Número de mortes de motoqueiros em São Paulo se compara a situações de guerra

Sábado passado passei a manhã no pronto socorro da Santa Casa, em São Paulo, e algo me chamou a atenção. No curto período que estive lá, três jovens deram entrada no hospital por conta de acidente de moto. Fiquei pensando que, durante a semana, a situação deve ser ainda pior. Recentemente, no entanto, tivemos uma boa notícia sobre esse assunto. Pela primeira vez desde 2008, o número de mortes de motociclistas no trânsito de São Paulo diminuiu, passando de 395 mortes entre janeiro e setembro de 2011 para 331 no mesmo período deste ano, uma queda de 16,2%. Apesar disso, ainda morre um motoqueiro por dia no trânsito de São Paulo!

Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) a diminuição no número de mortes foi resultado da política de redução da velocidade máxima permitida nas vias da cidade. Grandes avenidas como a 23 de Maio e até mesmo as marginais dos rios Pinheiros e Tietê passaram a ter velocidade máxima de 60 km/h. Outro motivo seria o aumento da fiscalização, que procura coibir a imprudência dos motociclistas. Uma das medidas adotadas para isso foi a adoção de radares exclusivos para flagrar motos em alta velocidade. Na tentativa de investir na capacitação e conscientização dos pilotos de motos, a prefeitura de São Paulo inaugurou esta semana a “escolinha de motociclistas”, oficialmente chamada Centro Educacional Paulistano (Cepam), na Vila Carrão. A ideia é que a escola atenda 20 mil pessoas por ano, em cursos de pilotagem segura, de motofrete, entre outros.

A notícia da redução do número de mortes é boa – mas a questão da inserção das motos no trânsito das cidades está longe de ser resolvida com estas medidas. A frota de motos vem crescendo no país inteiro, tendo quadruplicado nos últimos dez anos, passando de 4 para 16 milhões. Hoje, em quase metade das cidades brasileiras, as motocicletas representam a maior parte dos veículos. Com a facilidade de crédito, em várias cidades, como São Paulo, é mais barato comprar e manter uma moto do que pagar a tarifa do transporte público. Segundo dados da CET, de 2005 até setembro de 2012, a frota de motocicletas da cidade passou de 494.928 unidades para 957.034, um aumento de 48,28%. E a frota de carros também cresce em ritmo exponencial.

A competição entre motos, carros, ciclistas e pedestres nas vias da cidade se dá num verdadeiro cenário de guerra onde, certamente, pedestres, motoqueiros e ciclistas são as maiores vítimas – porque estão mais expostos e vulneráveis. Mas, como em qualquer guerra, essa situação atinge a todos.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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4 comentários sobre “Número de mortes de motoqueiros em São Paulo se compara a situações de guerra

  1. 16,2% menos motociclistas mortos é sempre muito quando contabilizamos vidas preservadas ou muito pouco quando acompanhamos a mortalidade no trânsito de uma perspectiva histórica. Sim, as velocidades médias foram reduzidas nos principais corredores viários paulistanos; sim, finalmente superamos uma inviabilidade tecnológica para flagrar o excesso de velocidade de motociclistas; sim, restringiu-se a circulação de motocicletas nas vias expressas das marginais (ainda assim o endereço ainda hoje da morte sobre duas rodas). Ah! Sim, investimos alguma coisa em campanhas e materiais de prevenção. Tudo junto TALVEZ tenha contribuído para a 16,2% menos mortos motociclistas – nunca saberemos, muito menos tem como saber a CET-SP que como todo gestor de política pública é sempre míope para a avaliação de suas políticas. Não teríamos reduzido as mortes como reflexo da falência generalizada do negócio do motofrete, hoje muito mais formalizado, mais caro e oligopolizado em empresas “de logística”? Quem sabe não estamos assistindo a uma redução de exposição dos motociclistas ao trânsito paulistano? Nas minhas últimas idas a sampa e cruzando a cidade de um lado para outro, tenho a impressão de que há MENOS motociclistas nas vias (mesmo que a frota registrada ainda esteja em crescimento, o que aliás é algo que deve ter perdido grande parte da dinâmica porque a indústria de motocicletas tomou um gigantesco tombo de vendas nos últimos 3 anos). Como poderíamos saber se há uma correlação entre menos motocicletas circulando e menos mortos? Basta acessar as contagens de volume que a CET-SP faz regularmente nos principais corredores! Essa, no entanto, é informação que nem mais dentro da CET-SP é possível acessar… estranho. Bom, publiquei um post recentemente com um estudo escrito em 2009 sobre essa tragédia sobre duas rodas em São Paulo – http://biavati.wordpress.com/2012/10/26/mortos-e-feridos-sobre-duas-rodas-estudo-sobre-a-acidentalidade-e-o-motociclista-em-sao-paulo/

    Abraço

  2. Raquel,
    Posto aqui o relato que infelizmente muito compartilho em vivência de situações semelhantes ao artigo do link que lhe envio.

    http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-risco-de-andar-a-pe-em-s-paulo/

    Infelizmente, um dos maiores engodos é a faixa de pedestre. Brinco dizendo: Não morra em qualquer lugar. Morra aqui na faixa de pedestres! Isso considerando quando há, é claro faixa de pedestres e semáforos, estes últimos de tempos curtíssimos para pedestres (se para os saudáveis já é um perigo, imagina quando se está com mais idade, ou com problemas no pé, joelhos e/ou pernas!).
    Longe também de ser acessível para as pessoas com necessidades especiais (cadeirantes,cegos,etc) a travessia em tempo recorde dos segundos de verde para pedestres, na faixa. E ainda que o faça prodigiosamente, pode ser atropelado!
    Poderia narrar várias histórias da incivilidade desta cidade que presenciei ou que me foi relatado por conhecidos, não vou fazê-lo. Só ressalto que vidas se foram, ou ao menos, em grave riscos estiveram.

  3. Minha decepção com a parceria CET-ABRACICLO, que produziu o CEPAM Centro Educacional Paulista para Motociclistas, inaugurado hoje pelo prefeito Kassab, foi gerada pela grande expectativa de que essa união se refletiria na criação de um centro de excelência no treinamento para motociclistas, que seria de grande impacto, se tornando referência para todo o Brasil, que vive as consequências da má formação dos motociclistas, os quais são lançados ao perigo, para si e para demais usuários das vias.
    Afinal a entidade, que celebrou a parceria com a CET, é a representante de um grupo de empresas de alta tecnologia, com investimentos e lucros monumentais no Brasil.
    No meu entendimento essas empresas, preocupadas com a imagem social e politicamente correta, investiriam nesse centro de treinamento, toda sua expertise e verbas, para torná-lo uma grande vitrine de seu comprometimento com a causa da segurança dos usuários de seus veículos, ligando suas marcas à de uma empresa pública, que há mais de trinta anos trabalha nesse sentido, através de seu centro de educação para o trânsito (CETET, Av. Marquês de São Vicente, Barra Funda).
    Minha expectativa certamente foi gestada no imaginário que o marketing dessas empresas cria, nas propagandas e nas exibições de grandiosidade, em seus stands nas feiras de negócios, como o Salão Duas Rodas.
    Daí minha decepção e frustração. Todavia, é evidente que mesmo de forma tímida, um tanto provinciana para uma cidade do porte de São Paulo, terá efeito positivo se contornados problemas apontados na minha mensagem anterior. Principalmente no que diz respeito à contratação de mão de obra.
    Quanto à pequena dimensão da pista de treinamento e problemas com segurança dos alunos, dada à pequena área de escape lateral, isto poderá ser contornado, com adaptação dos exercícios pelos profissionais da educação para o trânsito ao local.
    Esperamos que a nova administração consiga aperfeiçoar essa parceria, em proveito da segurança dos usuários das vias públicas de São Paulo e ousar muito mais, criando outros centros de educação e treinamento, para motociclistas em outras regiões da cidade, com tecnologia mais apurada e, evidentemente, com a contratação de pessoal qualificado e bem treinado para exercer o ensino nessas unidades educativas.

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