De dentro pra fora: será que São Paulo está valorizando mais seus espaços públicos?

Recentemente tenho observado que vem se desenvolvendo em São Paulo uma nova cultura do uso dos espaços públicos da cidade. Depois de um intenso período de valorização do uso dos espaços fechados, que começou com a construção de shoppings nos anos 1970 e viveu sua explosão nos anos 1980 e 1990, parece haver agora alguns sinais de um movimento no sentido oposto, de retomada de uso mais permanente das ruas, praças e calçadas da cidade.

Os parques estão sempre lotados. Basta que a área tenha um mínimo de qualidade e cuidado que se enche de gente. Nos finais de semana, não apenas nos parques, mas também nas praças, sempre tem gente fazendo piqueniques. Até festa de aniversário de criança eu vi em algumas praças da cidade. Isso me chamou a atenção porque significa uma diferença radical com relação aos tradicionais buffets infantis. Uma festa infantil na praça tem outra lógica: se outras crianças estão presentes, imediatamente elas fazem parte da festa. Afinal de contas, uma festa num espaço público é necessariamente uma festa aberta.

Na Vila Madalena, na Praça das Corujas, um grupo está implantando uma horta colaborativa. E, ao que parece, este não é o único… de acordo com seus promotores, várias outras iniciativas deste tipo estão acontecendo neste e em outros bairros da cidade. Na Avenida Paulista e na Rua Augusta são muitos os trechos ocupados por gente tocando música, artistas de rua, jovens… Também percebo que existe uma movimentação no sentido de promoção de atividades e eventos nas ruas, como a festa junina colaborativa no Minhocão, os saraus em ocupações no centro ou em frente a prédios públicos, as atividades promovidas pelo pessoal do movimento Baixo Centro.

Aliás, é disso que se trata o evento que ocupou  – com milhares de pessoas – a Praça Roosevelt domingo passado, transformada em Praça Rosa. Batizado de Festival “Existe Amor em SP“, o evento reuniu moradores de São Paulo que reivindicam, essencialmente, mais espaços e serviços públicos, de qualidade e bem cuidados, e mais liberdade e criatividade em suas formas de ocupacao.

Foto: Fora do Eixo

 

Todos estes exemplos que eu dei sinalizam para uma possível mudança de cultura – ou pelo menos para o desejo de mudança – que valoriza a ideia do convívio, do compartilhamento do espaço público, do uso destes lugares para algo mais do que a circulação. O problema é a  necessária e urgente transformação na cultura da gestão da cidade, para que também transite nesta direção. Isso requer não apenas a priorização do cuidado com a qualidade de implantação e manutenção destes espaços, mas, sobretudo, a transformação de seu uso coletivo como prioridade, na contramão de uma visão securitária e funcionalista de cidade.

Texto originalmente publicado no Yahoo!Blogs.

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9 comentários sobre “De dentro pra fora: será que São Paulo está valorizando mais seus espaços públicos?

  1. Há um exemplo incrível desse resgate do convívio geracional, de qualidade e da transformação do uso coletivo do espaço – um resto de espaço, no final da Av. Dr. Arnaldo, esquina com a R. Cardoso de Almeida: o parque Zilda Natel. O parque tem aparelhos para ginástica, quadra de esporte e sua maior área dedicada aos skatistas – rampas de todo tipo, arquibancada sempre cheia de grupos de amigos, pais ansiosos e lá embaixo, jovens, marmanjos e crianças bem pequenas até em cima de um skate. É um espaço que vi surgir do nada, ser completamente tomado todos os dias da semana e, paradoxalmente, é um espaço cercado e vigiado permanentemente. O minúsculo parque é uma antítese viva de todas as demais “praças” completamente inúteis e abandonadas do Pacaembu e da vizinha Sumaré.

  2. Raquel: uma vez estive em uma palestra sua no Colégio Santa Cruz e fiquei muito contente com os elogios que você havia feito ao Parque Villa-Lobos, do qual eu era diretor à época, sem saber que eu estava presente. Depois conversamos e eu nunca mais deixei de seguir seus textos, com os quais eu muito já me identificava. Eu sempre digo que a praia dos paulistanos são os parques (e não os shoppings como sugerem as grandes grifes) e cabe às suas administrações democratizá-los cada vez mais e oferecer condições para que nele todas as classes sociais convivam em harmonia, como deve ser o convívio em uma praia. Acho que o paulistano há muito percebeu a necessidade de sair dos espaços fechados e talvez só não faça isso muito mais em função da insegurança de nossas ruas e da ausência de mais áreas verdes em diferentes regiões da cidade.

  3. É uma coisa boa que se observa na área central da de São Paulo – onde existem praças e parques. Que bom se isso se espalhasse pela cidade toda, mas aí vai depender de um governo que considere toda a população digna de ter praças, parques e outras áreas de convivência.

  4. Um dos principais exemplos desta retomada é a Praça do Ciclista.
    Até 2002, ela nem se chamava ‘praça’, não era mais que o canteiro central da Av. Paulista, que fica um pouco mais largo na sua extremidade com a R. Consolação, onde há um monumento e um pequeno canteiro com vegetação. O espaço continua fisicamente o mesmo, mas foi adotado pela Bicicletada – versão paulistana do movimento ‘Critical Mass’, nascido há 20 anos em San Franciso – como ponto de encontro oficial. Hoje o local é tomado por centenas de ciclistas toda última sexta-feira do mês, faça chuva ou faça sol, que saem para um giro noturno pela cidade desnudados das armaduras motorizadas. O movimento, além de defender o direto das bicicletas de trafegarem nas ruas, também busca o resgate dos espaços públicos como locais de reunião e convívio. Acredito que devemos ao movimento uma parte do atual ‘hype’ em torno das bikes e uma parte da incipiente infraestrutura cicloviária que começa a surgir na cidade, coisa impensável uma década atrás. E a Praça do Ciclista acabou virando ponto oficial de outras manifestações populares não necessariamente relacionadas à bicicleta.

  5. Há tempo e de maneira crescente, vejo e participo – aproveitando e também oferecendo – as mais diversas atividades em espaços públicos abertos e fechados como por exemplo o Centro Cultural São Paulo, a Umapaz – Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz, parques e praças. Só para citar um exemplo, as Danças Circulares são oferecidas voluntariamente nos parques de São Paulo há mais de 20 anos! A pioneira foi Bia Esteves que iniciou, se não me engano, no Parque Trianon. Hoje há danças circulares todos os domingos e em alguns dias da semana em vários parques da cidade (quem se interessar: http://www.dancacirular.com.br). Há práticas de Lian Gong, Tai-Chi e tantas outras! O que constato é que poucos munícipes aproveitam todas essas ofertas. Mais um exemplo, para finalizar: a Umapaz (procurem no google) oferece muitos cursos maravilhosos, gratuitamente, por ser um órgão municipal. Fui participar de um, “Ética no dia a dia”.Sabem quantas pessoas apareceram no 1º dia, de uma grande lista de inscritos? Eu e mais outra mulher. Parece que há um crença de que se é de “graça” (não é, porque pagamos muuuuitos impostos) não tem qualidade. Enfim, perde quem não aproveita. Há muita coisa maravilhosa e gratuita acontecendo nesta linda São Paulo!

  6. Acredito que a rua, (rua no sentido espacial) seja o espaço mais rico que já existiu, quando pensamos em construção de espaço, a diversidade cultural e a mistura, são fenômenos essenciais para a vida em sociedade. Quando a rua se transforma em parque, cadeiras e mesas cheias de gente, bancas de jornais, comércio de ambulantes, encontros e despedidas, esperas e turismo, são características de um espaço comum, que também posso chamar de “parque”. Para alguns a palavra parque tem o significado de “uma dádiva não conferida à população carente” que ainda não compartilham esse bem.
    A possibilidade, de uma tendência de mudança comportamental, em relação ao parque, (ainda em fase embrionária) é válida, não só em relação aos parques, mas no espaço urbano como, ruas, calçadas, calçadões, esquinas, ciclovias e outros.

  7. a utilização cada vez maior dos espaços púbicos em são paulo se dá a despeito da má conservação e da inexistência de mobiliário urbano adaptado `as necessidades da população. uma mentalidade exclusivista e mesmo higienista da utilização de praças e parques levou à instalação de bancos sem encosto, incômodos e desconfortáveis, como forma de afugentar os moradores de rua e andarilhos desses espaços. ocorre que, ao tentar excluir os despossuídos da convivência que esses locais poderiam oferecer, pune-se por consequência toda a coletividade, que se vê sem poder utilizar um equipamento adequado, que permita conferir a ele um momento de relaxamento, em que possa desfrutar do que ainda resta de belo nas praças e parques. enfim, sentar-se seja para descansar, ler um jornal ou apenas apreciar o movimento, flanar e ver a vida passar. para chamar a atenção para tal questão, criamos no facebook o grupo denominado “bancos com encosto para sampa!”, aberto para todos os interessados.

  8. Olá a todos. Com respeito ao centro da cidade e seus bairros mais próximos gostaria de citar que já acontecem muitas atividades por aqui. Na rua Conselheiro Crispiniano, Galeria Olido, Praça Dom José Gaspar, Largo Santa Cecilia, Praça Monteiro Lobato, Parque da Água Branca aberto até 22hs e por ai vai. Estes acontecimentos são diários. Existem há muito mais tempo que esta onda “urbana artística”. São acontecimentos moldados naturalmente por populares, moradores, por todos. Não são eventos, mas um modo de viver.
    Moro no centro de São Paulo e convivo com o dia e noite deste local. Também tenho acompanhado corporalmente ou virtualmente os novos movimentos que acontecem nesta região. O mais fiel à proposta de convívio social livre foi o citado no texto “Existe Amor em SP”. Este evento se pronunciou sem base central, sem dono e assim se faz até o momento. Este evento não foi extratificador e sim um verdadeiro colaborador.
    Porém os outros trabalhos que acompanhei e alguns citados no texto desta matéria, apesar de anunciarem um discurso amoroso e participativo, ainda sofrem dos moldes antigos contraditórios. Alguns são empresariais. Outros eventos não citados no texto da matéria se utilizaram das chamadas feitas com transparência. Isto para promover seu evento particular ou politico-empresarial. Infelizmente isto vem a confundir os viventes destas degradadas ruas da cidade.

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