Brasil, vitrine ou vidraça?

Esta semana conversei com a jornalista Helena Celestino sobre os impactos da Copa e das Olimpíadas no Brasil e os protestos que tomam conta de nossas cidades às vésperas do mundial de futebol. Este é também o tema de artigo que escrevi para o livro “Brasil em jogo”, que a editora Boitempo lança na próxima semana. Abaixo reproduzo a coluna de Helena, publicada hoje em O Globo.

Brasil, vitrine ou vidraça?
Helena Celestino – O Globo

Eles foram os últimos a perceber a tal “janela de oportunidades”, queridíssima de consultores e marqueteiros. Sabemos todos que há muito Copa e Olimpíadas deixaram de ser só eventos esportivos para se transformarem em espaço de promoção de negócios e venda de produtos. Mais recentemente viraram também vitrines para cidades travestidas em grifes atrativas para investimentos e desenvolvimento de grandes projetos imobiliários. Só que inteligência não é exclusividade da turma do business, e os movimentos sociais resolveram se aproveitar também dessa grande sacada de marketing: já que a Copa é uma vitrine global, admirada simultaneamente por bilhões de pessoas e assunto da mídia nacional e internacional — antes, durante e depois dos jogos —, militantes das mais variadas causas resolveram também criar um conteúdo para esta megaexposição. “De vitrine para vender cidades, a Copa também se transformou em plataforma para reverberar lutas políticas e sociais. É isto que estamos vendo agora no Brasil: cada vez mais lutas vão se colando na Copa em busca de visibilidade internacional”, diz Raquel Rolnik.

A urbanista e arquiteta, autora desta tese exposta em “Brasil em jogo” — livro de artigos a ser lançado sexta-feira pela editora Boitempo — era também até segunda-feira relatora especial do Conselho de Direitos Humanos da ONU para assuntos de habitação e fez um enorme barulho em Londres ao apresentar o seu diagnóstico nada favorável às condições de moradia no Reino Unido. No Rio, como relatora, ela recebeu muitas queixas de moradores sentindo-se prejudicados com as transformações urbanas e ignorados na hora da escolha das prioridades — por exemplo, entre teleférico ou saneamento no Alemão, optariam por mais esgoto. Testemunhou processo semelhante na África do Sul às vésperas da Copa, em Pequim na pré-Olimpíada e em Nova Délhi na preparação da Índia para sediar os Jogos da Comunidade Britânica em 2010.

Em nome do legado urbano, cometeram-se ilegalidades e protestos explodiram — menos na China porque a mordaça política impede manifestações. No Brasil foi mais forte, porque coincidiu com a retomada da luta dos anos 70/80 pelo direito à moradia, à mobilidade urbana e à cidade, assim como cresceram as reivindicações sindicais, todas em estado de hibernação durante a retomada econômica da era Lula. É uma outra geração que está nas ruas, da qual fazem parte os jovens da periferia, já com maior poder de consumo mas ainda vivendo numa cidade excludente, com transporte ineficiente, equipamentos públicos de má qualidade. “Acho o foco nos gastos irrelevante, vejo as manifestações usando a Copa para dizer o que pensamos sobre o país”, diz Rolnik.

É difícil comparar perdas e ganhos do Brasil com Copa/Olimpíadas e o legado deixado na Alemanha e África do Sul ou em Barcelona e Londres. A relação Copa-negócio estava presente em todos os lugares — diz a urbanista —, mas a intervenção nas cidades foi mais bem resolvida em países europeus, onde o direito à cidade já estava assegurado. Na África do Sul houve algumas boas intervenções em transporte público conectando cidades isoladas e a criação de pequenos ginásios esportivos em lugares muito precários. “No Brasil, teve muito pouca mudança, mais discurso do que legado; algumas melhorias aconteceram mas mais ligadas ao processo econômico do que a Copa e Olimpíadas”. O exemplo irônico dado por Rolnik para falar das intervenções urbanas de agora é o de um elefante com um espanador no rabo fazendo limpeza: “Claro que fica menos sujo, mas para que o elefante?”

Nem sempre o marketing ganha da vida real. No front internacional, a falta de sintonia da presidente Dilma com a política externa levou ao corte de 10% do orçamento de todas as embaixadas. Ou seja, em pleno ano da Copa, os serviços consulares reduziram horários para economizar, e as embaixadas não tinham dinheiro nem para reproduzir o material turístico da Embratur na rede. Enquanto isso, a imagem do Brasil foi pautada pela exposição cotidiana de nossas mazelas nos jornais do mundo. Ontem, por exemplo, a denúncia era a violência policial contra as prostitutas em Niterói, onde cem delas teriam sido presas e muitas estupradas pelos policiais. Deu na “Atlantic”, uma revista de esquerda americana; sábado passado o “New York Times” noticiou o crescimento das mortes de PMs atacados por bandidos e, há dez dias, publicou uma reportagem de capa sobre a tenebrosa poluição da Baía de Guanabara — com fotos republicadas nas primeiras páginas de todos os tabloides da cidade.

É tudo verdade. Só que durante as Olimpíadas de 2012, uma multidão de “comunicadores” estava a postos para passar pautas sobre as graças e os prazeres da vida em Londres. Muito poucos foram procurar os bairros pobres para contar os conflitos com imigrantes, mas relembraram as origens de James Bond na velha Londres e descobriram a nova gastronomia inglesa. Já aqui a gente faz discurso contra jornalista…

Quando até a classe média é expulsa de seus bairros…

Como já venho falando, as grandes cidades brasileiras vivem hoje uma forte crise habitacional gerada pela alta valorização imobiliária e o consequente aumento no preço dos imóveis e dos aluguéis. Se a demanda por habitação já era grande, esta crise só agravou o problema.

Na ausência de políticas habitacionais que apresentem alternativas de enfrentamento a essa questão, de um lado, cresce o número de ocupações e mobilizações promovidas por organizações de sem teto, reinvindicando o direito à moradia adequada. De outro, parte da classe média já está sendo forçada a se mudar para bairros mais periféricos.

Sobre este assunto, ontem o Estadão divulgou notícia comentando uma pesquisa desenvolvida pelo Creci-SP (Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo). Esta pesquisa revela que dobrou o número de pessoas que está devolvendo imóveis ao final de seus contratos de aluguel porque não consegue pagar os valores que estão sendo cobrados na renovação.

Confira abaixo a matéria do Estadão.

*Leia também aqui no blog: Emergência habitacional.

Dobra devolução de imóvel por aluguel alto
Reajuste ‘expulsa’ moradores para regiões periféricas, mostra pesquisa do Creci-SP

MÔNICA REOLOM – O Estado de S.Paulo
A zootecnista Andréa Souza de Paula, de 26 anos, teve de procurar outro lugar para morar em São Paulo depois que o proprietário do apartamento quis subir o valor do aluguel em R$ 800. O preço passaria de R$ 1,6 mil para R$ 2,4 mil, um aumento de 50%.

“Eu dividia uma casa na Vila Mariana com uma amiga e o valor pedido na hora de renovar o contrato era muito alto. Não deu para continuar”, conta Andréa. Pelo valor original, ela e a amiga só conseguiram um apartamento menor em outra região da cidade, na Lapa.

Uma pesquisa divulgada neste mês pelo Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo (Creci-SP) mostra que, em um ano, dobrou a proporção de pessoas que devolveram as chaves de apartamentos por não conseguir arcar com o aluguel. O índice de entrega por problemas financeiros passou de 15% do total das devoluções, em fevereiro de 2013, para 30%, no mesmo mês deste ano. A pesquisa foi feita com 402 imobiliárias.

“A maioria das pessoas não consegue suportar o novo aluguel”, afirma o presidente do Creci-SP, José Augusto Viana Neto. “O contrato geralmente é de 30 meses. Depois desse período, sempre há uma atualização. Mas é livre a negociação e, como há escassez de imóveis para alugar, o proprietário pede o que quer. O locatário acaba entregando o imóvel e indo para outro lugar”, explica.

Segundo Viana Neto, há um movimento claro das famílias de classe média para as zonas periféricas da cidade. “As pesquisas mostram que, por causa da valorização dos imóveis, as pessoas estão saindo das áreas centrais e seguindo para a periferia”, diz.

O presidente do Creci-SP afirma que a alta abusiva dos valores pode ser explicada pela falta de oferta de imóveis para locação na cidade. “Imóvel para vender tem, e a oferta é boa, mas para alugar falta, e muito. Não há interesse dos investidores em comprar imóvel para esse fim, porque a tributação é muita alta e as ações de despejo, muito demoradas. As pessoas acabam indo para outros investimentos.”

Sem opção. Nascida em Tupã, no interior do Estado, Camila Yano, de 25 anos, também passou por situação semelhante à de Andréa. Em janeiro, a assessora de marketing quis renovar o contrato com a proprietária do apartamento em que morava com mais quatro pessoas no bairro de Santa Cecília, região central. A proposta era de aumentar o valor em R$ 1,5 mil, alcançando R$ 3,5 mil por mês.

“A proprietária não deu justificativa para o aumento abusivo. Acho que ela quis equiparar com os preços da região”, diz. Sem chegar a um acordo, os moradores não toparam a proposta e seguiram em busca de novos lares, o que não foi fácil.

“Eu não queria sair desta região porque consigo chegar ao trabalho rápido. Mas olhei tudo, fiquei dois meses procurando. A média de preços era de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil para um apartamento de dois quartos”, diz. No fim das contas, Camila encontrou um imóvel por R$ 1,9 mil, que considerou justo.

“A proprietária deste apartamento perto do metrô havia comprado para investimento e não estava conseguindo alugar por causa da região, que é um pouco perigosa e muito movimentada no fim de semana. Foi o mais barato que achei e, mesmo assim, acho caro. Como precisava alugar, acabei usando a máxima do ‘é o que tem para hoje’.” Camila, que hoje divide a residência com um amigo, diz que compromete quase 50% da renda com o aluguel.

Hubert Gebara, vice-presidente de Administração Imobiliária e Condomínios do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP), atribui o aumento de devolução ao desaquecimento da economia. “A inadimplência está alta porque houve muito estímulo ao consumo nos últimos anos. As pessoas assumiram dívida e está complicado pagar. Há uma pressão em cima dos inquilinos para honrar os compromissos.”

 

Estadão provoca polêmica ao defender os “com carro”

Na semana passada, o Estadão publicou um editorial intitulado “A demagogia da mobilidade”. Em linhas gerais, o texto critica a instalação de corredores de ônibus e acusa o executivo municipal de “má vontade com o transporte individual”. Diz o editorial: “Não se discute a necessidade de dar prioridade ao transporte público e, no caso dos ônibus, de aumentar sua velocidade. Mas não é preciso fazer isso criando dificuldades para os que usam o carro como instrumento de trabalho. Especialmente para aqueles – como médicos e enfermeiros, para citar dois exemplos – cuja profissão tem exigências que o transporte público não consegue atender.”

No mesmo dia, o projeto “Cidades para pessoas” publicou uma Resposta aberta ao editorial do Estado de S. Paulo”. O texto lembra que a maior parte das viagens feitas na cidade de São Paulo não são por meio do carro: “Quando medimos as viagens diárias feitas na cidade, percebemos que os carros são minoria: 38,42% dos deslocamentos são coletivos (transportes públicos), 30,78% individuais (carros e motos) e 30,80% não motorizados (a pé e de bicicleta). Esses dados da pesquisa Origem e Destino foram a base do estudo do engenheiro de transportes Horácio Figueira que concluiu que 20% dos paulistanos se locomove de carro, mas ocupam 80% das vias da cidade.” E critica, portanto, o que o Estadão chama de “má vontade com o transporte individual”: “Na verdade é exatamente o oposto: a priorização do carro como transporte de massa é que passou as últimas décadas prejudicando a cidade. E é isso que pode ser revertido nesse processo de reequilíbrio de suas vias.”

No fim de semana, o engenheiro e sociólogo Eduardo Vasconcellos publicou, no site da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), um artigo intitulado “O Estadão e a demagogia dos corredores”. Diz o texto: “Por mais voltas que dê no seu raciocínio, o que está por trás do editorial é o descontentamento pela redução do espaço viário hoje ocupado pelos automóveis. Embora o editorial reconheça a necessidade de melhorar o transporte público o que se percebe nele é uma visão claramente elitista e irritada, ecoando os protestos que alguns usuários de automóvel vêm manifestando por meio da mídia.”.

Mobilidade em SP: o impacto das novas faixas de ônibus

Na semana passada, uma reportagem do Estadão resolveu testar, de ônibus e de carro, o trajeto de 23 quilômetros entre o terminal Capelinha, no extremo sul de São Paulo, e a Praça da Sé, no centro. O percurso inclui trechos dos novos 60 quilômetros de faixas exclusivas de ônibus recém-instaladas, como na Avenida 23 de Maio. De acordo com o jornal, a viagem de ônibus levou 1h50min, meia hora a menos que a de carro.

Um balanço divulgado pela CET na semana passada afirma que a velocidade dos ônibus no corredor norte-sul praticamente dobrou. Na última quarta-feira, entre 12h e 15h, ou seja, fora do horário de pico, a CET registrou velocidade média de 31,38 km/h nos ônibus, no sentido centro, de acordo com a Folha Online. Antes da faixa, a velocidade era de 15,85 km/h. A Folha diz ainda que, segundo a prefeitura, na semana passada, a velocidade média dos ônibus ficou 60% maior na hora do rush no sentido centro. No sentido bairro, a melhora foi de 18%. A melhora no transporte coletivo, demanda fundamental da cidade de São Paulo, já mostra que é possível avançar significativamente na qualidade deste transporte, com intervenções que nem são as mais radicais, mas que também precisam incluir a melhoria do conforto e outros elementos.

Ainda bem que, a despeito das reclamações de alguns motoristas de carro particular, a prefeitura tem reafirmado o compromisso de licitar, ainda este ano, 127 km de corredores de ônibus. Se é óbvio que a implementação de faixas e corredores exclusivos aumenta a velocidade dos ônibus, beneficiando muita gente, por outro lado, intervenções feitas no sistema viário para melhorar o fluxo de automóveis particulares não têm resultados.

Na semana passada, o Estadão mostrou também como o alargamento das pistas da marginal do Tietê e a restrição de caminhões melhoraram a velocidade dos carros por um curto período e logo deixaram de surtir efeito. “Em vias de trânsito rápido, como a Marginal, a velocidade média no pico da tarde subiu de 14 km/h, em 2009, para 20 km/h, em 2010, e para 26 km/h, em 2011. A evolução parou por aí.” De acordo com a reportagem, um estudo divulgado pela prefeitura mostrou que a velocidade média no período das 7h às 10h caiu 13% em 2012, em comparação com 2011, passando de 48 km/h para 42 km/h; e no período das 17h às 20h, a redução foi de 14%, passando de 26 km/h para 22 km/h. A lentidão aumentou em todos os horários, tanto em vias rápidas quanto em vias arteriais.

Moral da história: não adianta ponte, viaduto e túnel para fazer passar mais carros. A mobilidade na metrópole paulistana depende fundamentalmente da melhoria do transporte público coletivo.

Leia também: Leitores comentam sobre as novas faixas exclusivas de ônibus

Rio de Janeiro: cidade à venda?

Depois de anunciar o projeto “Estação Patrocinada”, o Metrô Rio, concessionária que administra o metrô do Rio de Janeiro, teve que voltar atrás em seus planos de “vender” o nome das estações de metrô da cidade, que passaria a ser associado ao nome de empresas privadas. No dia 16 de maio, o governador Sérgio Cabral vetou a proposta, que, de acordo com a imprensa, havia sido idealizada pela empresa IMX, de Eike Batista. O site do Metrô Rio já tirou do ar todas as informações relativas ao projeto.

Em nota, a assessoria de imprensa da concessionária afirmou que “o projeto Estação Patrocinada não muda em absoluto o nome das estações, e sim permite a adoção comercial de cada uma. Destacamos que a receita acessória é revertida para o conforto dos usuários e ambientação das estações, conforme previsto no contrato de concessão.” A assessoria diz ainda que “os patrocinadores se comprometerão a oferecer serviços adicionais para os usuários nessas estações. [...] Desta forma, poderão surgir nas estações espaços de convivência, internet Wi-fi, ações culturais e exposições.” Parece que o que foi enterrado, portanto, foi apenas a possibilidade de associação do nome das empresas às estações.

Essa possibilidade de fato surpreendeu muita gente. Pelo visto, nem o governador aguentou. Vale a pena lembrar, porém, que desde o final de 2011, a SuperVia, concessionária privada que administra os trens suburbanos e o teleférico do Alemão, já deu início a uma iniciativa semelhante. Das seis estações do sistema, duas já tiveram seus nomes “vendidos”: Alemão-Kibon e Bonsucesso-Tim. Mas o fato é que estamos falando de coisa pública. Por serem administrados por concessionárias, o metrô, os trens e os teleféricos não são menos públicos. As concessionárias não são “donas” nem das estações, nem dos trens…

Catapultado pelo boom internacional de sua imagem, o Rio de Janeiro está passando por um intenso processo de transformações. Se por um lado o Brasil inteiro se alegra em ver a dinâmica positiva por que passa a cidade, com criação de empregos, geração de oportunidades e melhoria da autoestima dos cariocas, por outro, chega a ser assustador o sentido comercial e a selvageria privatizante dessas mudanças. Qual o limite da comercialização da cidade e de seus atributos? Até onde a publicidade pode tomar conta da cidade e se sobrepor aos agentes e processos que a constroem?

Depois do frenesi imobiliário (que tem expulsado muitos moradores da zona sul e do centro), depois de tantos recursos públicos transferidos para empresas privadas na PPP do Porto Maravilha, de remoções forçadas de favelas, da metáfora do processo em curso na cidade expressa no jogo Banco Imobiliário Cidade Olímpica (produzido pela Estrela com recursos da prefeitura), vender os nomes das estações de metrô pode até parecer normal… No limite, se a toada é esta, o próximo passo será vender os próprios cariocas?

Em tempo: Soube recentemente que a prefeitura do Rio teve que recolher as unidades do Banco Imobiliário distribuídas para as escolas públicas municipais e que o Ministério Público do Rio de Janeiro instaurou um inquérito para investigar o contrato com a Estrela.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

São Paulo não pode perder chance de equacionar questão da moradia no centro

No início da semana, a revista Carta Capital divulgou em seu portal que a Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo publicará Decreto de Interesse Social de nove prédios localizados no centro da cidade – hoje ocupados por famílias sem teto – que serão desapropriados e reformados para fins de moradia. A iniciativa sem dúvida é muito positiva. O grande desafio, porém, é como garantir que a população mais pobre seja de fato beneficiada com as novas moradias. Preocupa, por exemplo, a declaração do secretário de Habitação José Floriano, que afirmou à reportagem que apenas 25% dos sem teto poderão ocupar os apartamentos reformados. Segundo o secretário, “[...]os apartamentos vão ficar numa faixa de valor final maior que a possibilidade do pagamento de uma família que ganha até três salários mínimos”.

Obviamente que se a lógica da política habitacional for “fechar a conta” e o modelo único for o da compra da unidade por parte da família, a maior parte das famílias será impedida de continuar vivendo no centro. Mas essa lógica precisa justamente ser combatida, especialmente quando se trata de prover moradia adequada para famílias de baixa renda.  Há outras equações possíveis, como, por exemplo, a locação social, um aluguel subsidiado que assegura o direito de morar, mas não transforma a habitação num ativo financeiro. Além disso, não é possível ignorar tantos anos de mobilização dos movimentos de moradia do centro, as experiências de autogestão que muitas ocupações desenvolveram, além de outras contribuições que essas pessoas têm a dar nesse processo. Seria um erro não desenhar um programa que aproveite essas experiências, já que uma das grandes dificuldades da pós-ocupação de Habitação de Interesse Social é justamente a gestão.

De acordo com a reportagem, a prefeitura afirma que vai oferecer alternativa de moradia às famílias de baixa renda em bairros afastados do centro. Este raciocínio é completamente equivocado, já que o custo da moradia na periferia, se considerar o gasto com transporte, entre outros, ao longo dos anos, é muito mais alto do que o preço do solo no centro. As lideranças das ocupações, portanto, têm razão quando reivindicam que a desapropriação dos prédios ocupados seja para atender suas associações e cooperativas.