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Arquivo da categoria ‘Yahoo Colunistas’

Faltando pouco mais de um ano para a realização da Copa do Mundo no Brasil, o Comitê Popular da Copa do Rio de Janeiro divulgou hoje mais um dossiê com um balanço dos preparativos para os jogos, avaliando os impactos sociais na vida da população e denunciando violações de direitos. Desde 2010, quando foram criados, os comitês populares vêm acompanhando os preparativos em todo o país e realizando manifestações nas cidades-sede dos jogos para reivindicar que o processo de preparação da copa não se constitua em um verdadeiro “estado de exceção” em que vale tudo! De lá para cá, vemos que essas mobilizações resultaram, em vários casos, em mudanças de procedimentos.

No Rio de Janeiro, que certamente é a cidade onde este processo ocorre há mais tempo e de maneira mais intensa, em 2011 a prefeitura publicou um decreto estabelecendo novas diretrizes para remoções de moradores, reassentamentos e indenizações. Nesse decreto houve um reajuste das indenizações, cujo valor máximo passou de R$ 40 mil para R$ 77 mil. Uma conquista, sem dúvida. Mas muito tímida diante da situação que a cidade vive hoje. Um trabalho de final de curso do estudante Lucas Faulhaber, da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF, ao mapear para onde foram os reassentados removidos das comunidades da zona sul, revela a perversidade desta situação.

LUCAS_FAULHABER

Trabalho de Lucas Faulhaber / UFF

Um exemplo de resistência é a Vila Autódromo, que desde a preparação dos jogos Pan-Americanos de 2007 resiste à remoção. Agora, cerca de 500 famílias, que moram no local há mais de 40 anos, estão ameaçadas de remoção, embora não estejam em área que vá receber qualquer empreendimento olímpico ou de mobilidade ligado à realização dos jogos. Em agosto do ano passado, os moradores entregaram à prefeitura uma proposta de urbanização que demonstra não haver incompatibilidade entre o projeto olímpico, a existência da comunidade e a preservação ambiental da Barra da Tijuca, onde está localizada, mas até hoje o diálogo não avançou. Conhecido como plano popular da Vila Autódromo, o projeto foi desenvolvido numa parceria entre a Associação de Moradores da comunidade e professores e alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Um caso semelhante está acontecendo em São Paulo. A comunidade da Vila da Paz, em Itaquera, na zona leste, apresentou em março para a prefeitura o Plano Popular Alternativo para a Vila da Paz. A comunidade está ameaçada de remoção por conta de intervenções urbanísticas como o Parque Linear do Rio Verde e de obras viárias no entorno do estádio do Itaquerão. Desenvolvido pelo Coletivo Comunidades Unidas de Itaquera, Instituto Polis e Peabiru-TCA, o plano alternativo propõe mudanças nas intervenções a fim de garantir a permanência dos moradores em condições adequadas. No momento, prefeitura e comunidade vêm se reunindo para tratar do assunto. Esperamos ver avanços.

Em Fortaleza, por sua vez, o número de remoções previstas já foi reduzido de 2.500 para 1.700. Na comunidade Aldaci Barbosa, próxima à rodoviária interestadual, depois de muitas mobilizações, o governo concordou em mudar o local onde seria construída a estação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que antes afetaria a comunidade, evitando um grande número de remoções. Também na comunidade Lauro Vieira Chaves, que fica perto do aeroporto Pinto Martins, muitas remoções foram evitadas. Os moradores apresentaram um plano alternativo para a passagem do VLT e, depois de muitas reuniões com os órgãos responsáveis, conseguiram modificar o projeto, reduzindo as remoções de 300 para 22. Entretanto, novas remoções em outras áreas estão sendo anunciadas, embora esta informação não esteja disponível em Fortaleza, nem em outras cidades-sede.

Quando uma das questões mais graves da preparação das cidades para os megaeventos é justamente a falta de informação e transparência, é importante também destacar a iniciativa do governo do Ceará de publicar uma cartilha sobre o projeto de implementação do VLT, esclarecendo a população sobre o processo de desapropriação. Por outro lado, faltou garantir espaços de participação na concepção do projeto e também na discussão e aprovação da Lei que estabeleceu as regras para a remoção e indenização das pessoas afetadas.

Também em Natal, 400 imóveis seriam removidos por conta de obras viárias relacionadas à preparação para a Copa do Mundo. Em fevereiro a prefeitura decidiu mudar o projeto e evitar parte das desapropriações. Outra cidade onde podemos perceber que houve avanços é Curitiba. Em dezembro de 2011, por exemplo, depois de várias mobilizações, foram suspensas as obras da trincheira, uma passagem subterrânea na comunidade São Cristóvão, em São José dos Pinhais (região metropolitana), cujo trajeto acarretaria a remoção de diversas famílias. Além disso, no final de 2012, foi retirado da matriz de responsabilidades da Copa o projeto do Corredor Metropolitano, obra viária que passaria por oito municípios, afetando mais de mil famílias em seu trajeto original, segundo cálculos da UFPR.

Enfim, precisamos reconhecer e comemorar estes avanços, que demonstram que a organização e mobilização são relevantes para fazer ouvir os que raramente têm acesso aos processos decisórios sobre os grandes projetos das cidades. Mas muitas violações ainda estão em curso – não apenas relacionadas à moradia – e por isso o acompanhamento permanente, a indignação e publicização das violações é fundamental.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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Recentemente a imprensa paulistana divulgou que a quadra da escola de samba Vai-Vai, no bairro do Bixiga, região central de São Paulo, poderá ser desapropriada por conta das obras da linha 6-laranja do metrô. Embora não queira deixar o local, a direção da escola vê aí a possibilidade de mudar para um espaço mais amplo, possivelmente na região da Luz. A escola imagina que, se a prefeitura ou o governo do Estado doarem para a escola um dos terrenos vazios e ruínas do projeto Nova Luz, com os recursos da desapropriação, a agremiação poderia construir uma sede maior e melhor. Tudo certo? Não! Uma possível saída da escola de samba do bairro do Bixiga é mais complexa do que isso. O bairro é um histórico território negro da cidade de São Paulo e a quadra da Vai-Vai insere-se nesse contexto, significando a importante – e invisível! – presença da cultura afro-brasileira na cidade.

Para se ter uma ideia, em 1854, dos 30 mil habitantes de São Paulo, cerca de 8 mil eram escravos, quase 1/3 de sua população. Em 1872, a população negra da cidade subiu para 12 mil pessoas (ainda 1/3 da população total), das quais 3.800 ainda eram escravas. Naquele momento, além de possibilitar o acesso à liberdade pelas vias institucionais, a cidade oferecia também uma chance maior de anonimato para os escravos fugidos das fazendas. Embora a maior parte da historiografia refira-se apenas aos quilombos situados em zonas rurais, havia também quilombos urbanos. Eram cômodos e casas coletivas no centro das cidades ou núcleos semi-rurais. E o bairro do Bixiga, originário do quilombo do Saracura, é um bom exemplo desse tipo de configuração.

Com as crescentes restrições ao tráfico e a chegada de mão de obra de imigrantes europeus, a população negra da cidade sofreu um forte decréscimo. Se em 1872 os 12 mil negros da cidade representavam 1/3 da população, em 1893 eles eram menos de 11 mil, para uma população de quase 65 mil habitantes, ou seja, menos de 20%. Por essa época, a população negra da cidade concentrava-se nos cortiços e porões do velho centro, ao mesmo tempo em que novos núcleos iam surgindo literalmente aos pés das novas zonas ricas da cidade (Campos Elíseos, Higienópolis, Av. Paulista etc). Isso, evidentemente, está ligado ao fato de que uma das poucas fontes de emprego para os negros da cidade era, naquele período, o serviço doméstico, uma vez que o imigrante realmente havia ocupado o mercado de trabalho das ocupações mecânicas antes realizadas por libertos.

Aliás, em 1893 os imigrantes já constituíam 80% do pessoal ocupado nas atividades manufatureiras e artesanais. Assim, os novos bairros proletários que surgiram na cidade nesse período eram, em sua maioria, habitados por imigrantes estrangeiros. Uma das exceções foi o Bixiga, que abrigava núcleos negros desde a existência do quilombo do Saracura.

No início do século XX, a população negra que ocupava o centro velho de São Paulo acabou por ser desalojada por grandes operações de renovação urbana que se iniciaram durante a administração de Antônio Prado (1899-1911). A operação limpeza foi implacável: para a construção da Praça da Sé e remodelação do Largo Municipal, os cortiços, hotéis e pensões das imediações foram demolidos. Está ligado a esse processo de “limpeza” do centro a expansão e consolidação do Bixiga como território negro em São Paulo, com um grande aumento de moradores.

Nos anos 1920, não apenas no Bixiga, mas também na Barra Funda, Liberdade e certos pontos da Sé, territórios negros importantes se configuraram na cidade, não apenas com moradias, mas também com suas escolas de samba, terreiros, times de futebol e salões de baile. Organizaram-se ainda sociedades negras, com atividades culturais e recreativas que envolviam a publicação de jornais e a produção literária, musical e teatral. Os chamados “salões de raça” eram a opção de lazer da “elite negra” (funcionários públicos, comerciários, contadores e técnicos).

A quadra da Vai-Vai é a presença desta territorialidade negra na cidade. As escolas de samba, mais do que produtoras de desfiles de carnaval, são verdadeiros nós de uma rede de indivíduos, famílias e instituições ligadas à tradição religiosa, cultural e social afro-brasileira.

A construção da linha 6-laranja do metrô ainda vai demorar um pouco para acontecer. O edital para licitação da empresa que irá construí-la ainda nem foi publicado. Antes que isso aconteça, porém, é importante lembrar que o Bixiga e a quadra da Vai-Vai não são um lugar qualquer, não são um “lugar nenhum”. Fazem parte da tradição afro-brasileira de uma São Paulo que, historicamente, pouco fez para que essa história fosse respeitada e preservada e pudesse, assim, afirmar seu lugar no ethos da cidade.

Este post é baseado em artigo meu originalmente publicado em 1989 com o título “Territórios Negros nas Cidades Brasileiras (etnicidade e cidade em São Paulo e Rio de Janeiro)”.Clique aqui para acessar o artigo.

* Originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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Nos últimos dois meses os pontos de ônibus da cidade de São Paulo vêm sendo substituídos por novos modelos. São quatro tipos diferentes de abrigos que estão sendo instalados de acordo com o perfil da via e da região. Apesar de ser uma boa notícia, usuários têm se queixado da falta de informações sobre as linhas e itinerários, dos tamanhos reduzidos da cobertura em locais de grande aglomeração e também dos tetos de vidro, que para muita gente parece deixar o abrigo mais quente e abafado.

À imprensa, o consórcio Otima (formado por Odebrecht Transport, Rádio e TV Bandeirantes de Minas Gerais, APMR Investimentos e Participações e Kalítera Engenharia), vencedor da licitação junto à prefeitura , garante que todos os pontos receberão indicações sobre as linhas. Em vários pontos, inclusive, a empresa colou avisos informando que os abrigos estão “em implementação”. A população, por sua vez, tem usado a criatividade para driblar o problema. Um adesivo com os dizeres “Que ônibus passa aqui?” e um espaço para anotação das linhas pode ser visto em alguns pontos da cidade. A iniciativa foi criada por um pessoal de Porto Alegre e logo se espalhou. O arquivo está disponível pra download gratuito na internet.

Os novos abrigos são, na verdade, um grande negócio, já que têm espaço para anúncios publicitários que serão explorados pelo consórcio durante 25 anos. Estes serão os primeiros anúncios ao ar livre desde a aprovação da Lei Cidade Limpa, em 2007. Junto com os relógios digitais, estes serão os únicos anúncios permitidos na cidade.

Mas a discussão sobre este tema na Câmara Municipal e na imprensa girou em torno principalmente dos valores envolvidos, das condições da licitação e de outras questões diretamente ligadas ao negócio da publicidade no espaço público. Nos acalorados debates que aconteceram entre 2009 e 2011, com idas e vindas do texto que regula a questão, o tema do mobiliário em si ficou ausente… Onde estão, por exemplo, os banheiros públicos bons e limpos; os bancos confortáveis em nossos parques e praças; as lixeiras bem cuidadas e em quantidade suficiente; a iluminação voltada não para o leito carroçável, como ocorre hoje em grande parte da cidade, mas para as calçadas, que pedem postes mais baixos…?

O modelo de concessão do mobiliário para exploração de propaganda por empresas privadas talvez possa servir (a ver…) para enfrentar alguns temas, mas não necessariamente dá conta de todas as necessidades da cidade. Existe um debate, por tanto, que precisa ser feito. E as demandas da cidade para que ela se torne um lugar confortável – onde seja possível permanecer e não apenas passar – precisam ser atendidas independentemente de sua viabilidade comercial.

* Originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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Em várias cidades brasileiras e do mundo, são muitos os grupos de pessoas que se organizam para andar de bike, promover discussões sobre a bicicleta como meio de transporte e sobre novas formas de percorrer as cidades e se deslocar. Menos conhecidos, mas também se multiplicando, são os grupos que se organizam para andar a pé… isso mesmo! No ano passado, por exemplo, visitei o “Tenement Museum” no Lower East Side, tradicional porta de entrada de imigrantes em Nova York, e tive a grata surpresa de, ao invés de percorrer salas fechadas com exibição de fotos e documentos, participar de uma caminhada pelas ruas do bairro, guiada por um monitor que ia, ponto a ponto, esquina a esquina, contando a história da cidade e da imigração.

Na semana passada, recebi de um leitor informações sobre a “Jane’s Walk”, uma iniciativa surgida em 2007, em Toronto, no Canadá, em homenagem à urbanista e ativista Jane Jacobs (1916-2006), cujo livro – “Vida e morte das grandes cidades” – tornou-se, há décadas, uma verdadeira ode à vida nas ruas par vida nas ruas e sua importância para as cidades. Anualmente, no mês de maio, para coincidir com o nascimento da urbanista, são realizadas caminhadas em grupo para explorar e conhecer diversos bairros. Para se ter uma ideia, da criação do grupo, em 2007, até maio de 2011, a iniciativa se expandiu, alcançando 75 cidades em 15 países do mundo. Além do evento anual em maio, as caminhadas podem acontecer em qualquer época do ano, desde que grupos locais se organizem.

Coincidentemente, na mesma semana, uma leitora entrou em contato para divulgar uma iniciativa semelhante em São Paulo. Trata-se do grupo SampaPé, que organiza caminhadas temáticas em diversos bairros, a fim de estimular o conhecimento dos caminhos a pé que a cidade oferece. A última caminhada aconteceu no dia 16 de março, no bairro da Penha. No site do grupo, além da agenda de caminhadas, é possível denunciar problemas nas ruas e calçadas, acessar materiais – como um mapa das feiras de rua e das obras de arte espalhadas pela cidade – e aplicativos.

Outra iniciativa que conheci recentemente é o “Rios e Ruas”, que realiza expedições a pé ou de bike para descobrir córregos e rios ocultos na cidade. O próximo passeio será no dia 30 de março, com concentração às 14h, na praça do Ciclista (Paulista x Consolação), com destino à Vila Pompeia, a fim de explorar o curso do córrego Água Preta.

Assim como no caso dos grupos de bikers, os grupos urbanos de caminhada apontam para outro tipo de relação com a cidade: ao invés de um cenário de passagem entre um ponto e outro de um deslocamento, o espaço da cidade passa a ser um espaço vivido. É evidente que a cidade, tal qual se organiza hoje, é absolutamente hostil a essa prática, uma vez que claramente a prioridade no espaço público é a circulação e, particularmente, a circulação de automóveis. Entretanto, quem busca conhecer a cidade a pé tem a oportunidade de se reconectar com a cidade, sendo capaz de fazer a crítica desse modelo e exigir outro, no qual estar será tão importante – ou mais – do que passar!

Texto publicado originalmente em Yahoo! Blogs.

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Ninguém mais precisa escrever dissertação de mestrado ou tese de doutorado para mostrar o sentido profundo do projeto Rio de Janeiro Cidade Olímpica – a megaoperação de valorização imobiliária em curso na cidade do Rio de Janeiro. A própria prefeitura do Rio resolveu explicitar isso claramente ao lançar o Banco Imobiliário Cidade Olímpica, produzido pela Estrela. Além de licenciar a marca Cidade Olímpica, a prefeitura desembolsou 1 milhão de reais por 20 mil unidades do jogo, que está sendo distribuído na rede municipal de ensino. A partir de maio, a Estrela vai comercializar o produto nas lojas.

Nesta nova edição do jogo – que existe há décadas – em vez de comprar imóveis em importantes ruas e avenidas da cidade, o jogador investe em pontos turísticos tradicionais – como os Arcos da Lapa, Copacabana e o Corcovado, mas também nas novas “marcas” da Rio Cidade Olímpica : o Porto Maravilha, a Clínica da Família, o Bairro Carioca, os BRTS (vias expressas de ônibus) , o Museu de Arte do Rio, o Museu da Imagem e do Som etc. Nas cartas de sorte ou revés, que definem ganhos ou perdas no patrimônio dos jogadores, há pérolas como “Seu imóvel foi valorizado com a pacificação da comunidade vizinha. Receba R$ 75 mil.”

banco imobiliario cidade olimpica

Muita gente e várias instituições já denunciaram o mau uso de dinheiro público, a possível ilegalidade envolvida no uso de recursos da prefeitura para propaganda das gestões Eduardo Paes/Sérgio Cabral, e também questionaram os efeitos pedagógicos de um brinquedo deste tipo em crianças e adolescentes. Apesar de eu concordar com tudo isso – o Ministério Público já declarou que vai apurar algumas destas questões – acho um perigo que a crítica seja centrada nestes pontos, reforçando a ideia de que o grande problema é a prefeitura ter gasto 1 milhão de reais para comprar o jogo e encobrindo o verdadeiro escândalo – onde são gastos – e privatizados! – muito mais recursos públicos, que é a própria natureza do que está em jogo com a operação Cidade Olímpica.

Explicando: a questão fundamental é como o jogo explicita, banaliza e até mesmo transforma em algo positivo a vinculação das ações da prefeitura com os processos de valorização imobiliária e de mercantilização da cidade. As perguntas que não querem calar são: qual a natureza das intervenções em curso? Em que medida elas vão diminuir as desigualdades e promover a inclusão socioterritorial no Rio de Janeiro? Quem ganha e quem perde com essas transformações? No jogo, Estrela e Prefeitura candidamente respondem com clareza a questão. Os efeitos são positivos quando provocam valorização: no mundo da financeirização da produção da cidade, este é o valor que importa.

Em tempo: em meio às inúmeras reações ao lançamento do jogo, encontrei algumas bem humoradas que merecem ser compartilhadas. Uma delas é uma página no Facebook que satiriza o jogo. Outra é o vídeo do Rafucko, radialista e videomaker carioca. Confira abaixo.

Leia também a nota do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro.

*Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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Sábado passado, em cerca de 50 cidades da Espanha, milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra os despejos resultantes de execuções de hipotecas, em função de não pagamento aos bancos de prestações relativas à compra da casa própria. De 2007 até o primeiro semestre de 2012, ocorreram na Espanha cerca de 400 mil execuções hipotecárias, que é quando os bancos despejam as famílias para ficar com os apartamentos.

Por conta da crise econômica e da perda de poder aquisitivo da população, mais de 600 mil famílias perderam sua moradia – isso inclui tanto os que compraram suas casas próprias e, a partir de um determinado momento, não conseguiram mais pagar, como os que alugavam casas ou apartamentos de proprietários que perderam suas casas pelas mesmas razões. Liderado pela Plataforma de Afetados pela Hipoteca (PAH), um projeto de lei de iniciativa popular, que já recebeu quase 1,5 milhão de assinaturas, pretende mudar as atuais regras sobre hipotecas, a fim de evitar violações do direito à moradia adequada.

Para mais informações sobre o projeto de lei de iniciativa popular, acesse:http://www.quenotehipotequenlavida.org/

É importante ressaltar que esse movimento vai além da questão da crise social e de emprego da Espanha, questionando um modelo que durante anos desmontou todas as opções de acesso à moradia que não a casa própria adquirida através de financiamento bancário. Sendo assim, as pessoas foram atraídas por propostas de contratos extremamente atraentes, por exemplo, com zero de prestação inicial e aumento progressivo dos valores ao longo do tempo. E como na Espanha isso correspondeu a um período de boom dos preços imobiliários, as expectativas eram de valorização permanente dos imóveis. Do ponto de vista do direito à moradia, é possível dizer que esse processo de concessão dos créditos imobiliários foi altamente discriminatório, especialmente para os mais pobres, incluindo particularmente o grande número de migrantes latino-americanos que vivem na Espanha. Recentemente, como relatora da ONU para o direito à moradia adequada, recebi uma correspondência dos defensores públicos do Equador, Peru e Guatemala, preocupados com a situação de seus compatriotas nas cidades espanholas.

O fato é que, com a crise, os empregos sumiram (enquanto as prestações subiram), e a inadimplência aumentou, levando assim às execuções de hipotecas por parte dos bancos. Aliás, na Espanha, como os preços dos imóveis despencaram com a crise, as pessoas perdem suas casas, mas continuam com uma dívida, correspondente à diferença entre o preço atual do imóvel e o valor que este tinha quando o contrato de financiamento com o banco foi assinado. Ou seja, as pessoas ficam na rua, sem casa, e, ainda por cima, com uma dívida enorme para pagar. Uma das propostas do projeto de lei de iniciativa popular é a “dação em pagamento”, ou seja, a pessoa entrega o bem à instituição financeira que detém a hipoteca e se livra da dívida. Dessa forma, o risco do prejuízo não é apenas do comprador…

Outro ponto central do projeto de lei é a suspensão imediata dos despejos sempre que o não pagamento da hipoteca se dê por motivos alheios à vontade do morador (ou seja, em função de desemprego, doença, morte ou outra situação inesperada). Nestes casos, o projeto prevê que o morador poderá continuar residindo na habitação por um período de cinco anos, pagando um aluguel não superior a 30% dos seus rendimentos mensais. O projeto de iniciativa popular está agora sendo debatido pelo parlamento espanhol.

Aqui no Brasil devemos estar atentos à situação da Espanha. Embora as condições sejam muito diferentes (por exemplo, aqui temos mais regulação e controle bancário), há vários elementos comuns entre os dois modelos. A euforia do aumento do crédito, o boom nos preços de terrenos e imóveis, o modelo único de programa habitacional da “casa própria financiada pelos bancos” são elementos presentes não apenas no Brasil e na Espanha, mas em muitos outros países que, depois doboom, estão vivendo as agruras do bust, o estouro da bolha.

Em tempo: se você quiser saber mais sobre esse assunto, leia o relatório que preparei e apresentei à ONU no ano passado sobre a financeirização da produção de moradia no mundo (infelizmente ainda não disponível em português): clique aqui.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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Para quem resolveu passar o carnaval longe da agitação da folia, nada melhor do que aproveitar o feriado para ler um bom livro de ficção. Romances falam de amor, paixão, ódio, mistérios, mas também falam de cidades… Para quem se interessar, preparei uma seleção de livros nos quais as cidades, mais do que cenários da trama, são seus personagens. Confiram abaixo!

A Trilogia de Nova York, de Paul Auster
Nos romances de Paul Auster, Nova York é o grande protagonista. Embora a cidade seja personagem em vários de seus livros, o grande clássico desse autor é a Trilogia de Nova York, composta pelos livros “Cidade de Vidro”, “Fantasmas” e “O Quarto Fechado”. No Brasil, os três livros saíram em um único volume, editado pela Companhia das Letras. São romances policiais que buscam associar a investigação de algum mistério a questionamentos sobre identidade e arte, dois âmbitos bastante associados ao ethos da cidade. Ah, para quem é fã de história em quadrinhos, o primeiro livro, “Cidade de Vidro”, está disponível em versão “graphic novel”, da editora Via Lettera, com ilustrações de David Mazzuchelli e Paul Karasik.

Bombaim: Cidade Máxima, de Suketu Mehta
Suketu Mehta é um escritor indiano que, após morar vinte anos em Nova York, resolveu visitar Bombaim (Mumbai), a cidade onde passou sua infância. O autor mergulha no cotidiano de uma das maiores e mais populosas cidades do mundo, mostrando seus conflitos e contradições, seus lados fulgurantes e ocultos. O livro acompanha não apenas o lado Bollywood e da alta sociedade indiana, mas fala também de prostituição, das gangues hindus e muçulmanas rivais, da situação da mulher na sociedade indiana, de suas favelas… Uma cidade intensa e caótica como São Paulo, que tem tudo e, ao mesmo tempo, nada a ver com esta. A edição brasileira é da Companhia das Letras.

A Cidade Ilhada, de Milton Hatoum 
Este é o primeiro livro de contos de Milton Hatoum, que fala sobre desejos e fracassos, literatura e viagem – e, claro, memória, tema-chave de seus livros. Embora a errância esteja presente nos contos, e os personagens circulem por diversos lugares, Manaus é o ponto recorrente: é seu traçado que encontramos em todos os contos, é ela que persegue os personagens e é a ela que eles sempre parecem retornar, mesmo em pensamento, mesmo na memória.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs, com adaptações.

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No fim de semana passado, dezenas de blocos de carnaval tomaram conta das ruas de São Paulo como há muito tempo não se via. Mas quem já brincou carnaval em cidades como Recife, Olinda, Salvador e Rio de Janeiro sabe que a festa demanda uma grande infraestrutura: banheiros químicos, limpeza, segurança, gestão do trânsito, do transporte público, atendimento médico, entre muitos outros pontos.

Mas quem paga essa conta? Nas cidades que mencionei, além de investir recursos públicos, as administrações municipais costumam vender cotas de patrocínio para empresas. Em Salvador, por exemplo, de acordo com informações do jornal A Tarde, a prefeitura espera arrecadar cerca de R$ 18 milhões em cotas de patrocínio. No Recife, em 2012, a festa custou R$ 32 milhões, sendo que a maior parte foi bancada pela prefeitura da cidade. Este ano, a expectativa é arrecadar R$ 7 milhões com patrocinadores.

Mas nem sempre foi assim no Recife. Anos atrás, os patrocinadores financiavam diretamente os blocos. Quem recebia os recursos, por exemplo, era o Galo da Madrugada e outras agremiações mais organizadas. Foi necessária uma negociação complexa e conflituosa com os “grandes blocos” para promover um acordo centralizado com os patrocinadores, que hoje financiam infraestrutura para toda a programação da cidade e não apenas para algumas agremiações.

Aliás, vale ressaltar que os carnavais de Recife e Olinda são dos mais democráticos do Brasil, já que ninguém paga nada para participar (nada de abadá comprado e cordão de isolamento, como acontece em Salvador). É assim também no carnaval de rua do Rio de Janeiro, que vem crescendo ano a ano. A empresa contratada pela prefeitura para organizar a festa pretende este ano arrecadar R$ 12 milhões em patrocínios.

Se São Paulo de fato quiser ter um bom carnaval de rua, terá que enfrentar essas questões. Hoje alguns blocos têm patrocínio próprio, outros não têm nenhum recurso, mas o fato é que todos precisam de infraestrutura que garanta a realização da festa sem grandes transtornos pra cidade e seus moradores. A prefeitura já anunciou que em 2014 fará mais investimentos no carnaval. É o que a cidade espera. Afinal, muita gente quer brincar carnaval, mas ninguém quer ruas entupidas de lixo e com fedor de xixi…

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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O aniversário da cidade é sempre uma oportunidade para balanços: como a cidade é vista e vivida por seus moradores? Temos algo a comemorar? Como se trata de São Paulo, a maior e mais contraditória cidade brasileira, o discurso da pujança, do poder, da diversidade, da energia e da intensa dinâmica (e outros consagrados superlativos) esbarra numa espécie de mal-estar generalizado em relação a sua condição urbanística. Usufruir da cidade é uma espécie de corrida de obstáculos cotidiana na qual é necessário abstrair a poluição, o trânsito, o congestionamento, os buracos, os atropelamentos, a enchente, a feiura e o descaso que atingem – evidentemente com intensidades muito diferentes – o conjunto das pessoas que vivem e circulam na cidade.

A (i)mobilidade parece ser o sinal mais evidente da crise e, de fato, não se trata apenas de uma “percepção”, mas da realidade de um sistema de transporte e circulação totalmente incompatível com os fluxos da cidade. Na verdade, a situação atual da mobilidade nada mais é do que a crise de uma política urbana constituída exatamente para enfrentar a primeira grande crise urbana que São Paulo viveu, na década de 30.

Até os anos 1920, o transporte era coletivo e sobre trilhos – bondes e trens. Em 1933, a cidade tinha uma rede de bondes com 258 km de extensão, três vezes maior do que a extensão atual do metrô, em uma cidade com, então, 888 mil habitantes. Nesse mesmo período, a cidade vivia sua primeira grande crise de moradia, durante a qual o modelo de vilas e cortiços de aluguel foi gradativamente substituído pelo loteamento de bairros distantes. Desde a década de 1920, foi implantado na cidade um projeto de remodelação viária voltado para dar suporte a e aumentar a velocidade de circulação de carros e caminhões, implementado por sucessivas administrações municipais e estaduais.

Na década de 1930, diante da ameaça de perda do monopólio e dos problemas de lucratividade com o sistema de bondes, a Light propôs um novo acordo ao governo municipal, apresentando, dentre outras medidas, um plano de construção de uma rede de trânsito rápido com calhas para as linhas de bonde (algumas subterrâneas). Ao mesmo tempo, o então engenheiro municipal Prestes Maia propunha o Plano de Avenidas, composto por um sistema de vias formando uma grelha “radioperimetral”, que acabou por estruturar o crescimento da cidade ao longo das décadas seguintes.

A concepção urbanística proposta por Prestes Maia se opunha a qualquer obstáculo físico para o crescimento, viabilizando um modelo de expansão horizontal ilimitado, que se combinou perversamente com a autoconstrução na periferia como “solução” para o problema da moradia em um contexto de grande migração para a cidade. Ao contrário dos bondes e trens, o transporte via ônibus era flexível, pois seu raio de influência não era limitado pela distância entre as estações. Assim, foi constituído um modelo urbanístico que conduziu o desenvolvimento da cidade. Este breve post não nos permite demonstrar outros elementos deste modelo (como verticalização e zoneamento) e sua relação com a própria lógica política de administração da cidade. Mas não há a menor dúvida de que hoje esse modelo encontrou seu limite.

O que temos para celebrar neste aniversário é, por incrível que pareça, a crise! Só um mal estar como o que atualmente vivemos nesta cidade, aliado à imensa capacidade econômica, técnica e cultural presentes em São Paulo, é capaz de abrir espaços para a ruptura e superação de seu modo de fazer cidade.

 

Texto publicado originalmente no Yahoo! Blogs.

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Sábado passado passei a manhã no pronto socorro da Santa Casa, em São Paulo, e algo me chamou a atenção. No curto período que estive lá, três jovens deram entrada no hospital por conta de acidente de moto. Fiquei pensando que, durante a semana, a situação deve ser ainda pior. Recentemente, no entanto, tivemos uma boa notícia sobre esse assunto. Pela primeira vez desde 2008, o número de mortes de motociclistas no trânsito de São Paulo diminuiu, passando de 395 mortes entre janeiro e setembro de 2011 para 331 no mesmo período deste ano, uma queda de 16,2%. Apesar disso, ainda morre um motoqueiro por dia no trânsito de São Paulo!

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) a diminuição no número de mortes foi resultado da política de redução da velocidade máxima permitida nas vias da cidade. Grandes avenidas como a 23 de Maio e até mesmo as marginais dos rios Pinheiros e Tietê passaram a ter velocidade máxima de 60 km/h. Outro motivo seria o aumento da fiscalização, que procura coibir a imprudência dos motociclistas. Uma das medidas adotadas para isso foi a adoção de radares exclusivos para flagrar motos em alta velocidade. Na tentativa de investir na capacitação e conscientização dos pilotos de motos, a prefeitura de São Paulo inaugurou esta semana a “escolinha de motociclistas”, oficialmente chamada Centro Educacional Paulistano (Cepam), na Vila Carrão. A ideia é que a escola atenda 20 mil pessoas por ano, em cursos de pilotagem segura, de motofrete, entre outros.

A notícia da redução do número de mortes é boa – mas a questão da inserção das motos no trânsito das cidades está longe de ser resolvida com estas medidas. A frota de motos vem crescendo no país inteiro, tendo quadruplicado nos últimos dez anos, passando de 4 para 16 milhões. Hoje, em quase metade das cidades brasileiras, as motocicletas representam a maior parte dos veículos. Com a facilidade de crédito, em várias cidades, como São Paulo, é mais barato comprar e manter uma moto do que pagar a tarifa do transporte público. Segundo dados da CET, de 2005 até setembro de 2012, a frota de motocicletas da cidade passou de 494.928 unidades para 957.034, um aumento de 48,28%. E a frota de carros também cresce em ritmo exponencial.

A competição entre motos, carros, ciclistas e pedestres nas vias da cidade se dá num verdadeiro cenário de guerra onde, certamente, pedestres, motoqueiros e ciclistas são as maiores vítimas – porque estão mais expostos e vulneráveis. Mas, como em qualquer guerra, essa situação atinge a todos.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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O que leva os moradores de nossas cidades a cometerem atos de vandalismo e depredação de patrimônio público? De escolas a orelhões, passando por pontos de ônibus, transporte público em geral, cabos de iluminação, lixeiras e até monumentos e esculturas, a destruição é sistemática e recorrente. Anos atrás, a revista Problemas Brasileiros, do Sesc SP, publicou uma matéria que traz alguns dados impressionantes sobre essa questão. Embora não sejam informações atualizadas, elas dão ideia da dimensão do problema.

De acordo com a matéria, 25% dos “orelhões” da empresa Telefônica são destruídos todos os meses no Estado de São Paulo. A manutenção mensal consome R$ 1,2 milhão na recuperação dos aparelhos. No Rio de Janeiro, a prefeitura gasta R$ 200 mil todos os anos para repor partes de monumentos ou repor placas. Para se ter uma ideia, de 2002 a 2009 os óculos da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, que fica em Copacabana, foram furtados sete vezes.

Em Curitiba, nos primeiros seis meses de 2009, 11.285 ônibus tiveram suas janelas riscadas, gerando um custo de reposição de R$ 2,6 milhões. No mesmo período, as estações tubo tiveram um prejuízo de cerca de R$ 115 mil por conta da depredação. Em todo o ano de 2008 o sistema gastou R$ 350 mil para repor vidros, catracas, elevadores, corrimões e portas. Na cidade de São Paulo todos os meses 20% dos pontos e abrigos de ônibus são danificados. O custo mensal da manutenção desses equipamentos, em 2009, foi de R$ 600 mil de acordo com a SPTrans.

O vandalismo também atinge o sistema de iluminação pública. De acordo com a reportagem, todos os meses 150 quilômetros de cabos usados na iluminação da capital paulista são furtados e 300 lâmpadas são substituídas diariamente. Nem os bueiros estão a salvo: 500 peças são roubadas mensalmente. Além disso, todos os meses desaparecem 400 placas de trânsito da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Por que isso acontece? A explicação mais recorrente que encontrei explorando o tema atribui o vandalismo à falta de educação das pessoas, de cidadania etc. Embora seja verdadeira, essa explicação não é suficiente. Me parece que há uma relação estreita entre a qualidade urbanística de nossas cidades e a ocorrência de atos de vandalismo. O fato é que a qualidade geral das nossas cidades é péssima — elas são mal cuidadas, mal mantidas, em grande parte autoproduzidas e depois consolidadas de qualquer maneira, sem cuidado: essa situação provavelmente confere um não valor às cidades.

Outra dimensão que deve ser considerada é a qualidade e constância da manutenção dos espaços e equipamentos públicos. Um lugar como o parque Villa Lobos, em São Paulo, por exemplo, está sempre impecável. O metrô também está sempre limpo e bem mantido. Significa que não existe vandalismo e depredação nestes locais? Certamente, não. Mas a ação da administração desses espaços é rápida e permanente, o que provavelmente contribui para que haja menos depredação. Falta de educação e cidadania? Sim. Mas a cidade nos educa (ou deseduca também).

Texto publicado originalmente no Yahoo!Blogs.

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No contexto das comemorações do Dia da Consciência Negra, o governo federal anunciou que 75% dos novos integrantes da classe média brasileira são negros. De acordo com estudo elaborado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República, nos últimos dez anos, 35 milhões de brasileiros ascenderam à classe média — que já soma mais de 100 milhões de pessoas no Brasil, representando 53% da população do país. Os negros teriam passado a representar 51% deste grupo, que tem renda per capita entre R$ 291,00 e R$ 1.019,00. Em 2001, este percentual era de 31%.

Ao divulgar esses dados, o governo obviamente tem o interesse de demonstrar avanços na inclusão econômica, inclusive do ponto de vista racial. De fato, os números mostram isso. Mas é fundamental, também, o muito que ainda há a ser feito para combater as desigualdades entre negros e brancos. Estudos divulgados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), também nesta semana, mostram que, “apesar da redução das desigualdades ao longo das últimas décadas, ainda persistem diferenças significativas nas condições de trabalho vivenciadas por negros e não negros.”

A pesquisa do Dieese sobre “A inserção dos negros nos mercados de trabalho metropolitanos” revela, por exemplo, que os negros são a maioria dos trabalhadores em ocupações que exigem menos qualificação, em que as relações de trabalho são mais precárias e os rendimentos são mais baixos, como é o caso da construção civil e dos serviços domésticos. Com relação aos rendimentos, a pesquisa mostra que, entre 2001 e 2011, a remuneração dos negros cresceu em todas as regiões, mas, ainda assim, é bastante inferior à da população não negra. Para se ter uma ideia, na Região Metropolitana de São Paulo, em 2011, os negros trabalharam a mesma jornada que os não negros (em média 42 horas semanais), mas o seu rendimento correspondeu a apenas 61,7% do recebido pelos não negros. Para as mulheres negras, estes resultados são ainda piores.

É importante também problematizar a definição de classe média utilizada pela SAE. Existe uma grande diferença entre uma família que ganha R$ 291,00 per capita e a que ganha R$ 1.019,00. Seria interessante investigar, do ponto de vista racial, quem são essas famílias que têm renda per capita de R$ 291,00. Também é importante levar em conta definição de “negro” utilizada por ambas as pesquisas. Tanto para a SAE como para o Dieese, os negros são a soma da população que se declara “preta” com a que se declara “parda” no censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Essa questão, inclusive, gerou um longo debate em outro texto que escrevi sobre este assunto. O Antonio Holanda, por exemplo, questiona: “Se somar os brancos e pardos também daria maioria, certo? Classificar pessoas pela cor é inútil. O racismo também começa aí. Todas as raças são mistura.” O Felipe vai na mesma linha. Para ele, os números não passam de truque para inchar as estatísticas: “os mestiços são considerados no momento de contar, pois são 50% e os negros só 9%”, diz. A Paula também acha que pardo não é negro. Para ela, “pardo é misto, é híbrido, é mestiço”. E o Ewerton provoca: “É a resposta mais superficial, é um ‘jeitinho’: no lugar de tentarmos fazer pretos, brancos e pardos conviverem, vamos espalhar que todo mundo é marrom. Genial!”.

O Flavio, por sua vez, responde, explicando de onde vem o conceito de “pardo”. Segundo o leitor, o termo “passou a ser utilizado no censo de 1872 com o único intuito de apurar quantos negros eram livres e quantos eram ainda cativos. Os negros ainda cativos eram classificados como pretos (miscigenados ou não), e os negros nascidos livres ou forros eram classificados como pardos (miscigenados ou não). Somente em 1950, quando teve início a auto-declaração, o termo ‘pardo’ passou a constar definitivamente das opções censitárias; mas sempre destinado a afrodescendentes. Desta forma, pretos são os negros com os caracteres africanos típicos (miscigenados ou não), e pardos são os negros cuja miscigenação é mais facilmente perceptível em sua aparência. Logo, pardos sempre foram e continuam sendo membros da população negra.”

E a Carmen explica: “O critério correto utilizado pelo IBGE para se referir à autoclassificação de cor/raça contempla 5 tipos: branca, preta, parda, amarela e indígena. [...] Mudar o critério significa impossibilitar a comparação. [...] O movimento negro luta para que a sociedade reconheça que mais da metade da população brasileira é negra. De acordo com a militância, os NEGROS são os PRETOS + PARDOS.”

De fato, o tema da desigualdade racial ainda divide opiniões no Brasil. Exibindo uma face miscigenada e afro-brasileira for export e com uma sociedade que internamente despreza e desqualifica o negro, é longo o caminho que o país tem que percorrer para ser, de fato, uma “democracia racial”.

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Desde o mês passado, temos visto no noticiário a polêmica sobre a venda de acarajé no entorno do estádio da Fonte Nova, em Salvador, durante os jogos da Copa do Mundo de 2014. De acordo com a Lei Geral da Copa e com o protocolo assinado entre a FIFA e o governo brasileiro, os patrocinadores do Mundial têm exclusividade de comercialização de seus produtos num raio de dois quilômetros dos estádios e também nos chamados “locais oficiais de competição”, que incluem ainda centros de treinamento, centros de mídia e de credenciamento, estacionamentos, áreas para transmissão de partidas e destinadas a atividades de lazer dos torcedores, localizados ou não nas cidades-sede. Ou seja, não é apenas em volta dos estádios das cidades-sede que o monopólio dos patrocinadores pode se impor.

A Associação de Baianas do Acarajé, que conta com três mil filiadas, não gostou nada dessa história e tem se mobilizado e reivindicado o direito de vender a iguaria nos estádios e seus arredores. A FIFA chegou a divulgar uma nota assegurando que o acarajé seria vendido, mas pela empresa que vencesse a licitação… Já imaginou o Mc Acarajé? O Ministério Público da Bahia, por sua vez, fez uma recomendação a autoridades brasileiras federais e estaduais afirmando a importância da comercialização tradicional do acarajé, ou seja, através das baianas, nos seus tabuleiros. Alegando a possibilidade de um “desrespeito à comercialização de um bem imaterial tombado pelo Iphan desde 2004″, o promotor Ulisses Campos disse à imprensa que caso a recomendação não seja acatada, o MP da Bahia poderá acionar a Justiça.

O que a FIFA desconhece é que o acarajé não é apenas um bolinho frito de feijão fradinho, tem muitos outros significados que passam pelo modo de prepará-lo e também de comercializá-lo. Exatamente por isso, é considerado um patrimônio imaterial nacional. Em nota à imprensa divulgada no início deste mês, a FIFA diz que “discute com o Comitê Organizador Local para garantir que os interesses das vendedoras informais, que geralmente vendem o produto dentro do estádio e em seu entorno, sejam incorporados no planejamento do evento (Copa de 2014)”.

O fato é que as determinações contidas na Lei Geral da Copa e no protocolo assinado entre a FIFA e o governo brasileiro têm consequências que extrapolam o âmbito dos estádios e seus entornos. Com relação ao ponto específico da exclusividade de comercialização, isso significa que, na prática, o comércio, sobretudo o ambulante, que faz parte da cultura urbana brasileira e, inclusive, da cultura do nosso futebol, será banido. E isso inclui não apenas a venda do acarajé na Bahia, mas também da tapioca, do churrasquinho, do cachorro-quente, entre muitos outros produtos que compõem a paisagem das nossas ruas e os hábitos de torcedores e cidadãos.

Ou seja, não é porque o acarajé é patrimônio imaterial que se deve abrir uma exceção, e sim porque a determinação contida na Lei Geral da Copa é absurda. A tapioca e o seu modo de fazer, bem como muitas outras iguarias que fazem parte da cultura alimentar do Brasil, apesar de não terem sido formalmente reconhecidos por algum órgão de patrimônio, fazem parte, sim, da cultura do nosso país e são fonte de sobrevivência de milhares de pessoas que vivem da venda destes produtos. Obviamente, a atitude da Associação das Baianas do Acarajé e do MP da Bahia está sendo importantíssima para levantar esta discussão. Já não era sem tempo. Esperamos que os MPs e associações de vendedores ambulantes do país inteiro também se mobilizem e multipliquem essa ação.

Texto publicado originalmente no Yahoo!Blogs.

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Recentemente tenho observado que vem se desenvolvendo em São Paulo uma nova cultura do uso dos espaços públicos da cidade. Depois de um intenso período de valorização do uso dos espaços fechados, que começou com a construção de shoppings nos anos 1970 e viveu sua explosão nos anos 1980 e 1990, parece haver agora alguns sinais de um movimento no sentido oposto, de retomada de uso mais permanente das ruas, praças e calçadas da cidade.

Os parques estão sempre lotados. Basta que a área tenha um mínimo de qualidade e cuidado que se enche de gente. Nos finais de semana, não apenas nos parques, mas também nas praças, sempre tem gente fazendo piqueniques. Até festa de aniversário de criança eu vi em algumas praças da cidade. Isso me chamou a atenção porque significa uma diferença radical com relação aos tradicionais buffets infantis. Uma festa infantil na praça tem outra lógica: se outras crianças estão presentes, imediatamente elas fazem parte da festa. Afinal de contas, uma festa num espaço público é necessariamente uma festa aberta.

Na Vila Madalena, na Praça das Corujas, um grupo está implantando uma horta colaborativa. E, ao que parece, este não é o único… de acordo com seus promotores, várias outras iniciativas deste tipo estão acontecendo neste e em outros bairros da cidade. Na Avenida Paulista e na Rua Augusta são muitos os trechos ocupados por gente tocando música, artistas de rua, jovens… Também percebo que existe uma movimentação no sentido de promoção de atividades e eventos nas ruas, como a festa junina colaborativa no Minhocão, os saraus em ocupações no centro ou em frente a prédios públicos, as atividades promovidas pelo pessoal do movimento Baixo Centro.

Aliás, é disso que se trata o evento que ocupou  – com milhares de pessoas – a Praça Roosevelt domingo passado, transformada em Praça Rosa. Batizado de Festival “Existe Amor em SP“, o evento reuniu moradores de São Paulo que reivindicam, essencialmente, mais espaços e serviços públicos, de qualidade e bem cuidados, e mais liberdade e criatividade em suas formas de ocupacao.

Foto: Fora do Eixo

 

Todos estes exemplos que eu dei sinalizam para uma possível mudança de cultura – ou pelo menos para o desejo de mudança – que valoriza a ideia do convívio, do compartilhamento do espaço público, do uso destes lugares para algo mais do que a circulação. O problema é a  necessária e urgente transformação na cultura da gestão da cidade, para que também transite nesta direção. Isso requer não apenas a priorização do cuidado com a qualidade de implantação e manutenção destes espaços, mas, sobretudo, a transformação de seu uso coletivo como prioridade, na contramão de uma visão securitária e funcionalista de cidade.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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O voto paulistano tem uma geografia que parece se repetir eleição após eleição. Os mapas da geografia do voto mostram um desenho que se repete há décadas: direita e centro (azul) no miolo mais rico da cidade, e a esquerda (vermelho) nas periferias, como vemos no mapa abaixo do 1o turno das eleições municipais deste ano.

O azul mais intenso corresponde ao lugar que historicamente concentra renda, poder e qualidades urbanísticas em São Paulo, como já demonstrou o prof. Flavio Villaça, da FAU USP, em inúmeros artigos e livros. Mais de 40% dos habitantes desta região pertencem ao grupo que possui renda familiar de mais de 20 salários mínimos (veja mapa abaixo).

O vetor sudoeste é, historicamente, hegemonizado pelo PSDB, marcado por um profundo sentimento anti-PT e por uma atitude conservadora em relação à cidade. Para os moradores desta região, a ideia de redistribuição de oportunidades ou de inversão de prioridades que marcou o discurso do PT em seus primórdios não tem nenhum apelo.

A leitura do mapa do 1º turno destas eleições, em tese, diria que nos bairros mais ricos predominou o voto no Serra e, nos mais pobres, no Haddad. Não haveria, portanto, nenhuma novidade no cenário. Será? Uma observação mais atenta aponta sutilezas que matizam esta leitura binária. Em primeiro lugar, no chamado centro expandido, embora predomine o voto no PSDB, Haddad foi o 2º colocado, com votação mais expressiva, em alguns distritos, do que Marta Suplicy alcançou no pleito de 2008, quando o PT perdeu para a coligação DEM/PSDB (veja mapa abaixo).

Em segundo lugar, historicamente, na cidade de São Paulo, três — e não duas — forças político-partidárias marcam a geografia eleitoral: o PT, o PSDB e o malufismo, herdeiro do janismo. O voto no Russomano, entretanto, não é herdeiro do malufismo como afirmam alguns. Além disso, redutos históricos do malufismo como o Tatuapé ou a Vila Maria se dividiram quase igualmente entre os três primeiros candidatos (clique aqui para ver o mapa detalhado) e Russomano não ganhou em nenhum distrito da capital. Na chamada extrema periferia, Haddad dividiu a hegemonia dos votos com Russomano, e não com Serra. E, obviamente, não podemos configurar o candidato do PRB como “de esquerda”… Então como podemos interpretar este cenário?

Se permanece verdadeira a polarização azul x vermelho, o sutil crescimento de Haddad no centro expandido poderia apontar para uma espécie de descontentamento com o modelo de cidade, inclusive na área historicamente mais privilegiada por este modelo? Não seriam os inúmeros movimentos — de cicloativistas, de preservação de bairros, de ocupação de espaços públicos, além de outros tantos que surgem no interior desta região, sinais deste desejo de mudança? Por outro lado, no que já foi uma “periferia consolidada” de outros tempos, onde a renda cresceu e as demandas de urbanidade se sofisticaram, os apelos do malufismo parecem perder eco. Finalmente, se realmente existem mudanças no cenário, estas estariam ocorrendo no campo da política ou indicariam possíveis reconfigurações da cidade?

Texto publicado originalmente no Yahoo!Blogs.

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