Cidades de 131 países apagarão as luzes amanhã contras as mudanças climáticas

Pontos turísticos e monumentos de pelos menos 81 cidades brasileiras ficarão às escuras amanhã, durante uma hora, como parte da campanha global Hora do Planeta, promovida pela organização ambientalista WWF (World Wildlife Fund). A ideia é chamar a atenção do mundo para a luta contra as mudanças climáticas.

Monumentos como o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, o estádio do Pacaembu, em São Paulo, e a estátua de Iracema, em Fortaleza, ficarão totalmente às escuras, das 20:30 às 21:30. A organização pretende mobilizar 3.800 cidades em 131 países.

Leia matéria da Folha Online sobre o assunto.

Tsunamis, seca e inundações: quem sofre e quem paga pelos desastres?

Um pesquisador da McGill University, do Canadá, elaborou um interessante mapa (abaixo) sobre os impactos das mudanças climáticas no globo. Como era de se esperar, Jason Samson concluiu em seu estudo que as populações mais afetadas serão as dos países menos responsáveis por causar o problema.

Trata-se de países localizados, em geral, no hemisfério sul e nas regiões mais quentes do planeta, que concentram também as nações menos ricas e desenvolvidas.

Em 2009, apresentei à Assembleia Geral da ONU um relatório sobre mudanças climáticas e direito à moradia. Entre outros aspectos, o relatório mostra que países do sul da Ásia, um dos lugares de maior densidade populacional do planeta, serão muito afetados.

A África, que sofre sobretudo os efeitos da desertificação e de inundações, também aparece com força neste mapa.

Isso me levar a pensar, por exemplo, que se um país como o Japão, que é rico, organizado, estruturado e conta,  historicamente, com um melhor preparo para enfrentar desastres, está passando por tantas dificuldades, imaginem os efeitos de um desastre em países com menos recursos e estrutura e que têm também uma grande concentração demográfica, como parte significativa das nações que serão afetadas.

Provavelmente, um desastre como o que aconteceu no Japão teria consequencias mais trágicas se tivesse ocorrido em algum desses países.

Como diminuir a emissão de carbono e o que isso tem a ver com nossa vida cotidiana?

O acordo fechado na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 16), que acabou de acontecer em Cancun, no México, é um acordo entre países com o objetivo, basicamente, de diminuir as emissões de gases de efeito estufa para evitar maiores problemas que os que já estão acontecendo em relação às mudanças climáticas no mundo e, também, teoricamente, para promover uma economia de baixo carbono, ou seja, uma economia que emite poucos gases de efeito estufa e que, portanto, poderá cumprir mais facilmente as metas de redução das emissões de que trata o acordo.

Tudo isso, obviamente, está relacionado a uma política global, principalmente com a matriz energética mais utilizada no mundo, que é o petróleo, o grande emissor de gás de efeito estufa. Mas tem a ver também com o elevado padrão de consumo das nossas sociedades.

Eu chamo atenção para esse ponto porque trata-se de uma dimensão da questão da redução da emissão de gases de efeito estufa que tem a ver diretamente com iniciativas locais, mais próximas da nossa vida cotidiana. E tem toda relação, por exemplo, com o projeto Cidades em Transição (Transition Towns), um movimento criado na Inglaterra e que já chegou ao Brasil.

Essas e várias outras iniciativas de redes e organizações internacionais e nacionais procuram introduzir uma nova cultura justamente no nível local, comunitário, com o objetivo de promover uma prática de vida cotidiana e uma economia com menos emissão de carbono.

Essa nova cultura passa pela diminuição do desperdício, pela reciclagem do lixo, e também pela drástica diminuição do padrão de consumo, por exemplo, através das trocas solidárias. Há um incentivo para que as pessoas troquem mais e comprem menos e, portanto, para que se produza menos, pois sem a redução do padrão de consumo, muito dificilmente, mesmo produzindo tecnologias mais verdes, conseguiremos reduzir a emissão de carbono.

Questões como a diminuição da erosão e do desmatamento também têm a ver com essa nova cultura, já que as florestas verticais absorvem o carbono da atmosfera. Tudo isso, portanto, tem a ver com os acordos da COP 16 e também com a soma da prática cotidiana. É importante, então, ter uma dimensão cotidiana e local no acordo de redução de emissão de carbono? É importante introduzir uma nova cultura como propõe o projeto Cidades em Transição? É muito importante. Mas isso basta? Não, não basta.

Podemos usar o exemplo da própria Vila Brasilândia onde o projeto foi lançado sábado no Brasil. A Vila Brasilândia pode ficar superlegal, supersustentável, mas todo mundo, para sair da Vila Brasilândia e ir para qualquer lugar, já que lá não existem os empregos, as oportunidades de consumo e de desenvolvimento humano que estão em outros lugares da cidade, precisará queimar muito gás de efeito estufa nos ônibus e automóveis. Isso não torna o projeto menos importante, mas mostra que ele tem limites.

Entrevista em vídeo sobre mobilidade urbana e habitação para o “Isso não é Normal”

Segue abaixo o vídeo da entrevista que dei ao recém-estreado site “Isso Não é Normal”, sobre mobilidade urbana e habitação. O site é uma parceria da Cia de Foto e Webcitizen, com apoio do governo britânico, e tem como foco temas como mudanças climáticas e qualidade de vida em São Paulo.

Saibam mais em: Isso Não É Normal.

Tragédias na Serra do Mar podem ser evitadas?

Ocupação cautelosa, sistemas de alerta e gerenciamento de emergências e planejamento urbano que inclua reserva de áreas para moradia popular em zonas fora de risco podem minimizar consequências de eventos extremos

Os desabamentos na frágil encosta da Serra do Mar fazem parte de uma história que se repete todos os meses de janeiro. É possível minimizar as tragédias, mexendo o mínimo possível nas encostas e afastando a ocupação humana do sopé e da cumeeira dos morros.

No caso de Ilha Grande, a encosta estava intacta, com cobertura vegetal original. A pousada ruiu porque estava excessivamente no sopé. Aqueles que trabalham com áreas de risco recomendam que as construções não ocupem uma faixa de dez metros no sopé e de cinco metros na cumeeira.

As regras de uso e ocupação do solo são definidas pelos planos diretores e leis locais de uso e ocupação do solo, que teoricamente deveriam incorporar determinações da legislação ambiental, como criar Áreas de Preservação Permanentes (APPs) em torno dos rios, praias e nascentes.

O Código Florestal chega a impedir que cumes e áreas com declividades acima de 40% sejam ocupadas. Mas há cidades em Minas Gerais e no Litoral que simplesmente não têm áreas com declividades menores do que esta. Isso implica aprofundar a análise dos dados geotécnicos a partir das especificidades locais, em busca de critérios que indiquem potenciais de ocupação e perigos para cada região específica.

A raiz do problema

Quando ocorrem estas tragédias, sempre se ouve a pergunta: “Por que deixaram ocupar?”. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, atribuiu a “décadas de populismo”. Esta afirmação, infelizmente, não toca na raiz do problema, que é: “Por que tantas pessoas no Sudeste moram em áreas de risco”?

No caso do litoral, quem conhece a situação da orla assistiu ao filme: as áreas planas, fora do mangue e da restinga e longe da encosta, foram reservadas para o mercado imobiliário de média e alta renda, e os mais pobres “sobraram”. Quem está no morro hoje na Rio-Santos ou é o caiçara que vendeu sua posse para os loteamentos e condomínios ou são os pedreiros, caseiros, jardineiros e etc. que movem este litoral e simplesmente não têm onde morar.

Infelizmente, senhor governador Sérgio Cabral, já que não é possível fazer desaparecer a população do mapa, ou o planejamento urbano incorpora no centro de sua agenda a disponibilização de terra para a produção de moradia para a maioria da população, ou veremos a repetição das tragédias.

Finalmente, algumas situações como a inundação de São Luiz do Paraitinga nada têm a ver com a ocupação de encostas e áreas de risco. O que pode ser feito, nesses casos, é melhorar muito nossa capacidade de gerenciar riscos e implementar sistemas de alerta para que, mesmo diante de eventos extremos – como inundações, escorregamentos, tufões e etc. – os sistemas de alarme e retirada urgente possam ser acionados e evitem mortes, que é o principal!

Mudanças climáticas e os desafios do Brasil vira série especial da TV inglesa Channel 4

O jornalista Jon Snow, da rede britânica Channel 4, está produzindo no Brasil um especial sobre mudanças climáticas que vai durar toda a semana. Participei nesta segunda, 30, de um programa em São Paulo, transmitido ao vivo da laje de uma casa no Jardim Colombo, uma favela no Morumbi.

Falei como relatora da ONU, preocupada com o efeito dos tratados sobre mudanças climáticas no direito à moradia, comentando particularmente esse desafio no Brasil urbano.

O especial começa aos 7m30s do vídeo. Assista aqui.