A folia tem custos: mas quem paga?

No fim de semana passado, dezenas de blocos de carnaval tomaram conta das ruas de São Paulo como há muito tempo não se via. Mas quem já brincou carnaval em cidades como Recife, Olinda, Salvador e Rio de Janeiro sabe que a festa demanda uma grande infraestrutura: banheiros químicos, limpeza, segurança, gestão do trânsito, do transporte público, atendimento médico, entre muitos outros pontos.

Mas quem paga essa conta? Nas cidades que mencionei, além de investir recursos públicos, as administrações municipais costumam vender cotas de patrocínio para empresas. Em Salvador, por exemplo, de acordo com informações do jornal A Tarde, a prefeitura espera arrecadar cerca de R$ 18 milhões em cotas de patrocínio. No Recife, em 2012, a festa custou R$ 32 milhões, sendo que a maior parte foi bancada pela prefeitura da cidade. Este ano, a expectativa é arrecadar R$ 7 milhões com patrocinadores.

Mas nem sempre foi assim no Recife. Anos atrás, os patrocinadores financiavam diretamente os blocos. Quem recebia os recursos, por exemplo, era o Galo da Madrugada e outras agremiações mais organizadas. Foi necessária uma negociação complexa e conflituosa com os “grandes blocos” para promover um acordo centralizado com os patrocinadores, que hoje financiam infraestrutura para toda a programação da cidade e não apenas para algumas agremiações.

Aliás, vale ressaltar que os carnavais de Recife e Olinda são dos mais democráticos do Brasil, já que ninguém paga nada para participar (nada de abadá comprado e cordão de isolamento, como acontece em Salvador). É assim também no carnaval de rua do Rio de Janeiro, que vem crescendo ano a ano. A empresa contratada pela prefeitura para organizar a festa pretende este ano arrecadar R$ 12 milhões em patrocínios.

Se São Paulo de fato quiser ter um bom carnaval de rua, terá que enfrentar essas questões. Hoje alguns blocos têm patrocínio próprio, outros não têm nenhum recurso, mas o fato é que todos precisam de infraestrutura que garanta a realização da festa sem grandes transtornos pra cidade e seus moradores. A prefeitura já anunciou que em 2014 fará mais investimentos no carnaval. É o que a cidade espera. Afinal, muita gente quer brincar carnaval, mas ninguém quer ruas entupidas de lixo e com fedor de xixi…

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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4 comentários sobre “A folia tem custos: mas quem paga?

  1. São Paulo não só pode como deve investir no Carnaval de rua! A cidade é um poço escaldante de cultura, e não tem evento mais expressivo de ‘Brasilianidade’ do que o Carnaval. Contudo, eu concordo contigo Raquel de que tudo tem que ser muito em pensado e organizado. Aliás, não só este evento em particular, mas todos os outros devem ser melhor planejados numa Capital mundial comp São Paulo. Um exemplo de que isto não está sendo seguido foi o concerto de Andrea Bocelli no Jockey Club; reclamações a mil.
    Temos que mudar essa cultura de fazer tudo de qualquer modo. É possível fazer um bom evento e licrar com isso!

  2. Concordo com o Orlando Braga, no sentido de que o carnaval é uma forte tradição cultural em nosso país, isso é incontestável e acredito que imutavel. Ao mesmo tempo discordo, ao ver a nossa displicência em gastar horrores numa festa de rua e padecer em tantos outros aspectos e necessidades.

  3. Carnaval de rua sim, desfile de escolas de samba do Anhembi, não.

    A prefeitura gasta R$30 milhões/ano em ajuda às escolas de samba para produzirem um falso carnaval, uma cópia-pirata exatamente igual ao realizado no Rio. O resultado é nulo. Os jornais brasileiros simplesmente ignoram, não publicam, uma única linha. Turistas do mundo inteiro desembarcam no Rio, Salvador e Olinda para conhecer o ‘brazilian carnaval’.

    Lógico, não? Quem vai querer uma joia falsa quando a verdadeira está logo ali pertinho?

    O pior é que em São Paulo temos a mania de grandeza. Pensamos que fazendo maior, mais alto, mais largo ou mais comprido e caro, nosso carnaval agregará algum valor e reconhecimento. Ledo engano.

    É hora de São Paulo parar de copiar e criar seu próprio carnaval. Mas desta vez diferente do Rio. Caso contrário jamais obterá algum respeito dos brasileiros.

  4. Raquel, o que vem acontecendo, especificamente, na Cidade do Rio de Janeiro é um tal, Join Venture. Falando no português claro, parceiras. As tais parcerias que começam com a Prefeitura arrecadando dos patrocinadores de bebidas alcoólica,que faz a parceria com a Globo Rio, que escolhe as empresas de eventos, os organizadores, associação de bandas de carnaval, a Sebastiana e por último escolhe-se os tais blocos carnavalesco de massificação. A parir deste join Venture, o que seria a cultura vinda da iniciativa popular, entra em declínio. E assim, são todos eventos comemorativos vinda da camada popular. O tradicional Carnaval, que antigamente, chamávamos, de pé de chinelo, de rua ou de família acabou. Ou estamos sujeitos a participar de uma nova ordem cultural, pois, o Estado é paternal, e é ele que vai dizer o que você deve fazer, ou então, fica-se em casa ou vai viajar. O carnaval de massa como prega a Ivete Sangalo, a Claudia Leitte. Preta Gil (leia-se grupo Globo) e outros, você não brinca, ou se arrasta ou pula num cercado como um bando alucinado Brincar ou sambar, nem pensar. e depois, quando tudo acaba, o que seria na terça-feira, se prorroga para mais duas ou três semanas. Agora, no Rio inventaram que o Carnaval tem que ser 28 dias para mostrar ao Mundo que somos festeiros e felizes. E a ciranda econômica e a alienação não podem parar. Então deixa-se a cidade imunda, fedorenta, degradada em nome de uma cultura em que os entes públicos puxaram a responsabilidade para si, em nome do turismo de mochilas dos países fronteiriço ao nosso País, os dos nossos estados e municípios sem nenhum poder aquisitivo e econômico substancial Depois, todos vão embora, e deixam um rastro de sujeira e a poluição em todos os níveis. E quem paga esse ônus?

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