São Paulo, túmulo do samba? Puro preconceito…

Pode não parecer, mas o carnaval faz parte da história da cidade de São Paulo e, particularmente, de alguns bairros da cidade que por muito tempo concentraram a população negra. Nestes lugares, surgiram, antes das escolas de samba, os chamados cordões ou grupos carnavalescos.

Os primeiros de que se tem notícia surgiram por volta de 1914 no bairro da Barra Funda, onde muitos negros trabalhavam como carregadores ao longo da linha do trem. Foi ali que Seu Dionísio Barbosa, o chamado Nhonhô da Chácara, fundou o cordão carnavalesco que, mais tarde, deu origem, junto com outros cordões, à escola de samba Camisa Verde e Branca.

Outro núcleo importante do carnaval de São Paulo é o bairro do Bexiga, que, no final do século XIX, era um quilombo e, no início do século XX abrigava uma comunidade negra muito importante. É lá que, anos depois, surge a nossa querida Vai-Vai.

Os cordões saíam pelo centro da cidade durante os dias de carnaval e não havia nada de oficial. Enquanto isso, na avenida Paulista, passavam corsos de automóveis elegantes que levavam em cima pessoas fantasiadas. Ou seja, os aristocratas e barões do café desfilavam de carro na Paulista e o povão se divertia nos cordões do Bexiga, da Barra Funda, do Brás e de outros bairros mais populares.

Outro lugar muito importante é a região do Lavapés, na baixada do Glicério, que é contemporânea à Barra Funda e também teve muitos cordões carnavalescos. E foi justamente a Lavapés a primeira escola de samba propriamente dita surgida em São Paulo, em 1937, sob influência das escolas do Rio de Janeiro.

Em seguida, a Camisa Verde e Branca e a Vai-Vai vieram também a  se estruturar em torno dessa nova forma de fazer o carnaval, que é a escola com mestre-sala, porta-bandeira, ala das baianas (introduzida pela Dona Eunice, na Lavapés). E depois, então, começam a surgir novas escolas e novos núcleos de carnaval, que corresponderam à migração da comunidade negra do centro em direção às periferias.

Nos anos 50, por exemplo, surge a Nenê da Vila Matilde, primeira escola de samba da zona leste, também muito importante na estruturação do carnaval paulista. Logo em seguida, aparece na zona norte a Mocidade Alegre, no bairro do Limão, e a Rosas de Ouro, que nasce na Brasilândia e hoje está na Freguesia do Ó.

Em 1967 tem início a oficialização do desfile das escolas de samba. Até então, as escolas faziam seus próprios percursos pela cidade. Em 1968 acontece o primeiro desfile oficial, na avenida São João, que abrigou o evento até 1977, quando ele passou para a avenida Tiradentes. Os mais velhos devem lembrar das arquibancadas que eram montadas e desmontadas na Tiradentes…

Em 1991 é que o desfile é transferido para o sambódromo e passa a ter então uma sede exclusiva. E nesse percurso as escolas passaram a se enquadrar a determinadas regras e requisitos para poder desfilar, e aí, de certa maneira, o carnaval deixa as ruas e adentra uma estrutura mais oficializada.

Mas isso aconteceu apenas em parte. Muitos blocos de rua ainda resistem na cidade de São Paulo. Mas talvez seja no interior do Estado que isso se dê de forma mais forte. A Folha de São Paulo publicou no fim de semana passado uma interessante matéria sobre a tradição dos bonecos gigantes e cabeções em cidades do interior, como São Luiz do Paraitinga, São José dos Campos e Santana do Parnaíba.

Seguindo essa tradição, o Museu da Língua Portuguesa organiza, pelo segundo ano consecutivo, um desfile de bonecos gigantes na Praça da Luz, neste sábado, às 13h.

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2 comentários sobre “São Paulo, túmulo do samba? Puro preconceito…

  1. Olá Raquel, estou escrevendo um livro reportagem sobre o samba em São Paulo. Gostaria de conversar com você, por telefone ou e-mail que seja, só para saber sua opinião sobre “o tumulo do samba”. É mesmo ou não é? Se não é, porque é tão difícil mudar essa ideia?
    Aguardo retorno, meu e-mail é vanessaalves.comunicacao@gmail.com

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