, entre outros. A Biblioteca Anne Frank, do anos 1940, inclusive, foi o primeiro prédio modernista em São Paulo fora do centro.

Não há dúvidas de que a cidade precisa de duzentas creches, ou mais. Mas certamente esta não é a melhor forma de viabilizá-las.

A abertura do processo de tombamento impede que qualquer transformação ocorra na área até que o Condephaat tome uma decisão. Isso não impede que a prefeitura venda o terreno, mas limita tremendamente o seu uso.

A ideia de que toda e qualquer área de grande potencial imobiliário tenha, necessariamente, que ser objeto de incorporação, não apenas contribui para a destruição da memória da cidade, mas também desconstitui qualquer valor que não seja estritamente financeiro.

As melhores cidades do mundo são aquelas que conseguem equilibrar um processo de modernização e atualização com a preservação de valores intangíveis. Não é apenas o terreno do Itaim-Bibi que neste momento está em discussão, a área do Jóquei Club também, de certa maneira, vem sendo objeto das mesmas indagações. Mas essa história fica para outro dia.

Site registra informações e imagens sobre uma São Paulo que talvez desapareça

Descobri recentemente mais um site muito interessante sobre a nossa cidade: o São Paulo Antiga. Inspirado em experiências como o Lisboa Abandonada, de Portugal, e o argentino Basta de Demoler, o site une jornalismo, história, arquitetura e fotografia com o objetivo de arquivar e divulgar mudanças nas construções e na própria história da nossa cidade.

De acordo com os idealizadores do projeto , a cidade de São Paulo vem sofrendo constantes transformações e pouca preservação. A primeira mudança drástica foi a perda do seu aspecto colonial quando, no auge do ciclo cafeeiro, a cidade foi praticamente demolida para a construção de uma outra com ares mais europeus. Esta “nova” cidade também não resistiu e praticamente muito pouco ainda resta para contar a história.

A ideia do projeto, portanto, é ajudar na preservação e conservação da nossa história. O público pode colaborar através do envio de denúncias e imagens sobre bens abandonados ou em risco. A equipe do site faz uma análise do caso e, se julgá-lo pertinente, publica notícias e imagens.

Já é possível visitar Paranapiacaba de trem, mas só em alguns domingos

Quem quiser conhecer a Vila de Paranapiacaba, a menos de 50 Km de São Paulo, conta com a possibilidade de realizar a viagem de trem, partindo da estação da Luz ou da estação prefeito Celso Daniel-Santo André.

O trajeto foi inaugurado em setembro do ano passado pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), como parte do projeto Expresso Turístico, e é uma interessante opção de passeio para as férias.

Surgida no século XIX, em torno da construção da linha férrea, a Vila de Paranapiacaba mantém até hoje características da arquitetura inglesa do período, embora a conservação desse patrimônio venha deixando muito a desejar.

De qualquer forma, a iniciativa da CPTM é importante para incentivar o turismo na região, mas seu alcance ainda é muito limitado. As partidas para Paranapiacaba acontecem apenas quinzenalmente, aos domingos de manhã.

Neste mês de janeiro, as datas programadas são o próximo domingo (9) e o dia 23. A tarifa individual de ida e volta custa R$ 28,00 e há descontos na compra de mais de uma passagem.

Outras cidades oferecem serviços turísticos de trem semelhantes, como Campinas, também em São Paulo, e Passa Quatro, em Minas Gerais. Vale a pena conhecer esses roteiros.

Acesse o site da CPTM para mais informações.

Clique aqui para ler matéria do Estadão sobre a inauguração do trajeto Luz-Paranapiacaba.

Reunião da UNESCO em Brasília: como definir os critérios do que é ou não patrimônio da humanidade?


A Unesco – organização da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura – iniciou esta semana em Brasília a 34ª reunião do comitê do patrimônio mundial. É neste espaço que são votadas a inclusão de novos sítios ou monumentos como patrimônio da humanidade, assim como, eventualmente, a exclusão dos que estão em risco.

Nesta reunião do pleno da Unesco estão representados os países que aderiram à convenção do patrimônio mundial da Unesco. No Brasil nós temos 17 sítios históricos que, além de serem protegidos como patrimônio nacional, muitas vezes estadual ou municipal também, são patrimônio da humanidade. O primeiro a adquirir este status, já vai fazer 30 anos, foi a cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais.

Agora o Brasil está apresentando a candidatura da cidade de São Cristóvão, em Sergipe. E há uma discussão em torno desta candidatura na medida em que ela é um exemplar de arquitetura e urbanismo semelhante a outros que já estão tombados no Brasil.

O Rio de Janeiro também está preparando sua candidatura, mas acabou não apresentando nesta reunião. E é uma candidatura que traz um conceito muito diferente, que não envolve apenas a questão dos monumentos de arquitetura, mas também a ideia de paisagem cultural, inclusive a geografia da cidade que é muito especial. Mas como eu falei, a candidatura foi preparada, está pronta, começa agora a ser avaliada, mas não está em pauta.

Agora, há questões mais amplas envolvidas. Se pararmos para pensar durante 5 minutos, nos perguntaremos: como definir o que é que tem valor excepcional universal e que, portanto, se diferencia de outras coisas que não têm esse valor? Me parece uma discussão complicada.

Historicamente, na Unesco, os critérios de definição do que é patrimônio da humanidade valorizaram aspectos de uma arquitetura culta, de tradição greco-romana e do mundo medieval e renascentista europeu. Mas é claro que com a entrada mais pesada de países em desenvolvimento no pleno da Unesco, começaram a se apresentar candidaturas que não necessariamente tinham esse perfil.

A partir daí, apareceram, por exemplo, elementos de paisagem, como é o caso da cidade do Rio de Janeiro, que não tem a ver só com a arquitetura, mas com uma geografia que é muito particular. E desde então existe uma tensão.

A maior parte dos sítios históricos que são tombados no mundo, mais de 800, está na Europa e na América do Norte. E se a gente for ver a lista do patrimônio que está ameaçado, dos quais estão querendo tirar o título, a maior parte está em países em desenvolvimento.

E essa vai ser uma das questões importantes desta reunião de Brasília, que tem mais de 180 países participando. Nela poderão acontecer mudanças nos critérios, e novos sítios históricos que hoje não conseguem se candidatar terão a possibilidade de fazê-lo.

A falta de informação e os entraves na reconstrução de São Luiz do Paraitinga


Recebemos um comentário aqui no blog sobre a reconstrução de São Luiz do Paraitinga, que merece atenção. Segundo o leitor Eduardo Canela, há uma falta de informação segura sobre as providências públicas que estão sendo tomadas e muitas dúvidas e perguntas no ar. Por exemplo, por que a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) desmonta um morro e aterra a várzea do Rio Turvo para fazer um conjunto habitacional? Por que foi escolhido um terreno que põe em risco iminente a paisagem histórica da cidade, parte do patrimônio? Por que nada se faz em relação à mata ciliar inexistente em toda a bacia do Paraitinga?

Eu somaria a essas observações enviadas pelo Eduardo, outras que foram feitas através da imprensa, uma espécie de balanço dos 100 dias da reconstrução da cidade, que mostra a lentidão no processo de aprovação da reconstrução dos imóveis privados, que não estão dependendo de um investimento público, mas que dependem de autorização para que as reformas nos casarões que foram devastados pelas chuvas possam ser feitas.

O grande problema desse processo, que a imprensa chama de burocracia, é que no âmbito do CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), órgão ligado à Secretaria de Cultura do Estado, não basta haver um parecer técnico, eles precisam ser aprovados pelo conselho. Isso realmente faz com que o processo seja extremamente lento. Eu me pergunto se não seria possível, diante de uma situação emergencial como essa, trabalhar com outro tipo de procedimento.

Além disso, há também uma notícia muito triste nos últimos dias. A casa de Oswaldo Cruz, que era uma das únicas casas tombadas pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e uma das poucas a resistir às chuvas, começou a cair. Por fim, mais uma questão importante: a garantia de informação aos moradores é um elemento fundamental que parece não estar sendo realizado de maneira adequada.

Santana do Parnaíba encenou sexta e sábado sua tradicional Paixão de Cristo


Na série de indicações sobre a Semana Santa, a última cidade sobre a qual falei foi Santana do Parnaíba, que sexta e sábado apresentou sua tradicional encenação da Paixão de Cristo.

Santana do Parnaíba, a 40km da capital, apresentou sexta e sábado sua tradicional encenação da Paixão de Cristo, com mais de 70 atores e 500 figurantes, numa cerimônia que dura duas horas e meia junto à barragem Edgard de Souza, no Km 40 da Estrada dos Romeiros. Santana do Parnaíba é também uma cidade patrimônio histórico do Estado de São Paulo, um dos primeiros assentamentos da nossa região que ainda tem uma arquitetura setecentista e que vale a pena conhecer.

Muitas pessoas nem sabem que existem algumas atrações como esta. Além de Santana do Parnaíba, na tradição bandeirista em São Paulo existem várias regiões como esta, a aldeia dos Carapicuíbas, Embu, entre outras. Acho que todas elas preservam no seu centro histórico um pouco dessa tradição, que está também misturada com a tradição religiosa, já que todas essas cidades se constituíram a partir de uma ocupação organizada pela religião. Então a história dessas cidades tem muito a ver com as celebrações religiosas populares aqui no nosso Estado de São Paulo.

A cidade de Pedreira encenou pela primeira vez este ano a Procissão do Fogaréu


Entre as indicações para a Semana Santa, também falei sobre a cidade de Pedreiras, que este ano encenou pela primeira vez a Procissão do Fogaréu.

A cidade de Pedreira, entre Jaguariúna e Amparo, é uma cidade que já tem uma tradição de celebração da Semana Santa, com vários eventos, principalmente as procissões e as encenações da Paixão de Cristo. Mas neste ano Pedreira teve uma coisa absolutamente excepcional, que foi a Procissão do Fogaréu.

A Procissão do Fogaréu é uma tradição da Semana Santa espanhola, que veio principalmente de Toledo e de Sevilha. São personagens encapuzados, com tochas na mão, e as luzes da cidade são totalmente apagadas. Eu já pude ver essa procissão na cidade de Goiás, o Goiás Velho, e é bastante impressionante. É uma tradição linda, que este ano começou a ser encenada também em Pedreira.

E quem vai a Pedreira pode também conhecer Amparo, que é pertinho e que também tem um patrimônio histórico preservado muito especial.

Visitar São Luiz do Paraitinga é uma forma de ajudar na reconstrução da cidade


Neste feriado da Semana Santa, recomendei a visita a São Luiz do Paraitinga como uma forma de ajudar na reconstrução da cidade e de conhecer de perto a relação de seu povo com a religião.

Há uma região do Vale do Paraíba chamada ‘Cidades mortas do Vale do Paraíba’ (Silveiras, Bananal, Areias e a nossa querida São Luiz do Paraitinga) onde acontecem grandes celebrações da Semana Santa. É uma região que tem um Patrimônio Histórico do século XIX, do período em que o café sai do Rio de Janeiro e vem em direção a São Paulo. É muito legal, vale a pena conhecer.

E São Luiz do Paraitinga, esse ano, teve uma celebração muito especial. Um dos sinos da cidade, que foi encontrado no meio dos escombros, foi montado em cima de uma plataforma e a cidade ouviu o seu som pela primeira vez depois da inundação. Além do mais, a encenação da Paixão de Cristo misturou todo o ritual sacro da história da ressurreição com mitos brasileiros da cultura popular. A cidade preparou-se para receber novamente os turistas, que participaram da celebração da Semana Santa como uma forma de ajudar também na reconstrução de São Luiz do Paraitinga.

Quem visita a cidade entende que, na verdade, a religião em muitas cidades brasileiras faz parte do tecido da cidade. Esse é o caso de São Luiz do Paraitinga. A relação da religião com a cidade é uma das marcas de seu patrimônio.